Capítulo 06 Sanguinário

1098 Words
Sanguinário Narrando Mano. Que pørra foi essa. Tô aqui de pé, debaixo do chuveiro, a água quente quase escaldando as costas, e não sai. A raiva não sai. O cheiro de perfume barato de putä e da própria Débora não sai. Pior. O cheiro dela, da menina, do shampoo e do medo limpinho, parece que tá entranhado em outro lugar que não é no nariz. Tá na cabeça. E pior que o cheiro é a voz. Enquanto a Débora tava lá, de joelho, fazendo o serviço, o que eu via não era ela. Era a cara da Mariana. A cara dela quando eu falei que ela era pagamento. Aquele olhar que não foi só de medo, foi de nojo. De nojo de mim. E o que eu ouvia não foi o gemido falso da Débora, foi a voz da Mariana gritando “louco” atrás da porta. Um grito fino, cheio de ódio novo, que cortou o ar e cortou a minha onda na hora. Nunca, em toda a minha vida, uma mina tirou meu juízo assim. Nem inimigo de guerra, nem traição de comparsa, me deixou broxado no meio do rolê. E foi uma adolescente trancada num quarto, com a voz falida de chorar, que conseguiu. O desgraçado do Fontenelle não me mandou o pagamento de uma dívida, me mandou uma maldição. Esfrego o sabão no corpo todo com força, passando a esponja áspera como se tivesse tirando tinta. Quero tirar o cheiro da Débora, o melado, o artificial. Mas o cheiro que fica é o do meu próprio fracasso. Não consegui nem descarregar a tensão mais básica. A mina tá na minha cabeça e nem tá aqui. É um fantasma que grita. Saio do banho, o corpo vermelho de tanto esfregar. Passo o desodorante, boto uma bermuda de algodão branca, limpa. Não coloco camisa. O quarto tá escuro, a luz da lua tá forte lá fora, mas eu fechei a janela. Não quero ver o morro, não quero ver pørra nenhuma. Sento na beirada da cama, a cabeça pesada. O que eu faço com ela? Nunca, em todos os meus anos no comando, peguei objeto como pagamento. Dinheiro, arma, droga, até informação. Mas pessoa? Mulher? O Fontenelle tava pensando o quê da vida? Que eu sou c*****o? Que vou colocar a filha dele na rua? O cara não só me deve, me ofendeu. Só que também não vou ficar no prejuízo na pørra dessa dívida. Se ele pagou com a filha, ela é minha moeda. Ponto. Só que moeda parada não rende. Moeda trancada gritando “louco” não vale nada. Tenho que dar um jeito de fazer ela me render uma grana. Ou… alguma coisa. Porque matar… a ideia até passa, mas parece errado. Não errado no sentido moral, não tenho essa bosta. Errado no sentido de… desperdício. E de fraqueza. Seria admitir que ela me venceu, que um grito me quebrou. Føda-se. Levanto, pego a 9mm da gaveta, encaixo na cintura, atrás das costas. O peso do metal é familiar, confortável. Me acalma. Pego o perfume caro que um otáriø me deu, dou uma borrifada no peito, nos braços. Não pra ficar cheiroso, pra tapar qualquer resto do cheiro do barraco. Pego o celular e coloco no bolso da bermuda. Desço as escadas devagar, o corpo ainda meio pesado do baseado e da noite de merdä. A casa tá em silêncio. Até que… O cheiro chega primeiro. Queijo derretido, molho de tomate enlatado. Lasanha. Aí eu vejo ela. Sentada à mesa da cozinha, com o prato na frente, comendo devagar, com cuidado, como se cada garfada pudesse ser a última. O cabelo tá uma bagunça, o uniforme escolar tá imundo, mas ela tá sentada reta. Ela me vê no meio da escada e para de mastigar, os olhos arregalam de novo, aquele olhos assustado. Um ódio quente sobe. Ódio dela, ódio da situação, ódio de mim por não saber o que fazer. — Pode continuar a comer — falo, a voz saindo mais grossa do que eu queria. — Tu não tava com fome? Agora come. Desço o resto da escada, passo por ela sem olhar direito. Vou até a geladeira, pego uma cerveja gelada, abro no dente, a tampa voa. Toco a garrafa de uma vez, metade do líquido desce garganta abaixo, queimando um pouco. Aí vou no freezer, pego outra lasanha congelada. Tiro da caixa com força, jogo a embalagem no lixo, enfio a bandeja no micro-ondas. Bato o botão. O barulho do micro-ondas zumbindo enche a cozinha. É o único som. Nem a respiração dela dá pra ouvir. Nem o barulho do garfo dela batendo no prato de vidro. Ela congelou. O micro-ondas apita. Tiro a bandeja quente, jogo num prato de vidro. Pego outra cerveja. Sento na mesa, bem de frente pra ela. Bato o prato na mesa. Bato a garrafa ao lado. E então, lentamente, tiro a 9mm da minha cintura e coloco ela em cima da mesa, entre a minha cerveja e o meu prato. Não apontada pra ela. Só… ali. Presente. Ela olha pra arma. Os olhos dela percorrem o metal preto, o carregador, a coronha de borracha. Depois, lentamente, sobem e encontram os meus. Não tem mais só medo. Tem desespero. Um desespero quieto, profundo. E um ódio também. Um ódio que ela ainda não sabe usar. — Tá tudo bem? — pergunto, num tom que claramente diz que não é uma pergunta de verdade. Ela não responde. Respira fundo pelo nariz, segura o ar, e volta a comer. Devagar. Termina o que tinha no prato. Levanta, pega a garrafa de água, enche o copo dela de novo e bebe tudo. Aí ela empurra a cadeira pra trás, pra levantar. — Senta — minha voz não levanta. É uma ordem plana, fria. Ela para, olha pra mim, confusa. — Senta e fica aí até eu terminar de comer. Tu não recebeu educação não? Teu pai não te ensinou que só se levanta da mesa quando todo mundo termina? O olhar dela vacila entre incredulidade e puro terror. — Você tá brincando, né? — a voz dela sai fraca. Ela pega o prato sujo e o copo, claramente pretendendo levar até a pia. É a gota. A ignorância, a tentativa mínima de ter algum controle. Meu braço se move rápido. Pego a arma, viro, e bato a coronha de borracha na mesa. BAM! O barulho é seco, violento, um estouro na quietude. — SENTA AÍ! — rosno, e o som sai de um lugar animal. — Agora. Porque eu tô mandando. Só levanta quando eu terminar. Continua...
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