Um Recomeço no Rio

1139 Words
Betina Ferrarini Eu que tanto falei que a ideia da minha mãe era absurda e totalmente sem sentido, agora estou aqui no aeroporto, sentada sozinha, aguardando o embarque para o Rio de Janeiro. m*l posso acreditar que realmente tomei essa decisão. Por dias, lutei contra a sugestão de abandonar tudo e sair da cidade onde passei a vida toda, mas quanto mais eu pensava, mais percebia que continuar ali, chorando pelos cantos, não ia adiantar nada. Talvez mudar de ares fosse exatamente o que eu precisava — uma tentativa de escapar das lembranças dolorosas que me sufocavam. Ontem à noite, minha mãe conversou com a tia Verônica, que, para minha surpresa, ficou empolgada com a ideia. Minha prima também parecia animada em me receber. Foi tudo tão rápido que m*l tive tempo de processar. Minha mãe comprou a passagem pela internet, e antes que eu pudesse mudar de ideia, estávamos no meu quarto, organizando as malas. — O que você tanto faz nesse celular, Betina? — minha mãe perguntou, enquanto dobrava minhas roupas com cuidado. — Estou mandando uma mensagem pro Kaio. Terminando tudo. — Falo com um nó na garganta, os dedos tremendo enquanto digito as últimas palavras para ele. — E apaguei todas as nossas fotos das redes sociais. Desativei até minha conta no f*******: e apaguei o i********:. Quero começar do zero. Ela me observou em silêncio por um momento, os olhos cheios de uma tristeza silenciosa. — E você acha que isso vai te ajudar, filha? — ela pergunta, a voz calma, mas cheia de preocupação. — Apagar as lembranças é um começo, mãe. Não quero mais nada que me lembre daquele traste e da Sabriny. — Eu suspiro, tentando esconder o tremor na minha voz. — Preciso me libertar desse peso. E isso inclui até as fotos. Minha mãe se aproximou e me envolveu em um abraço apertado, cheio de carinho. — Eu só quero te ver feliz, meu amor. Longe daqueles dois. — Também te amo, mãe. Você é a melhor pessoa desse mundo. — A abraço de volta, sentindo o conforto do seu toque. — Promete que vai me ligar todos os dias? — Ela pede, um toque dramático no tom que sempre usava para me arrancar um sorriso. — Prometo, mama. Vou sentir sua falta. — Digo enquanto luto para segurar as lágrimas que insistem em brotar. O que mais me dói nessa partida é deixar minha mãe sozinha. O momento do adeus veio rápido demais. Quando anunciaram o meu voo, dei o último abraço apertado nela, tentando gravar seu cheiro e seu toque na memória. Sinto uma pontada no peito ao vê-la acenar enquanto me afasto, mas sei que essa é a melhor decisão. É agora ou nunca. Preciso desse recomeço. No portão de embarque, antes de guardar o celular, tiro uma foto com as malas e posto no i********: pela última vez antes de desativar novamente. Post via i********:: vida nova ✈️ Suspiro fundo, desligo o celular, e sigo para o embarque, tentando não olhar para trás. De agora em diante, tudo é incerto, mas estou disposta a encarar o que vier. Assim que desço do avião no Rio, sou recebida por uma lufada de ar quente e úmido. O calor daqui é completamente diferente de Minas. Respiro fundo, tentando acalmar o turbilhão de emoções que me atormenta. O cheiro salgado do mar se mistura com a expectativa nervosa que sinto no peito. Aqui, eu realmente não posso mais voltar atrás. É encarar essa nova vida de cabeça erguida. Ligo o celular e, instantaneamente, sou bombardeada por uma enxurrada de notificações. Mensagens do Kaio, da Sabriny, comentários falsos nas minhas redes sociais. Eles ainda estão tentando se fazer de desentendidos, mas para mim, não há mais espaço para mentiras. Decido encerrar tudo ali mesmo, de uma vez por todas. Mensagem para Kaio: Não seja falso, seu traidor. Espero que seja feliz com a cobra da Sabriny. Vocês dois se merecem. Bloqueio o número dele antes que ele tenha a chance de responder. Mensagem para Sabriny: Eu sei de tudo, sua falsa. Espero que esteja feliz agora que conseguiu o que queria. Vá pro inferno! Com o coração ainda batendo acelerado, arranco o chip do meu celular e jogo em uma lixeira próxima. Vou até uma loja no aeroporto e compro um chip novo. É o primeiro passo para deixar tudo para trás. Ao sair do aeroporto, vejo uma morena alta, de cabelos cacheados e sorriso largo, segurando uma placa com meu nome: "Betina Ferrarini". Ela acena animadamente assim que me nota e caminho em sua direção. — Acho que essa placa é pra mim. — digo com um sorriso nervoso. — Cara, tu demorou pra caramba! — ela resmunga, me abraçando de forma calorosa. O abraço dela é firme, cheio de uma energia contagiante. — Tive uns imprevistos... E troquei meu chip antes de sair. — Digo, dando de ombros enquanto ela me ajuda a colocar minhas malas no porta-malas de um carro preto. — A tia comentou com a minha mãe que você vinha porque rolou um lance lá com teu namorado. Mas disse que você contaria quando estivesse pronta. — Confortável ou não, vou contar. Se vamos "morar" juntas por um tempo, é melhor que estejamos em pratos limpos. — Suspiro, tentando manter a voz firme. Ela me olha com admiração. — Assim que se fala, garota! Já gostei de você. — Ela sorri, me ajudando a entrar no carro. Enquanto dirigimos, o rádio toca um funk animado, e minha prima dança no banco ao lado, cheia de uma energia vibrante. — Esse carro é seu? — pergunto, tentando me distrair do nó que ainda sinto no estômago. — Sim, maneiro, né? — Lindo demais. — Digo, genuinamente impressionada. — Se tiver carteira, te deixo dirigir qualquer dia desses. — Ela piscou, aumentando o som. Eu não consigo evitar o riso. Há quanto tempo eu não sorria assim? Parece que, mesmo que por um momento, o Rio está conseguindo me arrancar da minha bolha de tristeza. — Você já decidiu o que vai estudar? — Ela pergunta, quebrando o silêncio. — Quero fazer enfermagem. — Respondo, ainda incerta sobre o futuro, mas certa de que quero ajudar outras pessoas. — Não acredito! Vamos fazer o mesmo curso! — Ela grita, quase me ensurdecendo com sua animação. — Isso se a gente passar, né? — Digo, tentando não soar tão pessimista, mas ela não me deixa cair na negatividade. — Ei, pensamento positivo! Vamos arrasar! — Ela ri, ligando o pisca-alerta para fazer uma curva fechada. Por um instante, me permito acreditar que ela está certa. Talvez esse recomeço seja exatamente o que eu preciso. Enquanto ela dança ao som do funk, sinto uma leveza que há muito tempo não experimentava. Rio de Janeiro, aí vou eu.
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