04 - Cão de Raça

1236 Words
Cão de Raça Narrando Acordei cedo pra c*****o. Ainda tava escuro, aquele silêncio estranho antes do morro acordar de vez. Fui direto pro banheiro, liguei o chuveiro no frio sem pensar duas vezes. A água gelada bateu no corpo feito tapa, despertando cada osso. Respirei fundo, senti o peito abrir, a mente clarear na marra. Era disso que eu precisava. Saí do banho, peguei o beck que já tinha deixado bolado na noite anterior. Acendi e puxei devagar. A primeira tragada sempre rasga a garganta, mas logo vem aquele calor bom descendo, relaxando os ombros, soltando a cabeça. A fumaça entrou pesada, saiu lenta. O mundo deu aquela desacelerada básica, os pensamentos pararam de atropelar uns aos outros. Não fico chapado, fico acordado do jeito certo. Focado. É tipo alinhar a mira. Saí do quarto já mais leve, andando pela casa que é só minha. Aqui não entra ninguém. Nunca entrou. Eu varro, eu passo pano, eu faço minha comida quando tô afim de comer. Lavo minhas roupas, dobro do meu jeito. Não gosto de gente rondando meu espaço, mexendo no que é meu. Minha casa é minha fortaleza. Fui pra cozinha e passei um café forte, daqueles que acordam até defunto. O cheiro subiu na hora, misturando com o resto da fumaça no ar. Dei o primeiro gole e senti o coração acelerar de leve. Agora sim. Corpo acordado, cabeça funcionando. Desci pra boca. O movimento começando devagar, os vapores chegando, moto subindo, gente cumprimentando. Puxei o rádio e chamei o Memeu. — Memeu, chega aqui. Não demorou muito e o filho da mãe apareceu, com aquele sorriso estampado na cara logo cedo. Eu já senti a irritação subir. — Qual foi, chefe? — ele falou, todo animado. Olhei pra ele de cima a baixo. — Que pörra é essa alegria sete da manhã? Quem Carälho acorda rindo? Ele soltou uma gargalhada. — Quando se tem uma büceta na tua cara às seis da manhã, não tem como não sorrir, né não? Man, eu não aguentei. Ri alto. — Ah, cê é maluco — falei balançando a cabeça. — Assim a conversa muda de figura. Fiquei sério de novo. — Agora me diz uma coisa. Quero saber mais da garota de ontem. E quem era o merdinha do marido dela. O sorriso dele deu uma diminuída, entrou no assunto. — Então, fui eu mesmo que aluguei o barraco pra ela. — Onde? — perguntei na hora. — Botei ela na oito, ali do lado da goma da dona Ofélia. Já virou amiga da velha até. Chegou com uma criança, pediu pra falar comigo, falou que precisava de um canto urgente. Cruzei os braços, ouvindo atento. — Continua. — Depois eu fui atrás pra saber quem tinha falado meu nome pra ela. Foi um morador. Os moleque disseram que ela passou a noite ali no banco de madeira, perto do ponto do mototáxi. Não tinha pra onde ir. Aquilo foi encaixando na minha cabeça devagar. Nada acontece por acaso. — E o marido? — perguntei. — Quero nome. Só o nome. Memeu coçou a cabeça, deu uma respirada funda antes de falar. — Do marido eu não sei nada — disse, abaixando um pouco o tom. — Foi resolvido. Do jeito que o senhor mandou. Levantei a sobrancelha, não de surpresa, mas de confirmação. Eu já sabia. Só queria ouvir da boca dele. — Então não me enrola — falei firme. — O que eu quero saber agora não é sobre ele. Quero saber sobre ela. Dei dois passos pra frente, encostando perto demais. Memeu endireitou a postura na hora. — Nome dela, idade, de onde veio, quem ela conhece, quem indicou meu nome. Tudo. Até o jeito que ela respira eu quero saber. — Já tô puxando isso, chefe — ele respondeu rápido. — Sei que ela não apareceu aqui à toa. Assenti devagar. — Exato. Ninguém cai no meu território com criança no colo, pedindo abrigo, sem ter rastro. E rastro sempre leva a alguém. Olhei em volta, a boca começando a ferver, rádio chamando, moto subindo, vida seguindo como se nada tivesse acontecido. — Quero saber quem mandou ela pra cá — continuei. — E se ela sabe demais ou se tá só fugindo de algo maior. Memeu concordou com a cabeça. — Hoje ainda eu te entrego a ficha completa. — Melhor — respondi seco. — Porque eu não gosto de surpresa. E quando alguém aparece na minha área carregando passado, eu faço questão de saber se esse passado vai bater na minha porta. Ele saiu rápido, já no corre. Fiquei ali parado, sentindo o resto do beck no corpo, mas com a mente afiada igual lâmina. Eu tinha mandado apagar o marido, sim. Isso já era página virada. O problema agora é saber se veio só, ou se trouxe bagagem na cola. A manhã correu no ritmo de sempre, do jeito que só quem puxa comando entende. Dei um giro pelos acessos, conferi a contenção, troquei ideia no rádio com os frente de área, cobrei postura, cobrei atenção. Aqui não tem espaço pra vacilo. Dei ordem pra reforçar dois pontos que achei frouxos, mandei trocar turno de sentinela e resolvi uma treta pequena entre dois vapor que tavam se estranhando por besteira. Cortei na raiz. Disciplina mantém tudo de pé. Perto do meio-dia desci pro bar do Bil. Lugar simples, mas a comida é boa. Sentei na mesa de sempre, pedi prato feito, arroz, feijão, bife acebolado e farofa. Enquanto comia, fui observando o movimento da rua, gente indo e vindo, criança correndo, vida seguindo. É isso que eu protejo aqui, mesmo que ninguém entenda do lado de fora. Bil puxou conversa fiada, respondi o básico. Chefe não se expõe demais. Depois do almoço voltei pro QG. Já tava resolvendo umas pendências quando o Memeu apareceu, cara séria dessa vez, sem aquele sorriso de palhaço. — Cão, puxei tudo. Encostei na mesa e fiz sinal pra ele falar. — O nome dela é Isadora. Dezenove anos só. Órfã de mãe. Pai ninguém sabe quem é. Tem mais três irmãos, mas nenhum dá bola pra ela. Franzi a testa, prestando atenção. — Ela vivia com o tal do Jean, pai da criança. Mas o Rogerinho apurou que a mãe dele nunca gostou da garota. Tentou tirar o filho dela algumas vezes. Balancei a cabeça devagar. — Então é fuga. — Provavelmente. A dona Ofélia comentou que ela veio parar aqui por causa da fama do morro. Levantei o olhar na hora. — Que fama? — A tua, chefe. Que aqui ninguém encosta em mulher, nem em criança. Que agressão não fica impune. Aquilo bateu diferente. Fiquei em silêncio por um segundo. — Trombei com ela agora há pouco — ele continuou. — Botou o moleque na creche e tá atrás de trampo. — Arruma um pra ela. Memeu me olhou meio torto, quase sorrindo. — Tá achando que eu sou ONG agora? — Tenho cara de palhaço? — cortei. — Vai fazer o que eu mandei. Ele assentiu e saiu dizendo que ia ver com os chegados quem precisava de ajuda. Encostei na cadeira e pensei alto, mais pra mim do que pro mundo. — Agora eu quero saber é o seguinte, quem é a mãe desse Jean. E por que ela odeia tanto essa menina. Porque ninguém foge com filho no colo sem motivo. E eu não gosto de ponta solta.
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