Mariana Narrando
O cansaço me venceu como um ladrão. Um minuto eu estava em pé, os dedos doloridos e sujos de ferrugem da grade da pequena janela no alto, o coração batendo desesperado contra as costelas. No outro, as pernas simplesmente cederam e me arrastaram para o colchão fino no chão, como se a gravidade naquele quarto fosse diferente, mais pesada, mais c***l.
Tentei tudo. Tudo o que uma garota de dezessete anos com as unhas quebradas e o cérebro intoxicado de pânico poderia tentar. A porta, maciça e impenetrável. A maçaneta, que nem sequer girava. As paredes, de tijolos à vista, ásperas e frias. E a janela. Aquela maldita janela minúscula, no alto, mais para ventilação do que para vista. Subi na cadeira, empilhei o travesseiro, me estiquei até os ombros doerem. Consegui tocar na grade de ferro, gelada e fixa com cimento. Nem mesmo um passarinho magro escaparia por ali. Era uma cela. Uma cela que cheirava a mofo e desespero.
A última coisa que lembro foi o sabor salgado das lágrimas secas nos lábios e o som dos meus próprios soluços abafados contra o tecido áspero do colchão. A escuridão não era só do quarto; era de dentro, um poço sem fundo que me puxou para baixo.
Acordei com um susto que arrancou um gemido seco da minha garganta. Não foi um sonho. Foi um baque. Seco, violento. Batam!
Meu corpo reagiu antes da mente. Endireitei-me de um salto, sentada, os olhos arregalados tentando furar a escuridão absoluta. O quarto estava impiedosamente escuro. Não havia uma fresta de luz. Mas o som… o som vinha de fora.
Creeeek…
Não era a minha porta. Era outra. Mais distante, rangendo nos gonzos enferrujados, e depois batendo com força contra o batente. O som ecoou no corredor vazio, um trovão solitário na noite silenciosa do morro.
O medo, meu companheiro constante, ficou aguçado, afiado como uma lâmina. Não era um medo paralisante. Era um medo curioso, urgente. Alguém estava lá fora. Ele estava lá fora.
Me arrastei para fora do colchão, os pés descalços encontrando o chão de cimento gelado. Rastejei até a porta, me encostando nela. A madeira era áspera contra a minha orelha. Prendi a respiração, forçando cada sentido a se concentrar no que estava do outro lado.
Silêncio.
E então… passos. Pesados, deliberados. Não eram os passos rápidos e leves de um dos homens dele. Eram lentos, arrastados quase, como se carregassem um peso enorme. E vinham… de onde? Não estavam se aproximando da casa principal. Pareciam… distantes. Como se ele tivesse saído.
O coração começou a martelar de uma forma diferente. Onde ele iria, no meio da noite, pela parte dos fundos? Aquela porta que rangia não dava para a rua. Eu tinha visto, durante o dia, pela fresta minúscula sob minha porta. Dava para um quintal cercado, para o abismo da favela lá embaixo, e para um pequeno barraco isolado, encostado no muro.
Os passos pararam. Ouvi o som metálico de uma chave, o clique de uma fechadura sendo aberta. A porta do barraco? Depois, só o silêncio denso da noite novamente.
O que ele estava fazendo ali?
A pergunta queimou na minha mente, mais forte até do que o medo. Era um mistério. Uma peça quebrada no quebra-cabeça do meu inferno. Ele, o rei impiedoso, saindo no escuro, para um barraco nos fundos. Não para dar ordens. A energia era diferente. Os passos sozinhos, a porta rangendo com uma familiaridade solitária…
Fiquei ali, imóvel, a orelha colada na madeira, por tempo que não soube medir. Até que o frio do chão subiu pelas minhas pernas e um calafrio percorreu minha espinha. Até que os sons da noite — grilos distantes, um cachorro latindo lá longe — voltaram a preencher o vácuo deixado por sua ausência.
Ele não voltou. Não naquela hora.
E, pela primeira vez desde que me jogaram nesse quarto, meu medo se misturou com algo mais perigoso: a curiosidade.
O tempo passou, medido pelo ritmo acelerado do meu coração e pelo lento clarear do dia que começou a infiltrar-se pela minúscula janela alta. Os passos voltaram, mais tarde. Dessa vez, vinham de dentro do barraco, atravessavam o quintal e paravam do outro lado da minha porta. Não se aproximavam. Não batiam. Apenas… paravam.
Eu podia sentir a presença dele. Era como sentir uma fera selvagem do outro lado de uma cerca frágil. O ar ficou pesado, carregado de uma energia raivosa e contida. Eu conseguia quase ouvir sua respiração, áspera e controlada, misturando-se com o cheiro forte de erva queimada que começou a vazar por baixo da porta. Ele estava ali, fumando, em silêncio. Me vigiando? Me ignorando? Eu não sabia.
A sede, que era uma coceira na garganta, tornou-se uma dor. A fome, um nó vazio e dolorido no estômago. A sujeira do meu próprio corpo, do pânico e do chão, grudava em mim. A resignação do início da noite evaporou, substituída por uma clareira de desespero puro e simples.
Não aguentei.
Levantei-me, as pernas trêmulas, e bati na porta com a palma da mão aberta. Não era um bater forte, era suplicante.
— Pelo amor de Deus… — minha voz saiu quebrada, rouca de desuso. — Eu sei que você é o Sanguinário. Eu sei que você não presta. Mas me dá, pelo menos, um copo com água.
Silêncio. Só o cheiro do baseado.
Bati de novo, com mais força.
— Eu tô com fome! Eu preciso tomar um banho! Eu preciso de roupa! Eu sou ser humano! Vou ficar trancada aqui mesmo, parecendo bicho?
Nada. Continuei. Gritei, supliquei, argumentei sozinha por… horas? O dia clareava mais, ouvia os primeiros pássaros cantando, e ele ainda estava lá. Um guardião mudo e fumacento do meu cárcere. A raiva começou a ferver por baixo do desespero.
— Você vai ser desumano igual o meu pai? Vai me deixar morrer aqui de sede e fome? É isso que o grande ‘Rei do Morro’ faz? Tortura menina trancada?
Minha energia se esgotou. Deslizei pela porta até o chão, encostando o braço na madeira, deixando a testa cair sobre ele. A derrota era um peso nos ombros. Talvez ele realmente fosse só um monstro. Talvez…
A porta se abreu de repente.
Não foi aberta; foi arrancada para dentro. Perdi o apoio e caí para frente, no vão da porta, desequilibrada, atingindo o chão frio do corredor com um baque surdo.
Ele estava parado à minha frente, imponente, os olhos vermelhos e pesados da erva, mas focados. Olhou para eu no chão, um vago aborrecimento no rosto.
Num impulso quase reflexo, ele esticou o braço, como para me pegar pelo braço e me levantar.
— Não encosta a mão em mim! — gritei, encolhendo-me, minha voz um misto de medo e puro ódio.
Ele congelou, e então um riso baixo e áspero escapou-lhe.
— Tá malucona, é? — a voz dele era rouca, carregada de fumo e sono. — Foi você que tava agora gritando pedindo pra eu abrir. Dizendo que queria água, que queria tomar banho. Tu caiu, tô tentando, pørra. Tu vem nessa ignorância?
— Eu falei que tô com fome, com sede, que quero tomar banho — revidei, tentando me levantar sozinha, minhas pernas tremendo. — Não falei que era pra você pegar em mim.
Ele cuspiu um palavrão baixo, de pura exasperação. Em um movimento brusco e sem cerimônia, agarrou meu braço acima do cotovelo — não com brutalidade excessiva, mas com uma força inescapável — e puxou-me para cima, tirando-me do chão e do vão da porta.
— Bora lá — rosnou, andando comigo pelo corredor, até entrar na casa.
Não me levou de volta ao quarto. Me levou pela casa escura, até uma cozinha enorme e surpreendentemente limpa. Puxou a cadeira com o pé e me sentou empurrando pra perto da mesa.
— É sede? É fome?
Ele abriu um armário, pegou um copo de vidro comum. Abriu a geladeira — uma Eletrolux, branca de três portas —, tirou uma garrafa de água mineral de 1,5 l, abriu e encheu o copo até a borda. Jogou na mesa, na minha frente, de modo que a água respingou. Depois, abriu o freezer, tirou uma lasanha congelada tirou da embalagem colocando em um prato de vidro. Sem falar, colocou no micro-ondas velho, girou o timer e apertou o botão. O aparelho começou a zumbir.
Ele se virou para mim, cruzando os braços. O cheiro da erva ainda vinha dele, misturado com suor e algo metálico.
— Toma a água. O forno vai apitar em cinco minutos. Tu levanta, pega, come. Pode voltar pro teu quarto depois.
Sem esperar por uma resposta ou reação, ele deu meia-volta e saiu da cozinha. Ouvi seus passos subindo as escadas, pesados e decididos.
Fiquei olhando para o copo de água, para a luz do micro-ondas iluminando a lasanha que girava lentamente, para a porta vazia por onde ele tinha saído.
Era um ato mínimo. Básico. Nada humano nele, apenas a provisão mínima para evitar que sua “propriedade” perecesse.
Mas é água. É comida.
E, pela primeira vez, desde que tudo começou, algo dentro de mim, além do medo e da revolta, começou a… calcular.
Continua...