Betina Ferrarini
Durante o trajeto até a casa da minha tia Veronica, ela disparou um turbilhão de perguntas: sobre o término, o que eu faria agora, se pretendia trabalhar. Respondi o que pude, desviando das que ainda me machucavam.
— Nada de pensar em problema hoje, ok? — Carol gritou por cima da música. — Hoje é dia de celebrar sua chegada. Essa cidade tem o poder de curar qualquer coisa.
Por um momento, com o vento quente bagunçando meu cabelo e a música alta abafando meus pensamentos, eu quase acreditei nela.
Chegamos à casa da tia Veronica no fim da tarde. A casa era grande e charmosa, com paredes brancas e detalhes em azul. Assim que entramos, fui acolhida por um aroma doce de lavanda, misturado ao cheiro do mar que vinha da praia próxima. Tia Veronica me recebeu com um abraço caloroso e um sorriso que transmitia calma.
— Finalmente chegou, minha querida! Vamos, deixa eu te mostrar onde você vai ficar — disse, pegando minha mão e me guiando pela casa.
Carol seguiu atrás de nós, saltitando como uma criança.
— E esse aqui vai ser o seu quarto! — anunciou, empurrando a porta de um cômodo iluminado. O espaço era acolhedor, com uma cama confortável coberta por lençóis brancos e uma janela que dava para um jardim ensolarado.
— Uau, é lindo... — murmurei, sentindo um aperto no peito. Era real, eu estava mesmo começando de novo, a quilômetros de distância de tudo que conhecia.
Carol me ajudou a organizar minhas roupas, jogando algumas camisetas de lado e comentando que eu precisava renovar meu guarda-roupa para combinar com a "vibe do Rio". Ela era uma tempestade de energia que me fazia rir, mesmo quando eu tentava permanecer séria.
— Agora conta aí, Bê, como foi que você largou tudo e fugiu pra cá? — ela perguntou, sem rodeios, enquanto dobrava uma blusa minha.
Eu respirei fundo. Parte de mim queria desabafar, mas outra parte só queria enterrar essas lembranças. Carol, no entanto, tinha um jeito de te fazer falar.
— No sábado, ele me chamou pra ir na casa dele dizendo que tinha uma surpresa. Coloquei a lingerie que ele sempre dizia que adorava... — falei, a voz falhando. — Quando cheguei lá...
— Ele estava com outra? — Carol interrompeu, os olhos se estreitando.
Assenti com um aceno, sentindo o nó na garganta apertar.
— E o pior? Era com a Sabriny, minha suposta melhor amiga.
O silêncio se instalou por um segundo antes que Carol soltasse um palavrão.
— Que filha da mãe! Eu teria jogado um vaso na cabeça dos dois! — ela disse, indignada.
— Não faz meu tipo. Preferi sair calada, chorei no carro... Depois mandei uma mensagem pra ele dizendo que acabou e bloqueei os dois — expliquei, tentando soar mais resoluta do que realmente me sentia. — Minha mãe sugeriu que eu viesse pra cá, pra tentar recomeçar.
— Você merece coisa melhor, Betina — Carol disse, com uma convicção que quase me convenceu. — Aqui você vai encontrar pessoas que te valorizem. E já pode me considerar sua nova melhor amiga.
— Vou segurar você a essa promessa, hein! — brinquei, tentando aliviar o clima.
Na manhã seguinte, acordei com os raios de sol invadindo meu quarto. Passei a noite rolando na cama, tentando convencer a mim mesma de que fiz a escolha certa ao vir para o Rio, mas o fantasma do que deixei para trás ainda me assombrava.
— Bom diaaa! — Carol entrou no meu quarto como um furacão, puxando as cortinas e abrindo a janela.
— Nossa, você sempre acorda assim tão animada? — perguntei, ainda tentando me livrar do sono.
— Claro que sim! Hoje é dia de praia, nada de ficar aqui pensando em boy lixo! — ela decretou, me jogando um biquíni.
Me vesti rapidamente, sem protestar. Talvez um mergulho no mar fosse mesmo o que eu precisava para me libertar de tudo. Na cozinha, tia Veronica já tinha preparado um café da manhã caprichado.
— Bom dia, meninas! Vão bater perna pela cidade? — ela perguntou, com aquele sorriso que fazia você se sentir em casa.
— Vou arrastar a Bê pra praia — Carol disse, piscando para mim.
Enquanto tomávamos café, eu me sentia acolhida, como se finalmente pudesse respirar um pouco mais leve. Talvez, só talvez, o Rio pudesse curar minhas feridas.
Na praia, a água era azul e reluzente sob o sol forte. A brisa do mar me envolvia como um carinho, e pela primeira vez em semanas, senti algo parecido com esperança. Estendemos nossas cangas, alugamos um guarda-sol e nos jogamos ali, como se não houvesse amanhã.
Carol, incansável, sugeriu tirarmos algumas fotos para postar no i********:.
— Vamos, Bê! Nada melhor do que mostrar pra todo mundo que você tá vivendo sua melhor vida — ela insistiu, já sacando o celular.
Acabei cedendo. Posei com uma prancha emprestada de um surfista e postei: Nada melhor que uma manhã na praia 🌊. Foi estranho, mas também libertador. Talvez reinventar minha vida começasse com essas pequenas mudanças.
— Aposto que já está se sentindo melhor só de estar aqui — Carol comentou, deitando-se ao meu lado.
Olhei para o horizonte, deixando o som das ondas me embalar. — Eu precisava sair da minha cidade. Ficar lá só ia me fazer pior.
— Ninguém melhora no mesmo ambiente onde se machucou, Betina — Carol disse, com sabedoria incomum. — E aqui, eu prometo, você vai se encontrar de novo.
Depois de passarmos um bom tempo brincando na água e rindo como crianças, voltamos para casa exaustas, mas com os corações um pouco mais leves. Na volta, enquanto nos arrumávamos para ir embora da praia, Carol me olhou com aqueles olhos brilhantes.
— Betina, quero que você saiba que aqui você sempre vai ter um lugar. Não importa o que aconteça, estou do seu lado.
Eu a abracei forte, sentindo lágrimas silenciosas rolarem. Dessa vez, eram lágrimas de alívio.
— Obrigada, Carol. Você é a irmã que eu sempre quis ter.
Enquanto o sol se punha atrás das montanhas, senti um fio de esperança se acender dentro de mim. Talvez o Rio de Janeiro fosse mesmo o lugar onde eu poderia me redescobrir.
Depois do banho refrescante, eu e Carol colocamos uma roupa leve e começamos a preparar o almoço juntas. O ambiente se encheu com o som animado de um sertanejo tocando na caixinha de som. Decidimos manter o cardápio simples: filé de frango grelhado, arroz integral, uma salada colorida e, para refrescar, suco de abacaxi com hortelã. Era o tipo de refeição que fazia bem tanto para o corpo quanto para a alma.
Sentadas à mesa, aproveitando o almoço, Carol se recostou na cadeira e comentou:
— Estou tão ansiosa pela nota do Enem — disse ela, tomando um gole do suco.
— Relaxa, vai dar tudo certo! Daqui a pouco a gente já vai estar na faculdade — e o melhor, no mesmo curso e na mesma sala! — acrescentei, tentando passar um pouco de otimismo.
— Verdade! — Ela sorriu, empolgada. — Assim que sair o resultado, teremos o mês de fevereiro inteirinho pra nos organizar. E o que mais amo é comprar material escolar. Me dá uma sensação de novo começo, sabe?
— Eu também adoro essa parte, mas, sinceramente, o que estou mais ansiosa é para o Carnaval. Nunca fui em nenhum bloquinho, e sempre que via na TV, ficava louca pra participar!
Carol me olhou como se eu tivesse dito a coisa mais absurda do mundo.
— Como assim você nunca foi num bloquinho de Carnaval? — perguntou incrédula.
— Juro que não! — dei de ombros, meio sem graça. — O Kaio sempre falava que era muita bagunça, que não era ambiente pra "meninas como eu". — revirei os olhos ao lembrar das restrições que ele me impunha.
Ela fez uma careta de desdém.
— Aff, machista demais! — disse, com indignação. — Pode esquecer essa história! Este ano, você vai pra vários bloquinhos, e vamos nos divertir como nunca.
— Fechado! — disse, rindo. — E, já que estamos fazendo listas, coloca aí que também quero ir a uma boate e dançar até não aguentar mais.
Carol arqueou as sobrancelhas, surpresa.
— Caramba, garota, o que você fazia antes? Que vida regrada era essa? — perguntou, rindo.
— Bom... — comecei, suspirando. — Eu e o Kaio íamos ao cinema, a aniversários de amigos, comíamos fora... Mas ele nunca me deixava dançar, reclamava das roupas que eu usava, do meu jeito de falar. Ele não queria uma namorada, queria uma boneca de porcelana. — bufei, frustrada por perceber como eu havia me permitido ser controlada por tanto tempo.
Carol balançou a cabeça, descrente.
— Ah, Betina, aposto que ele reclamava de você, mas babava pelas que faziam tudo o que ele te proibia. — Ela revirou os olhos, cheia de desprezo. — Por isso que, sinceramente, não me amarro em macho nenhum.
Eu ri, mas com um toque de melancolia.
— Um dia você vai encontrar alguém que te faça mudar de ideia. Amar vale a pena quando é com a pessoa certa. Estou começando a perceber que o que eu perdi, na verdade, não era grande coisa.
Ela deu de ombros, rindo.
— Talvez. Mas, por enquanto, meu foco é sair, estudar, e levar a vida na leveza. Sem amarras! — disse ela, me lançando um sorriso travesso. — E vou te dizer, ele é quem saiu perdendo, bebê. m*l te conheço, mas já percebi que você é incrível.
Sorri, grata pelo carinho.
— Obrigada, Carol. Acho que você está me ajudando a perceber que é disso que eu preciso agora também: um pouco de leveza.
Terminamos o almoço, arrumamos a cozinha, e logo estávamos deitadas no sofá, prontas para uma maratona de séries.
— Você já viu Gossip Girl? — Carol perguntou, enquanto mexia no controle remoto.
— Ainda não. Queria começar, mas minha ex-amiga sempre dizia que era horrível.
Ela soltou uma risada debochada.
— Bom, ela tem o mesmo gosto terrível para séries que tinha para homens, já que pegou o teu ex. — Ela riu alto. — Mas eu nunca vi também, então não posso julgar ainda. Vamos assistir juntas!
Concordei, e Carol colocou o primeiro episódio na TV. Fechamos as cortinas, ligamos o ar-condicionado e nos aconchegamos no sofá, prontas para nos perder na história.
Enquanto Carol estava concentrada na série, eu não conseguia deixar de observá-la, pensando em como, em apenas dois dias, ela já havia se tornado uma presença tão importante na minha vida. Era difícil de acreditar que há tão pouco tempo eu estava me sentindo tão sozinha e perdida.
Carol era como um raio de luz que surgiu justamente quando eu mais precisava. Ela tinha uma maneira única de enxergar a vida — leve, descomplicada, e com uma alegria contagiante. Mesmo sendo um furacão de energia, sabia ser carinhosa e atenta. Ter alguém como ela por perto era um presente que eu nem sabia que precisava. Ela estava me mostrando que amizades verdadeiras podem surgir nos momentos mais inesperados.
Naquele instante, enquanto a série rolava e os risos ecoavam pela sala, me senti, pela primeira vez em muito tempo, grata pelo futuro incerto que me aguardava. Porque, com Carol ao meu lado, eu sabia que esse novo começo no Rio de Janeiro tinha tudo para ser melhor do que eu poderia imaginar.