Ayla narrando
Quando a gente chegou no camarote, o barulho parecia diferente. Mais alto, mais vivo. O Fabinho foi logo fazendo as apresentações, todo animado, como se estivesse orgulhoso de estar ali.
Fabinho: Esse aqui é o Judá.
O meu coração deu um pulo quando entendeu. Judá. O dono do morro. O mesmo homem que, desde lá de baixo, estava praticamente me comendo a com os olhos.
Ele se aproximou com calma, presença absurda, daquele tipo de homem que não precisava se impor pra ser notado. Estendeu a mão e chegou perto do meu ouvido.
Judá: Satisfação, ruivinha.
Me arrepiei inteira. Sorri sem conseguir disfarçar. Além de lindo, ele era muito cheiroso. Um perfume marcante, masculino, que parecia grudar na pele só com a proximidade.
Ayla: Feliz aniversário.
Ele sorriu. E que sorriso lindo. Seguro, confiante, daqueles que fazem o estômago revirar.
Judá: Fiquem à vontade. A casa é nossa hoje.
Eu e a Rafa fomos para um canto do camarote. Meu Deus, que energia. Que tudo aquilo. As luzes cortavam o ar, o som batia forte no peito, gente bonita pra todo lado, um clima quente que fazia a pele arrepiar. Era como se eu tivesse entrado em outra dimensão, longe de qualquer regra, longe de tudo que me prendia.
O Fabinho apareceu logo depois com dois drinks na mão.
Fabinho: Pra começar bem a noite.
Eu peguei o copo, brindei com a Rafa e dei o primeiro gole. Gelado, doce, perigoso. A música mudou e elas começaram a dançar. No começo, eu ainda estava um pouco tímida. Depois, me soltei. O corpo acompanhava a batida sem pensar, sem culpa, sem medo.
Literalmente esqueci do mundo.
Esqueci do controle, das cobranças, do relógio. Só existia o som, as luzes e aquela sensação absurda de liberdade.
Em algum momento, senti uma mão firme na cintura. O meu corpo reagiu antes da mente. Quando virei o rosto devagar.
Era o Judá.
Eu sorri automaticamente. Ele não encostou em mais nada além da mão ali, respeitando um espaço que, ainda assim, era ínti.mo demais. E eu adorei aquele contato. Dançamos juntos, corpos próximos, sem pressa, sem pressão. Ele acompanhava o meu ritmo, observava cada movimento com atenção.
Mais ao lado, Rafa e Fabinho estavam aos beijos, completamente entregues. Eu ri sozinha ao perceber a cena.
Judá: Tá curtindo?
Ayla: Muito. Nunca vivi nada assim.
Ele sorriu de novo.
Judá: Primeira vez no baile?
Ayla assentiu.
Ayla: Primeiro de muitas, eu acho.
Ele deu uma risada baixa.
Judá: Gosto assim. Gente que chega sem medo.
Continuaram dançando. Conversaram entre uma música e outra. Ele perguntava coisas simples, de onde eu era, se estava gostando do morro, se o som estava bom. Nada invasivo, nada forçado. Tudo leve. Isso me deixava ainda mais à vontade.
Em um momento, ele se aproximou mais. A mão na minha cintura apertou de leve. O meu corp respondeu automaticamente. O rosto dele chegou perto, a respiração se misturou à minha.
O beijo aconteceu sem pressa.
Foi um beijo quente, gostoso, encaixado. Nada bruto, nada apressado. A boca dele era firme, segura, como se soubesse exatamente o que estava fazendo. E naquele momento senti o mundo diminuir naquele instante. Só existia aquele beijo e o som distante do baile.
Quando nos afastamos, eu ainda sorria.
Judá: Tu beija bem, ruivinha.
Eu ri, sentindo o rosto quente.
Ayla: Você também.
A madrugada seguiu intensa. Dançamos mais, bebemos mais um pouco, riram juntos. Judá contava coisas leves, eu contava apenas o suficiente. Era fácil estar ali com ele. Natural demais para alguém que tinha acabado de conhecer.
Até que dois homens se aproximaram e chamaram o Judá de lado. Ele fez um gesto pedindo que esperasse.
Judá: Já volto.
Eu assenti. Enquanto ele se afastava, senti um olhar pesado sobre ela. Olhou de lado e viu uma garota encarando com a expressão fechada, carregada de julgamento. reconheci na hora. A mesma que tinha subido antes.
Eu disfarcei. Virei o rosto, fingi interesse no baile, continuei dançando sozinha por alguns segundos. Não deixaria aquilo estragar a noite.
Quando Judá voltou, o sorriso dele encontrou o meu.
Judá: Tudo bem?
Ayla: Tudo.
E é verdade.
Porque, naquele momento, eu já sabia que aquela madrugada tinha acabado de marcar algo que eu jamais esqueceria.
O baile acabou quando o dia já ameaçava clarear. O som foi diminuindo, a galera se dispersando, e a energia ainda vibrava no meu corpo como se a música continuasse tocando por dentro. Rafaela se despediu primeiro, saiu rindo, grudada no Fabinho, os dois completamente alheios ao resto do mundo.
Fiquei ali, observando, até sentir a mão do Judá alcançar a minha. Forte, quente, segura. Ele não disse nada. Só entrelaçou os dedos nos meus e puxou de leve, como se fosse óbvio que eu iria com ele.
E eu fui.
Entrei no carro dele em silêncio. O som do motor preencheu o espaço enquanto ele dirigia pelas ruas quase vazias do morro. A cidade dormia, mas eu estava completamente desperta. O coração acelerado, o corpo ainda quente do baile, a cabeça girando com tudo que eu tinha vivido naquela noite.
Nenhum de nós falou nada. O silêncio não era estranho. Era carregado. Pesado de expectativa.
Quando chegamos à casa dele, Judá estacionou na garagem e desligou o carro. Antes mesmo que eu pudesse pensar em qualquer coisa, ele virou pra mim. O olhar intenso, escuro, cheio de intenção.
Judá: Vem cá.
Ele me puxou pela cintura e me beijou ali mesmo. Um beijo diferente dos outros. Mais profundo, mais urgente. A mão dele subiu pelas minhas costas com firmeza, como se já soubesse exatamente onde tocar. Eu me entreguei sem pensar, sentindo o corpo dele colado ao meu.
Judá me levantou com facilidade. Enrosquei as pernas na cintura dele, o corpo reagindo no automático. Ele abriu a porta da casa ainda comigo nos braços, entrando sem quebrar o ritmo do beijo.
O clima estava nas alturas.
A casa estava silenciosa, iluminada apenas por uma luz baixa da sala. Ele me colocou no sofá com cuidado, mas o olhar continuava intenso. Judá ficou ali, em pé, me observando como se estivesse gravando cada detalhe.
Judá: Tu não faz ideia do que mexeu comigo hoje.
Senti um arrepio subir pela espinha. Puxei ele pela camisa, trazendo de volta pra perto. Os beijos voltaram, mais lentos agora, mais cheios de provocação. As mãos dele deslizavam com calma, explorando sem pressa, fazendo eu perder o controle da própria respiração.
Me aproximei mais, o corpo colado ao dele, sentindo o calor, o cheiro, a presença. Cada toque era calculado, cada aproximação parecia uma promessa. Fechei os olhos por um instante, deixando escapar um suspiro baixo, quase involuntário.
Judá apoiou a testa na minha, a voz mais grave.
Judá: Calma, ruivinha.
Sorri, ainda sem abrir os olhos.
Ayla: Você que começou.
Ele riu baixo, aquele riso que vibra no peito. O beijo voltou, agora mais intenso, carregado de desejo. O mundo parecia ter encolhido até caber só naquele sofá, naquela casa, naquele momento.
Eu me deixei levar. Pelo toque, pela voz, pela sensação de estar exatamente onde queria estar. Não havia pressa, não havia medo. Só a certeza de que aquela madrugada não seria esquecida.
E quando o silêncio da casa voltou a se impor, misturado à nossa respiração descompassada, eu soube que aquela noite tinha mudado tudo.
Não era só desejo.
Era conexão.
E isso era ainda mais perigoso.