Ayla narrando
Depois de tudo que aconteceu no sofá da sala, eu ainda sentia o corpo leve, quente, as pernas bambas como se cada toque tivesse ficado marcado na pele. Fiquei ali por alguns segundos, tentando regular a respiração, enquanto Judá me observava com aquele olhar calmo e atento, tão diferente da imagem dura que ele passa pra todo mundo.
Judá: Vem, vamos tomar banho, delícia.
Sorri de leve quando ele estendeu a mão pra mim. Não conhecia nada ali além da sala, então deixei que ele me conduzisse. Caminhamos pelo corredor em silêncio, só o som dos nossos passos e do coração batendo forte no meu peito.
Quando entramos no banheiro, senti o contraste do ambiente mais claro, amplo, com o vapor começando a se formar assim que ele ligou o chuveiro. Judá se aproximou por trás, envolveu minha cintura com calma, sem pressa nenhuma. Era diferente. Não tinha urgência, não tinha atropelo. Tinha cuidado.
Judá: Relaxa, ruivinha.
Fechei os olhos quando senti a água quente começar a cair sobre nós. O toque dele ali, naquele espaço pequeno, parecia ainda mais intenso. As mãos firmes, seguras, como se ele quisesse me mostrar que eu estava protegida ali.
Judá saiu por um instante, rápido, e voltou logo em seguida. Nem precisei perguntar nada. Ele estava atento a cada detalhe, e isso me fez sorrir sozinha. Eu já tinha vivido outras experiências antes, rápidas, sem muita entrega. Mas com ele era diferente desde o começo.
A água escorria pelos nossos corpos, o vapor subindo, deixando tudo mais lento, mais íntimo. Judá encostou a testa na minha, respirando fundo, como se estivesse absorvendo aquele momento.
Judá: Tu faz a gente esquecer do tempo.
Aquela frase me arrepiou inteira. Levei a mão até o rosto dele, deslizando os dedos devagar, sentindo a textura da pele, a barba por fazer. O beijo veio calmo, profundo, cheio de intenção. Nada era apressado. Cada gesto parecia pensado.
Eu me sentia completamente presente. Sem medo, sem culpa, sem pensar em mais nada além daquele instante. A água quente, o cheiro dele misturado ao vapor, o toque firme, mas cuidadoso. Tudo se encaixava de um jeito que eu nunca tinha sentido antes.
Ayla: Com você é diferente.
Ele sorriu de leve, daquele jeito de canto de boca, e me puxou mais pra perto, como se quisesse confirmar que aquilo era real. E era. Intensamente real.
O tempo ali dentro parecia não existir. Tudo aconteceu de forma natural, sem exageros, sem pressa. Calmo, quente, envolvente. Um momento que não precisava de palavras pra ser entendido.
Quando finalmente desligamos o chuveiro, o banheiro estava tomado pelo vapor, e eu me sentia estranhamente em paz. Judá pegou uma toalha, me envolveu nela antes mesmo de pensar nele próprio, um gesto simples que disse muito.
Judá: Fica tranquila.
Aquele cuidado, aquela atenção, ficaram gravados em mim mais do que qualquer outra coisa. Não foi só sobre desejo. Foi sobre presença, sobre conexão, sobre sentir que aquele momento tinha significado.
Enquanto saíamos do banheiro, ainda de mãos dadas, eu soube que aquilo não tinha sido só mais uma noite. Foi calmo. Foi quente. Foi intenso.
E, sem dúvida nenhuma, inesquecível.
Quando tudo terminou, o relógio já gritava que estava tarde demais. O silêncio da casa do Judá contrastava com a bagunça que ainda existia dentro de mim. Vesti minha roupa devagar, tentando organizar os pensamentos, enquanto ele me observava encostado na porta, tranquilo demais pra quem tinha virado meu mundo do avesso em poucas horas.
Ayla: Judá, chama um carro de app pra mim. Por favor.
Ele arqueou a sobrancelha, deu um meio sorriso e se aproximou.
Judá: Tem com hora pra chegar em casa, ruivinha?
Sorri sem graça. Não respondi. Não precisava. Ele entendeu só pelo meu silêncio.
Judá: Relaxa. Eu te levo.
Meu estômago gelou na mesma hora. Não tive nem tempo de argumentar. Ele pegou a chave do carro como se fosse a coisa mais normal do mundo. Quando entramos no veículo e começamos a descer o morro, a realidade caiu como um balde de água fria.
Eu comecei a ficar nervosa. Muito nervosa.
Se meu pai visse aquilo, se visse ele, não, melhor nem pensar.
Coloquei meu endereço no GPS com a mão levemente trêmula. Judá percebeu.
Judá: Tá tensa por quê?
Ayla: Meu pai.
Ele me olhou rápido, depois voltou a atenção pra estrada.
Judá: Brabo, é?
Assenti.
Ayla: Melhor nem falar.
Ele soltou um riso baixo, mas não debochado. Era calmo.
Judá: Relaxa. Não vai acontecer nada.
No caminho, a conversa fluiu fácil. Falamos de coisas simples. Música, estudo, rotina. Ele me perguntou da faculdade, ouviu com atenção quando falei da medicina, da cardiologia, da minha vó. Em nenhum momento me interrompeu ou diminuiu o que eu dizia.
Quanto mais eu ouvia a voz dele, mais estranho ficava pensar que aquele homem era o dono de um morro inteiro. No carro, comigo, ele parecia só normal. Gentil. Engraçado. Atento.
Nem parecia o Judá que todo mundo teme.
Quando o carro parou em frente ao meu condomínio, meu coração começou a bater tão forte que parecia que ia pular pra fora. Ele desligou o motor, e por alguns segundos ficamos em silêncio.
Judá: Chegamos.
Olhei pra ele, respirei fundo.
Ayla: Obrigada, por tudo.
Ele se aproximou devagar, colocou a mão no meu rosto e me beijou ali mesmo, dentro do carro. Um beijo calmo, demorado, daqueles que dão vontade de ficar. Quando nos afastamos, encostei a testa na dele por um instante.
Judá: Vai com cuidado, ruivinha.
Saí do carro quase correndo. Assim que ele arrancou, entrei no condomínio e segui direto pra minha casa, entrei pelo corredor lateral, o coração batendo na boca. Entrei pela área de serviço, fechei a porta com cuidado e fui direto trocar de roupa. Joguei tudo num cantinho qualquer, sem pensar duas vezes.
Subi as escadas na ponta dos pés, rezando pra não ter ninguém em casa.
Quando abri a porta do meu quarto, quase infartei.
Minha mãe estava sentada na minha cama, de braços cruzados, me olhando fixamente.
Ayla: Mãe?
Ela me analisou dos pés à cabeça, com aquela calma perigosa que só psicóloga tem.
Olívia: Bom dia, Ayla. Quer me explicar onde você estava?
Meu coração despencou no estômago. A adrenalina do baile, do Judá, da fuga, tudo virou nervosismo puro.
Engoli em seco.
Ayla: Eu… eu posso explicar.
Ela respirou fundo, ainda sem tirar os olhos de mim.
Olívia: Então explica. Porque seu pai não pode saber disso. E você sabe muito bem.
Senti o peso daquilo tudo cair sobre mim de uma vez só. Aquela noite tinha sido incrível, intensa, libertadora, mas agora eu estava de volta à minha realidade.
E eu sabia, lá no fundo, que nada mais seria simples depois do Judá.