Decido sair do barco quando não sinto mais o calor do sol batendo na coberta sobre mim. Porém, antes mesmo de me levantar, algo atinge o barco com força, quase o virando. Tiro a coberta rapidamente e vejo vários lobos correndo ao lado do barco, tentando saltar para dentro. Que sorte a minha... entrar no território de uma alcatéia de lobisomens!
Seguro a adaga na cintura. Nunca enfrentei lobos antes, mas sei o quanto são perigosos. Esses monstros têm garras afiadas, uma força brutal e uma toxina em sua mordida letal para vampiros. Preciso manter a atenção. Um deslize pode significar minha morte.
Um dos lobos consegue pular para dentro do barco. Sem pensar duas vezes, chuto-o com força, e ele cai na água, sendo levado pela correnteza.
— Vira-latas idiotas — murmuro, rindo da situação.
Logo, percebo que os lobos começam a diminuir o ritmo, o que me deixa confusa. Achei que tivessem desistido, mas, ao olhar à frente, entendo o porquê: há uma barreira de pedras no caminho, e o barco está prestes a colidir. Preciso sair agora!
Quando o barco se aproxima da margem, pulo, caindo de joelhos e me levantando rapidamente. Mas sou imediatamente abordada por um homem com roupas de pele animal, que me encara com ódio.
— Nos chamou de idiotas, é? Vamos ver quem é o i****a agora, sanguessuga — ele diz, a voz carregada de desprezo.
Um lobo se lança contra mim. No momento em que ele chega perto o suficiente, chuto-o no rosto, fazendo-o desabar no chão. Sempre gostei de usar os pés. Outro lobo vem em seguida, e desta vez salto por cima dele, cravando a adaga em suas costas. Ouço-o uivar de dor.
— Sua morta-viva! Vai se arrepender de ter ferido meu companheiro — grita o homem. Ele faz um sinal com a mão, e um lobo enorme, de pelagem marrom, surge na minha frente. Ele avança com a boca escancarada. Não vou conseguir chutar ou pular sobre ele dessa vez. Antes que possa reagir, ele salta em mim, e eu seguro seu pescoço, afastando a cabeça dele da minha.
— Chega! Ela é só uma criança — ouço outra voz. O lobo interrompe o ataque e recua. Tento me levantar, mas uma dor aguda na perna me faz olhar para baixo e perceber que fui arranhada sem notar.
— Alfa, ela atacou um dos nossos homens e o feriu gravemente — diz o primeiro homem, olhando para alguém com cabelo castanho.
— Foram vocês que a atacaram primeiro — responde o alfa, visivelmente irritado. Ele caminha em minha direção e estende a mão. Fico dividida entre aceitar a ajuda ou não, mas estou ferida e sem condições de continuar brigando.
Aceito a mão dele, embora isso me incomode. Ele examina minha perna e, ao perceber que não consigo andar, meu coração dispara quando ele me pega nos braços.
— Não está pensando em me devorar, está? — pergunto, meio assustada, enquanto ele caminha em direção à floresta.
— Não, vampira. A carne de vocês é podre — responde ele, fazendo com que me sinta ofendida.
— O sangue de vocês também deve ser horrível — murmuro, sabendo que ele ouviu.
— Vamos direto ao ponto. O que faz no meu território, sanguessuga?
— Eu estava indo para o norte até que seus vira-latas me atacaram — retruco, com uma pontada de irritação.
— Você nunca deveria ter invadido nosso território. Por que está sozinha, ainda tão nova?
— Eu posso me proteger sozinha.
— Eu vi o quão perigosa você é, vampira. Mas qualquer lobo beta ou alfa acabaria com você facilmente. Você só supera os ômegas.
Aprendo um pouco sobre a hierarquia deles: os alfas são os líderes, seguidos pelos betas, que são os mais fortes depois deles, e os ômegas, os mais fracos.
— Você é o alfa, não há ninguém acima de você? — pergunto, curiosa.
— Meu nome é Luan. Alfa não é meu nome.
— E o meu também não é vampira. É Eva. Vai responder minha pergunta ou não?
— Existem várias alcatéias por aí, todas com essa hierarquia. E acima de todos os alfas há o Supremo Alfa.
— Por que está me ajudando? Não deveria estar me contando essas coisas, já que sou uma vampira.
— Eu odeio vampiros. Vocês sempre se acham superiores a todos, querem tudo só para vocês. Mas você é só uma criança, e, mesmo sendo uma vampira, não posso deixar que a matem.
O queixo de Luan endurece, e percebo que ele tem um coração bom. Meu pai sempre disse que pessoas assim são as primeiras a morrer. A sobrevivência exige egoísmo.
— O que vai fazer comigo? — pergunto, desconfiada. Estamos nos aproximando de uma vila com várias casas de madeira. É até bonita.
— Vou cuidar de você até que possa ir embora. Espero que não me traga problemas no futuro, sanguessuga.
— Pensei que lobisomens tivessem nomes de cachorro, tipo Rex, Hunter, Billy, Apolo, Nick, Theo...
— Está ofendendo o nome do Supremo — ele responde, sério.
— Então ele tem nome de cachorro. Qual dos que eu falei? — provoco.
— Hunter. E esse nome não é de cachorro.
— É sim. Eu tinha um pastor alemão chamado Hunter.
Lembro-me do dia em que Nathaniel matou meu cachorro. Chorei muito naquela época, e meu pai apenas disse que a dor da perda diminuiria com o tempo. Aprendi, então, que vampiros são amaldiçoados a ver tudo ao redor morrer enquanto continuamos vivos.
Desde então, fiz da vida de Nathaniel um inferno. Coloquei fogo na cama dele, aumentei a temperatura do aquecedor enquanto ele tomava banho... Sebastian nunca quis se envolver em nossas brigas. Ele só se focava nos estudos e em aprender a governar um reino. No fim, acabou sendo o favorito de nosso pai.
Minhas lembranças não são as melhores. Sinto um peso nas memórias.
— Você vai ficar em minha casa por enquanto. Quando sua perna se recuperar, irá embora — declara Luan, ao entrarmos em uma grande mansão de madeira.
Ele me leva até um quarto e me deixa em uma cama. Depois, uma mulher aparece e trata dos meus ferimentos, que, estranhamente, ainda não se curaram como deveriam.