Ayla narrando
Sentei na beira da cama com as pernas ainda meio bambas. Meu corpo estava ali, mas minha cabeça ainda parecia estar no morro, no som, nas luzes, no cheiro da madrugada. Minha mãe continuava sentada na minha frente, me olhando em silêncio. Aquele silêncio me sufocava mais do que qualquer grito do meu pai faria.
Respirei fundo. Não adiantava mentir. Com ela, nunca adiantou.
Ayla: Mãe, eu fugi.
Ela fechou os olhos por um segundo, como se já soubesse.
Ayla: Eu fui num baile. No morro da Glória.
As palavras saíram de uma vez, como se eu estivesse arrancando algo preso no peito. Minha mãe levou a mão ao rosto devagar, esfregando a testa, claramente tentando manter a calma.
Olívia: Meu Deus, Ayla.
Engoli em seco e continuei, antes que faltasse coragem.
Ayla: Eu sabia que vocês não iam deixar. Eu precisava sair, viver um pouco. Eu me senti presa, sufocada. Então eu fui. Eu sei que foi errado.
Ela ficou alguns segundos em silêncio. Meu coração martelava tão alto que eu tinha certeza que ela escutava. Então ela respirou fundo e falou, num tom mais baixo.
Olívia: Seu pai ainda não chegou.
Senti um alívio tão grande que quase chorei.
Olívia: Graças a Deus.
Aquela frase soou pesada. Real. Ela se levantou da cama e começou a andar pelo quarto, passando a mão pelos cabelos, visivelmente nervosa.
Olívia: Você tem noçã0 do perigo que se meteu?
Ayla: Tenho, agora tenho.
Minha voz saiu baixa, sem defesa. Eu não estava ali pra justificar nada. Só pra ser honesta.
Olívia: Ayla, você não pode se misturar com esse tipo de ambiente. Não é sobre preconceito, é sobre realidade. Se seu pai sonhar com isso, ele enlouquece. E não é só você que sofre. É todo mundo.
Assenti com a cabeça, sentindo os olhos arderem.
Ayla: Eu só queria me sentir livre, mãe. Só por uma noite.
Ela parou na minha frente e me olhou de um jeito diferente. Não tinha raiva. Tinha medo.
Olívia: Eu sei que você é jovem. Sei que sua vida é muito controlada. Mas tem coisas que não dão segunda chance. E esse mundo não perdoa.
Fiquei em silêncio. Pela primeira vez, eu entendi o medo dela. Não como filha protegida, mas como mulher. Como mãe.
Olívia: Promete pra mim que não vai fazer mais isso.
Ayla: Prometo.
Ela suspirou fundo, como se estivesse soltando um peso enorme dos ombros. Se aproximou e beijou minha testa com carinho, aquele gesto simples que sempre me acalmou desde criança.
Olívia: Vai tomar um banho. Tenta dormir. Depois a gente conversa melhor.
Assenti novamente. Ela saiu do quarto devagar, fechando a porta com cuidado, como se eu ainda fosse uma menina pequena.
Fui direto pro banheiro. A água quente caiu sobre mim, levando embora o cheiro da rua, da fumaça, do baile. Fiquei ali parada por alguns minutos, deixando os pensamentos desacelerarem. O rosto do Judá passou pela minha mente, junto com o sorriso, a voz, o jeito calmo.
Balancei a cabeça, tentando afastar tudo.
Quando voltei pro quarto, me joguei na cama ainda de cabelo molhado. O cansaço finalmente venceu a adrenalina. O corpo relaxou, os olhos pesaram.
Apaguei.
E antes de dormir completamente, tive certeza de uma coisa.
Não quero cumprir a promessa, quero ir no morro outra vez.
Dormi o dia inteiro. Quando finalmente abri os olhos, o quarto já estava escuro, silencioso demais. Por um instante fiquei confusa, sem saber se ainda era madrugada ou se eu tinha simplesmente apagado por horas demais. Me sentei na cama devagar, sentindo o corpo pesado, mas a cabeça curiosamente leve.
Levantei, fui até o banheiro e lavei o rosto. A água fria ajudou a despertar de vez. Quando saí do quarto, ainda ajeitando o cabelo, ouvi a voz do meu pai vindo da sala. Meu coração deu um pulo automático, como sempre.
Ayrton: Até que enfim resolveu acordou, né? Tentei falar com você várias vezes hoje.
Minha mãe estava na mesa, organizando o jantar. Ela levantou o olhar de leve, só pelo canto dos olhos, como quem diz pra eu ir com calma.
Ayla: Meu celular descarregou. Aproveitei pra descansar um pouco.
Ele me analisou por alguns segundos, sério, como se estivesse tentando achar uma brecha na minha resposta. Depois apenas resmungou algo sobre jovens e falta de responsabilidade. Sentei à mesa tentando parecer normal, mesmo com o estômago meio apertado.
Jantamos em silêncio. Meu pai falou do trabalho, de uma operação qualquer, como sempre. Minha mãe ouvia, assentia, mudava de assunto quando dava. Eu comia sem sentir muito o gosto da comida, contando os minutos pra poder voltar pro meu quarto.
Assim que terminei, me levantei.
Ayla: Vou dormir, amanhã tenho aula.
Minha mãe assentiu. Meu pai não disse nada.
Entrei no quarto e fechei a porta. A primeira coisa que fiz foi pegar o celular que eu tinha deixado desligado. Coloquei pra carregar e liguei. Em segundos, a tela começou a piscar com notificações acumuladas. Mensagens, chamadas perdidas, tudo chegando de uma vez.
Meu coração acelerou.
Abri as mensagens e uma, em especial, chamou minha atenção. Um Número desconhecido. Quando cliquei, senti o peito dar um salto.
Mensagem: Fala, ruivinha. É o Judá. Salva aí.
Meu sorriso surgiu automático, grande demais pra eu conseguir controlar. Senti o rosto esquentar, o coração bater mais rápido. Antes mesmo de responder, outra notificação apareceu. Era da Rafaela.
Quando abri, ela tinha mandado um print. Reconheci na hora a conversa. Fabinho pedindo meu número pra ela.
Mensagem da Rafa: Amiga, o Fabinho pediu seu número pra passar pro Judá. Parece que o chefe gostou de você, hein.
Levei a mão à boca, rindo sozinha no quarto escuro. Voltei pra conversa com o Judá e respondi.
Ayla: Já salvei.
A resposta veio rápido demais, como se ele estivesse esperando.
Judá: Sumiu hoje.
Ayla: Dormindo o dia inteiro. Vida complicada.
Ele mandou um áudio curto dizendo que queria me ver de novo. Que tinha gostado da noite, da conversa, de mim. Ouvir a voz dele no meu ouvido fez meu estômago revirar de um jeito bom.
Sorri sozinha mais uma vez antes de digitar.
Ayla: Eu também quero te ver de novo.
Enviei a mensagem e deitei na cama, encarando o teto. O medo ainda existia. Meu pai, as regras, os riscos. Mas, naquele momento, tudo que eu conseguia sentir era expectativa.
E um sorriso que simplesmente não queria ir embora.