Ayla Narrando
Hoje eu tava na cademia quando a Rafaela me mandou mensagem. O celular vibrou em cima do banco, eu tinha acabado de terminar a última série e sentia aquele cansaço bom, de missão cumprida. Duas horas bem aproveitadas. Treino pesado. Vim de patins, só pra fechar o cardio do jeito perfeito. Quando vi o nome dela na tela, sorri sem perceber.
Rafaela: Tá afim de um rolê bem aleatório, e bem duvidoso hoje?
Ri sozinha e respondi na hora.
Ayla: Depende do nível de aleatoriedade.
A resposta veio rápido demais, como se ela já estivesse esperando.
Rafaela: Baile funk, topa?
Meu coração acelerou de um jeito absurdo. Parei. Literalmente. Me sentei no banco, puxando o ar, como se tivesse levado um susto bom. Baile. Funk. Eu nunca tinha ido. Nunca mesmo.
Ayla: Onde?
Rafaela: No morro da Glória. Hoje é aniversário do dono, o famoso Judá.
Senti um frio na barriga que desceu direto pra perna. Meu Deus. Deve ser muito top. Pensei isso antes mesmo de responder.
Ayla: Deve ser insano.
Rafaela: É sim. Os melhores bailes são os de comemoração. E ainda mais aniversário, do chefe.
Fiquei olhando pra tela do celular por alguns segundos. Meu coração batendo rápido demais. Uma vontade louca de dizer sim misturada com a certeza de que meus pais jamais deixariam. Especialmente meu pai. Ele provavelmente já ia me mandar mensagem mandando eu ir pra casa. Meu pai marca em cima, ele diz que é para mim a segurança. Mas eu sei que é apenas para alimentar o seu lado autoritário, talvez ele não consiga mandar em ninguém na delegacia. E desconta tudo em mim.
Me levantei, ainda meio aérea. Fui até o armário particular da academia, guardei meus tênis, peguei os patins e calcei do lado de fora. Coloquei os fones, aumentei o volume. Funk. Meu pai nem sonha que eu escuto essas músicas. Ele diz que é música de maconheiro. Eu nunca concordei. Eu gosto. Gosto da batida, da liberdade que dá. MC Cabelinho e Ret são meus favoritos.
Cheguei em casa com o corpo cansado e a mente acelerada. Tomei banho demorado, água quente escorrendo enquanto eu pensava se era loucura demais cogitar aquilo. Me vesti normal. Roupa básica. Cara de quem não vai sair.
Minha mãe apareceu na porta do quarto arrumada demais pra ficar em casa.
Olívia: Vou sair. Noite das garotas com as meninas do consultório.
Engraçado. Minha mãe tem noite das garotas. Eu não posso ter nada.
Ayla: Quer que eu faça companhia pro pai?
Eu detesto quando fico sozinha com ele. Ele bebe e começa a falar das operações, do dia que prendeu tal traficante, de como salvou o mundo mais uma vez. Sempre as mesmas histórias.
Ela sorriu.
Olívia: Não precisa. Ele vai dobrar o plantão hoje.
Por fora, eu assenti normal. Por dentro, eu dei pulos de alegria. Minha mãe perguntou se eu iria ficar bem sozinha, respondi que sim. Falei que treinei muito eu estava cansada.
Esperei ela sair. Fiquei alguns minutos parada no meio do quarto, pensando. Aí me mexi rápido, como se o tempo pudesse acabar. Arrumei a cama, coloquei dois travesseiros cobertos, simulando um corpo deitado. Velho truque. Fui até o closet e puxei um vestido preto que eu tinha comprado há tempos. Colado no corpo, a******a na cintura, decote do tipo que eu nunca teria coragem de usar perto do meu pai. Nunca tive onde usar. Até agora.
Coloquei um salto dentro da mochila, junto com a nécessaire de maquiagem, meu melhor perfume. Peguei a bolsa pequena. Mandei mensagem pra Rafaela.
Ayla: Me espera na sua casa.
Ela respondeu com um monte de emoji animado.
Deixei o celular em casa. O coração apertou um pouco com isso, mas era necessário. Chamei um táxi, paguei em dinheiro. Quando cheguei na casa da Rafa, já era dez da noite.
Ela abriu a porta sorrindo.
Rafaela: Sabia que tu vinha.
Nos arrumamos juntas. Música alta, risada nervosa, maquiagem carregada. Quando saímos, fomos no carro de um amigo dela. No caminho, meu estômago revirava. Medo e empolgação, não quero nem pensar no que meu pai vai fazer comigo, se descobrir.
Chegando perto do morro, tivemos que deixar o carro embaixo.
Amigo da Rafa: Daqui pra cima é a pé ou de moto.
Eu comecei a rir.
Ayla: Com esse vestido? Nem pensar em moto.
Rafaela riu também.
Rafaela: Então vambora andando.
Subimos. Não era tão longe, ainda bem. Cada passo parecia tirar um peso de cima de mim. O som já batia forte lá em cima, ecoando pelos becos. A luz piscava, gente passando, risadas, cheiro de bebida, de comida, de vida acontecendo.
E eu senti. Uma sensação estranha e maravilhosa. Liberdade. Ninguém me conhecia ali. Ninguém sabia quem era meu pai. Eu não era a filha do delegado. Eu era só a Ayla. Isso me deu vontade de chorar e rir ao mesmo tempo.
Quando chegamos ao baile, parecia outro mundo. O som alto, a multidão dançando, corpos suados, música vibrando no peito. Dancei. Dancei sem pensar em nada. Bebi. Não muito, mas o suficiente pra deixar tudo mais leve. Rafaela puxava minha mão, ria, gritava no meu ouvido.
Rafaela: Tá vendo? Eu falei!
Eu só conseguia sorrir.
Em um momento, senti um silêncio estranho ao meu redor. Um rapaz armado apareceu do meu lado. Meu coração quase saiu pela boca.
Rapaz: Você é convidada do camarote.
Eu congelei.
Ayla: Como assim?
Ele apontou pra cima. Olhei. O amigo da Rafa estava lá em cima, encostado, sorrindo.
Ayla: Só vou se minha amiga for também.
O homem assentiu com a cabeça.
Rapaz: Podem subir.
Subimos. Cada degrau parecia me levar pra mais longe da minha vida normal. Quando cheguei no último, levantei o olhar.
E foi aí que eu vi.
Um homem moreno, forte, todo tatuado. Tranças bem feitas, postura de quem manda sem precisar falar. Ele me encarou da cabeça aos pés, sem pressa, como se estivesse me lendo. Meu coração disparou de um jeito diferente. Ele sorriu de lado. Um sorriso lento, seguro, perigoso.
E eu soube, naquele exato instante, que nada naquela noite seria só uma aventura.