Isadora Narrando
Meu nome é Isadora Lins. Tenho dezenove anos. Sou preta, uso trança afro porque é assim que eu me reconheço no espelho. Sou magra, tenho olhos castanhos e lábios carnudos que sempre chamaram atenção, mesmo quando eu só queria passar despercebida. Minha vida nunca foi fácil, mas também nunca foi vazia de luta.
Fui criada pela minha mãe. Sozinha. Mulher forte, daquelas que seguram o mundo nas costas sem reclamar. Meu pai nunca existiu pra mim. Ela criou eu e meus irmãos com o pouco que tinha, trabalhando feito condenada. Eu sou a caçula. Sempre fui a que ficava mais perto dela.
Quando a minha mãe morreu, tudo desmoronou.
Meus irmãos seguiram a própria vida. Cada um foi cuidar do seu canto, do seu problema, do seu futuro. Eu fiquei. Sozinha. Tinha dezesseis anos e permaneci na casa que era da mamãe. Trabalhava só pra me manter. Pagava conta, fazia compra, sobrevivia. Meus irmãos só apareciam pra falar da casa.
— Essa casa é da família.
Mas nunca era da família quando eu precisava de ajuda.
Com dezessete anos, fui trabalhar numa casa de família. Serviço doméstico. Foi lá que conheci o Jean, o filho da minha patroa. Ele era bonito, arrumado, vivia dizendo que gostava de mim. No começo eu resisti, sabia da diferença entre a gente. Mas a gente se envolveu.
Quando a mãe dele descobriu, me mandou embora.
Sai tranquila. Ela me pagou tudo certinho. Não fiz escândalo. Mas o Jean veio atrás de mim. Disse que me amava, que queria ficar comigo. Começamos a namorar. Pouco tempo depois, eu engravidei.
Quando meus irmãos descobriram, me expulsaram de casa.
— Aqui você não fica com filho de homem nenhum.
Expliquei que o Jean era rico, que eu não precisava da casa, que não ia trazer ninguém pra morar lá. Mesmo assim, me mandaram sair. Jean alugou um apartamento pra mim. Eu fui morar lá. Ele não morava comigo. Aparecia de vez em quando. Dormia uma noite, duas no máximo.
A mãe dele descobriu.
E fez da minha vida um inferno.
Minha gravidez foi um caos. Humilhação, ameaça, pressão psicológica. Quando meu filho nasceu, fizeram o DNA. Deu positivo. Mesmo assim, ela não me deu sossego. Tentou tirar meu filho de mim. Disse que eu não tinha condição de criar criança nenhuma.
Meu filho se chama Miguel.
Depois que ele nasceu, o Jean começou a mudar. Ficou agressivo, impaciente.
— Você só liga pra esse moleque.
Eu cuidava do nosso filho, só isso. Um dia precisei de ajuda com o encanamento da cozinha. O vizinho, que era bombeiro hidráulico, me ajudou. Quando ele tava saindo, o Jean chegou.
Aquele dia virou um pesadelo.
Ele me chamou de vagabünda. Me empurrou. Me bateu. Me jogou no chão. Eu não gritei. Chorei baixinho porque o Miguel dormia no sofá. Eu não queria que meu filho visse aquilo.
Depois ele me arrastou pro quarto.
— Eu não dou conta de você agora? Tem que chamar outro macho?
O que ele fez comigo naquele quarto destruiu alguma coisa dentro de mim. Me deixou machucada, sangrando, quebrada por dentro e por fora. Depois foi embora como se nada tivesse acontecido.
Naquela noite, mesmo destruída, eu tomei coragem.
Arrumei uma bolsa grande pro Miguel. Uma mochila pra mim. Enrolei meu filho numa coberta e saí. Chamei um carro de aplicativo.
— Me deixa no Morro do Macaco.
Eu sabia que lá não se bate em mulher. Sabia que o dono do morro protegia. Não fazia ideia de quem era ele. O motorista me deixou na parte de baixo.
— Daqui pra cima é perigoso.
Paguei, agradeci e fiquei sentada num banco de madeira, com o Miguel no colo, até o dia amanhecer. Quando clareou, falei com um rapaz que passava.
— Moço, Como faz pra alugar um barraco aqui?
— Fala com o Memeu. Braço direito do Cão.
Subi mais um pouco. Vi homens armados. Minhas pernas tremiam. Mesmo assim, pedi pra falar com o Memeu. Ele veio. Contei minha situação. Não falei que tava fugindo de marido agressor. Só disse que não tinha pra onde ir e que podia pagar três meses de aluguel adiantado.
Ele me escutou com atenção. Disse que tinha barracos mobiliados. Me levou pra ver. Foi respeitoso. Chegou a se oferecer pra segurar o Miguel, mas eu não deixei. Não conhecia ele.
O primeiro barraco que vi, fiquei.
Acertamos tudo. Ele me explicou as regras do morro. Nada de polícia. Nada de confusão. Nada de roubo dentro da comunidade. Respeito com moradores. Mulher não apanha. Criança é sagrada. Quem quebra regra responde.
Quando ele foi embora, fui até a padaria da esquina. Tomei café, comprei umas coisas. Quando cheguei no barraco, vi que não tinha gás. Saí de novo atrás disso. Aos poucos, fui ajeitando tudo.
Conheci dona Ofélia, minha vizinha. Senhorinha boa, mora sozinha. Me deu dinheiro pra limpar a casa dela. Gostou tanto que disse que eu ia fazer todo mês. Comprou coisas pro Miguel.
Dois meses se passaram.
O dinheiro começou a acabar. Eu precisava de emprego e de uma creche. Dona Ofélia disse que no morro tinha creche.
— Vai lá, menina. Assim você trabalha tranquila.
Ela não podia ficar com o Miguel. Tinha problema nos ossos. Meu filho é gordinho.
Um dia bateram na porta. Achei que fosse dona Ofélia.
Era o Jean.
Tentei fechar, ele empurrou a porta. Entrei em pânico. Ele mandou eu calar a boca. Pegou o Miguel no colo. Depois que meu filho dormiu, começou tudo de novo. Apanhei no rosto, nas costelas. Ele cheirou pó. Perdi a noção do tempo.
— Pega o moleque. A gente vai embora.
Eu Disse que não ia. Ele falou que me matava ali e levava meu filho pra mãe dele criar. Me levantei, dolorida, peguei o Miguel.
Quando cheguei perto dos homens armados, comecei a gritar.
— Socorro!
Ele me puxou pelos cabelos. Me arrastou.
Os homens renderam ele. Eu me encostei num muro, tremendo, com o Miguel no colo. Chamaram o Cão.
Quando ele chegou, eu vi um homem loiro, alto, forte. Voz grossa, rouca. Ele mandou matar o Jean. Depois estendeu a mão pra mim.
— Vai pra casa. Tá resolvido.
Voltei pro barraco. Dei de mamar pro Miguel. Passei a noite chorando.
Nunca fiz mäl a ninguém.
E mesmo assim, a vida só me bateu.