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1211 Words
Judá Narrando Meu nome é Josué Navarro, tenho 31 anos e sou o dono do morro da Glória. Não cheguei aqui por acaso, nem por sorte. Cheguei porque aprendi cedo que o mundo só respeita quem impõe respeito. E quem não aprende isso rápido, não dura. Sou filho único. Meu pai já partiu dessa pra melhor. Melhor pra mim e pra minha mãe. Foi tarde, desgraçado. Cresci vendo aquele homem bater nela como se fosse normal. Como se mulher fosse saco de pancada. Só que minha mãe nunca foi fraca. Revidava do jeito que dava. Não tinha a mesma força física, mas tinha coragem e ódio acumulado. Já raspou muita cabeça de marmita, já deu corretivo em muito folgado. Mulher de pulso firme. Teve vezes dela arrumar as coisas pra ir embora. Eu pequeno, vendo ela dobrar roupa com a mão tremendo. Aí o infeliz se ajoelhava, chorava, pedia perdão, prometia mudar. Patético. Ela ficava. E assim eu cresci, aprendendo que promessa vazia machuca mais que tapa. Aprendendo que quem ama também pode destruir. Isso moldou quem eu sou. Me ensinou a não confiar fácil. A não me abrir. A não deixar ninguém enxergar minhas fraquezas. Porque quando enxergam, usam contra você. Sempre usam. Hoje eu sustento a máscara. Homem frio, calculista, sem sentimento aparente. Filho da put@ mesmo, tá ligado? E sustento bem. Aqui no PPG ninguém confunde respeito com amizade. Cada um no seu lugar, cada um sabendo até onde pode ir. Minha mãe ainda tá viva. Graças a Deus e à força dela. Casou de novo, com o contador do comando. Pelo menos esse não bate nela. E não é por ser bonzinho, não. É por medo. Porque além de eu não ser mais moleque, ele não é meu pai. Se levantar a mão pra ela, eu estouro a cara dele com uma azeitona de aço. Ele sabe disso. E gente que sabe não brinca com a própria vida. Não sou de conversa. Não faço amizade fácil. Na real, quase não faço. Aqui em cima, amizade vira moeda. E toda moeda tem preço. Meu braço direito e sub é o Fabinho. Amigo de infância. O único que sobrou. Cresceu comigo correndo pelos becos, dividindo pipa, dividindo risco, dividindo silêncio. Ele me conhece melhor do que qualquer um, mas nem com ele eu me abro. Ele percebe as coisas mesmo assim. Fabinho: Tu tá quieto demais hoje, Judá. Judá: Sempre fui quieto. Ele dá aquele meio sorriso de quem não engole a resposta inteira. Fabinho: Quieto é uma coisa. Pensativo é outra. Eu ignoro. Olho pro morro lá de cima. Vejo criança jogando bola, mulher subindo com sacola pesada, som batendo em alguma casa mais abaixo. Tudo funcionando. Tudo no eixo. Tudo sob controle. Tudo meu. Não falo do que sinto porque, pra falar a verdade, nem eu sei o que eu sinto. Cresci engolindo coisa demais. Raiva, medo, revolta. Uma hora isso vira pedra. E pedra não fala, não chora, não pede ajuda. Eu só cuido do que é meu. Minha mãe. Meu morro. Minha palavra. Já tá de bom tamanho pra uma vida inteira. Aqui quem vacila cai. Quem trai desaparece. Quem respeita vive. Simples assim. Às vezes, de madrugada, quando o silêncio pesa diferente, eu lembro do moleque que fui. Dos gritos dentro de casa. Da vontade de crescer rápido pra acabar com aquilo. Eu consegui. Do meu jeito. Caminho torto, escolha pesada, mas consegui. Fabinho: Tu já pensou em baixar a guarda um pouco? Eu dou um riso curto, sem humor. Judá: Guarda baixa é convite pra caixão. Ele fica quieto. Ele sabe que comigo é assim. Não acredito em amor. Não acredito em final feliz. Acredito em lealdade e consequência. O resto é ilusão pra quem pode se dar ao luxo de sonhar. Eu não sonho. Eu vigio. Hoje é meu aniversário. Nunca fui de comemorar data nenhuma, mas esse ano eu resolvi fazer diferente. Diferente do meu jeito. Nada de multidão, nada de gente curiosa, nada de mulher de respeito. Hoje é só os chegado. Amanhã, sim, o morro vai saber que eu tô vivo. Amanhã tem baile pra geral. A casa já tá daquele jeito. Som baixo por enquanto, gelo estalando no cooler, mesa cheia de bebida. Tudo no controle. Aqui dentro é território meu, ninguém pisa fora da linha. Fabinho chega primeiro, como sempre. Fabinho: Parabéns, chefe. Mais um ano mandando nessa porr@ toda. Judá: Enquanto tiver pulso firme, ninguém toma. Ele ri, me entrega um copo e já se espalha pela sala como se fosse dele também. Na real, quase é. Se tem alguém que pode ficar à vontade aqui, é ele. A rapaziada vai chegando aos poucos. Só quem eu confio. Quem já provou lealdade. Nada de convidado de convidado. Aqui não tem espaço pra surpresa. Eu encosto no sofá, observo. Gosto de ver tudo de cima, mesmo quando tô no meio. Mania de quem não dorme com os dois olhos fechados desde moleque. Bebo. Um gole vira dois, dois vira quatro. A tensão do dia a dia dá uma folga. Hoje eu deixo. Fabinho: Hoje tu vai relaxar, né? Nem parece teu aniversário. Judá: Relaxar é palavra forte. Mas hoje eu não vou pensar em nada. Ele brinda comigo. Fabinho: Então brinda a isso. Brindo. A música sobe um pouco mais. A vibe esquenta. E no meio disso tudo, eu vejo ela. Morena, corpo que chama atenção sem pedir permissão. Vestido colado, olhar direto, sem medo. Marmita. Daquelas que sabem onde tão pisando. Ela me encara como se já soubesse quem eu sou. Todo mundo sabe. Aqui ninguém finge. Ela se aproxima devagar, segura meu copo, chega perto demais. Morena: Feliz aniversário. A voz dela bate diferente, mas eu não paro pra analisar. Hoje não é dia de análise. Judá: Valeu. Ela sorri. Daquele jeito que não promete nada, mas entrega tudo. A bebida já tá fazendo efeito. O som, a casa cheia, o clima solto. Quando vejo, já tô puxando ela pela mão. Sem palavra, sem cerimônia. Subimos pro quarto como se o resto da casa não existisse. Não lembro o nome dela. Não fiz questão. Só sei que foi intenso. Foi quente. Foi do jeito que tinha que ser. Corpo colado, respiração pesada, tudo acontecendo rápido demais pra virar lembrança detalhada. Só sei que foi bom. Muito bom. Depois, fico deitado olhando pro teto. Ela dorme de lado, cabelo espalhado pelo travesseiro. Eu levanto sem fazer barulho, pego a camisa e volto pra sala. Sempre faço isso. Não é frieza, é costume. A festa continua. Mais bebida, mais conversa, mais risada solta. O clima é leve. Raro isso. Fabinho me olha de canto. Fabinho: Tá melhor agora? Judá: Tô. Ele entende. Sempre entende. Já passa da madrugada quando a casa começa a esvaziar. Um por um vai embora. Só os mais próximos ficam até o fim. Eu encosto na janela e olho o morro lá fora, iluminado aqui e ali. Amanhã isso aqui vai ferver. Amanhã é o baile. A comemoração de verdade. Som alto, luz, gente pra todo lado. O PPG inteiro sabendo que Judá Navarro fez mais um ano e ainda tá de pé. Hoje foi só o esquenta. Do meu jeito. Mais um ano vivo. E isso, pra mim, já é muita coisa.
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