A carta da rainha ficou sobre a mesa da sala de costura durante toda a tarde, embora ninguém tivesse coragem de tocá-la.
Era curioso como um único pedaço de papel conseguia mudar o peso de uma casa inteira. Pela manhã, a mansão Bellmont havia despertado como sempre: lenta, fria, cheia de ruídos antigos e silêncios ainda mais antigos. À noite, parecia outra coisa. Não viva, exatamente, mas acordada. Como um animal ferido que, ao ouvir passos se aproximando, erguia a cabeça para decidir se ainda era capaz de morder.
Portas que permaneciam fechadas há meses foram abertas. Baús esquecidos foram arrastados de quartos vazios. Criadas que já não tinham muito o que fazer correram de um lado para outro com tecidos desbotados, fitas guardadas, luvas amareladas e caixas de joias tão leves que denunciavam a ausência do que um dia houvera dentro delas.
A Casa Bellmont, tão acostumada a fingir estabilidade, agora fingia esperança.
Amara observava tudo em silêncio.
Sentada diante da janela do quarto menor, ela segurava no colo um vestido verde-escuro, herdado de sua meia-irmã mais velha. O tecido era bom, pesado e elegante, mas havia uma mancha antiga perto da barra, provavelmente de vinho. Mirelda dizia que poderia escondê-la com renda preta. Amara acreditava nela. Mirelda era capaz de transformar até vergonha em ornamento, desde que tivesse linha suficiente.
— Levante os braços, menina — pediu a governanta, com alfinetes presos entre os lábios.
Amara obedeceu.
O vestido subiu sobre seus ombros com certa resistência. O corpete ficou largo no b***o e apertado na cintura, como se tivesse sido feito para alguém cuja vida cabia melhor nele. Amara respirou devagar enquanto Mirelda puxava o tecido nas costas.
— Sua irmã tinha ombros mais estreitos — murmurou a governanta.
— Minha irmã tinha uma vida mais estreita — respondeu Amara.
Mirelda lançou-lhe um olhar pelo espelho.
— Cuidado com essa língua no palácio.
— O palácio ainda está a três dias de distância.
— E a corte começa antes da carruagem sair.
Amara não respondeu.
Sabia que Mirelda estava certa. A corte não era apenas um lugar. Era um modo de olhar, de medir, de condenar. Era uma mão invisível ajustando posturas, vozes e silêncios. A Casa Bellmont, mesmo em ruínas, ainda pertencia a esse mundo. Amara apenas nunca fora autorizada a ocupar seu centro.
O quarto estava tomado por vestidos, fitas e caixas abertas. Sobre a cama, repousavam as opções que poderiam ser salvas: o azul-claro do dia anterior, o verde-escuro, um vestido pérola com mangas antigas demais para parecer moda, e outro dourado pálido que precisava de tantos ajustes que parecia mais uma promessa do que uma peça de roupa.
Nenhum deles fora feito para Amara.
Isso não era novidade.
Pouca coisa naquela casa havia sido feita para ela.
Mirelda prendeu mais um alfinete no tecido.
— Este pode servir para a viagem, se trocarmos as mangas. O azul fica melhor para a chegada. O dourado, talvez para uma recepção menor.
— E se houver uma recepção maior?
— Então você entrará como se o vestido fosse novo e deixará que os outros duvidem em silêncio.
Amara encontrou os olhos da governanta pelo espelho e sorriu de leve.
— Isso parece um conselho de guerra.
— A corte é uma guerra usando seda.
O sorriso de Amara desapareceu aos poucos.
Era exatamente disso que tinha medo.
Não da seda. Não dos salões. Não das jovens nobres que a olhariam de cima a baixo e encontrariam nela todos os defeitos possíveis. Disso ela já conhecia o gosto. O que a incomodava era a finalidade de tudo aquilo. A sensação de que estava sendo preparada não para viver algo, mas para ser oferecida.
Como um objeto retirado de um armário empoeirado, polido às pressas e colocado diante de compradores exigentes.
— Mirelda — chamou.
— Sim?
— O que a carta dizia exatamente?
A governanta ficou imóvel por um segundo. Depois voltou aos alfinetes.
— Seu pai leu apenas parte dela em voz alta.
— Eu sei.
— Então deveria perguntar a ele.
Amara quase riu.
— Se ele quisesse que eu soubesse, teria me mostrado.
Mirelda soltou o ar pelo nariz, cansada.
— Às vezes, você se parece demais com sua mãe.
A frase caiu no quarto como uma pedra delicada.
Amara virou-se tão rápido que um alfinete arranhou de leve o tecido.
— O que disse?
Mirelda empalideceu.
— Nada.
— Disse que eu me pareço com ela.
— Foi modo de falar.
— A senhora a conheceu.
Não era uma pergunta.
Por anos, Amara tentara arrancar lembranças da mãe de qualquer pessoa que pudesse ter visto seu rosto. Criados antigos desviavam o olhar. Parentes fingiam não ouvir. Evander encerrava qualquer conversa antes que o nome dela pudesse nascer. Mirelda era a única que, vez ou outra, deixava escapar uma palavra, uma expressão, um fragmento.
E sempre se arrependia no instante seguinte.
— Conheci pouco — respondeu a governanta, baixo.
— Mas conheceu.
Mirelda terminou de prender o alfinete antes de falar.
— Sua mãe era gentil.
Amara esperou.
A governanta ajeitou a barra do vestido.
— E teimosa.
Dessa vez, o canto da boca de Amara se ergueu.
— Isso explica a comparação.
— Explica muita coisa.
— Ela teria me deixado ir?
Mirelda não respondeu de imediato.
Lá fora, o vento bateu contra a janela. Em algum ponto da mansão, uma porta se fechou com força. Os sons pareciam maiores quando o silêncio pesava.
— Sua mãe teria perguntado o que você queria — disse Mirelda por fim.
Amara olhou para o próprio reflexo.
O que ela queria?
A pergunta parecia simples demais para uma vida em que quase tudo sempre fora decidido por outros. Queria liberdade. Queria dignidade. Queria nunca mais ver aquele olhar de cálculo no rosto do pai. Queria deixar de ser a parte escondida de uma história que todos fingiam não existir. Queria, talvez, um nome que não viesse acompanhado de desculpas.
Mas querer era uma coisa perigosa.
Na Casa Bellmont, desejos eram tratados como gastos desnecessários.
Uma batida seca na porta interrompeu seus pensamentos.
Mirelda se apressou em remover os alfinetes mais soltos enquanto Amara ajeitava o decote do vestido. A porta se abriu antes que qualquer uma autorizasse a entrada.
Evander surgiu no limiar.
O duque examinou o quarto rapidamente, como quem avalia um campo de batalha m*l organizado. Seu olhar passou pelas caixas abertas, pelas rendas sobre a cadeira, pelo vestido verde no corpo de Amara. Não elogiou, não criticou. Apenas calculou.
— Venha ao meu gabinete — disse. — Agora.
Mirelda deu um passo à frente.
— Vossa Graça, o vestido ainda está preso com alfinetes.
— Então retire-os.
Amara ergueu uma mão.
— Não é necessário.
Ela soltou os laços improvisados e deixou que Mirelda a ajudasse a sair do vestido. Por baixo, usava uma roupa simples de tecido cinza, limpa, mas sem qualquer enfeite. Era curioso como se sentia mais protegida nela do que nas sedas que deveria usar no palácio.
Seguiu o pai pelo corredor sem fazer perguntas.
O gabinete de Evander ficava no térreo, voltado para os jardins mortos. Era o cômodo mais preservado da mansão, talvez porque fosse o último território onde o duque ainda conseguia fingir controle. Havia uma grande mesa de madeira escura, prateleiras com livros suficientes para enganar visitantes, cortinas pesadas e um retrato enorme de um ancestral Bellmont acima da lareira apagada.
Amara sempre achara aquele homem do quadro parecido com todos os Bellmont: olhos frios, queixo firme, expressão de quem acreditava que o mundo lhe devia obediência.
Evander fechou a porta.
Sobre a mesa estava a carta da rainha.
Aberta.
Amara sentiu o coração b*******a vez mais forte, mas não se aproximou até que ele indicasse a cadeira diante da mesa.
— Sente-se.
Ela sentou.
Evander permaneceu de pé, atrás da própria cadeira, apoiando as mãos no encosto. Durante alguns instantes, apenas a observou. Amara odiava quando ele fazia isso. Era como se procurasse nela traços que queria negar e utilidades que precisava aceitar.
— Há detalhes da convocação que você precisa compreender antes de partir — disse ele.
— Imagino que sejam os detalhes que não foram mencionados esta manhã.
Ele ignorou a provocação.
— A Temporada da Coroa deste ano não será como as anteriores. A rainha convidou representantes de casas antigas, casas menores e famílias que possuem algum vínculo histórico com a formação de Valdoria.
— Incluindo casas falidas?
— Incluindo casas que ainda possuem nome.
Amara apoiou as mãos no colo.
— Nome sem dinheiro compra pouco.
— Compra entrada em salões onde dinheiro sem nome jamais será aceito.
A resposta veio afiada, quase automática. Evander ainda sabia falar como duque. Talvez fosse a única riqueza que lhe restava.
Ele pegou a carta e leu um trecho em silêncio antes de continuar:
— As jovens convocadas serão apresentadas à corte, avaliadas em eventos públicos e privadas pela rainha. Algumas poderão ser consideradas para alianças matrimoniais. Outras, para cargos de influência. Há rumores de que a rainha pretende formar um novo círculo de conselheiras ligadas à sucessão.
— Conselheiras? — Amara franziu a testa. — Mulheres?
— Não soe tão surpresa. A rainha Isolde nunca foi uma governante previsível.
— A nobreza aceitará isso?
— A nobreza aceita qualquer coisa quando teme perder mais se recusar.
Amara olhou para a carta.
— E onde entro nessa história?
Evander colocou o papel sobre a mesa e empurrou-o em sua direção.
O gesto a surpreendeu.
Amara hesitou antes de pegá-lo. O papel era grosso, perfumado de forma quase imperceptível. A caligrafia, impecável, parecia ter sido desenhada com disciplina. Ela leu as primeiras linhas com cuidado.
À Casa Bellmont, guardiã antiga das terras do norte e detentora de laços reconhecidos pela Coroa de Valdoria…
A formalidade continuava por um parágrafo inteiro. Então seus olhos alcançaram a parte principal.
…convocamos a jovem Amara Bellmont para apresentar-se no Palácio de Vidro no terceiro dia da próxima lua crescente, a fim de integrar a Temporada da Coroa e submeter-se às avaliações de honra, linhagem, mérito e lealdade perante a soberania real.
Amara leu a frase duas vezes.
Honra.
Linhagem.
Mérito.
Lealdade.
Quatro palavras capazes de destruir alguém como ela.
— Avaliações de linhagem — disse, erguendo os olhos. — Isso é uma piada c***l?
— É uma formalidade.
— Para Seraphine Valcourt, talvez. Para mim, é uma lâmina.
— Por isso você deve aprender a segurá-la pelo cabo.
Amara deixou a carta sobre a mesa.
— O senhor fala como se eu tivesse sido treinada para isso.
Evander apertou os dedos no encosto da cadeira.
— Você foi educada nesta casa.
— Fui escondida nesta casa.
— Recebeu tutores.
— Quando sobrava dinheiro para pagá-los.
— Aprendeu música, leitura, história, dança.
— Aprendi observando portas entreabertas.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Evander afastou-se da cadeira e caminhou até a janela. Do lado de fora, os jardins pareciam ainda mais desolados sob o céu escuro. Os galhos nus tremiam ao vento como dedos velhos.
— Você acha que sua vida foi uma punição — disse ele.
Amara demorou a responder.
— Não acho. Sei.
Ele fechou os olhos por um instante.
— Há coisas que você não entende.
— Porque nunca me contaram.
— Porque algumas verdades não protegem ninguém.
— Ou porque protegem apenas o senhor.
Evander virou-se com brusquidão.
— Cuidado.
Amara ficou de pé.
Não planejou. Apenas aconteceu. A cadeira raspou o chão, e o som pareceu maior do que deveria.
— Passei a vida tomando cuidado. Cuidado para não sentar à mesa errada. Cuidado para não chamar o senhor de pai diante de visitas. Cuidado para não usar os vestidos antes que minhas irmãs cansassem deles. Cuidado para não perguntar sobre minha mãe. Cuidado para não existir em voz alta. O que exatamente ainda resta para eu tomar cuidado, Vossa Graça?
O rosto dele mudou.
Por um segundo, Amara viu o homem sob o título. Não o duque, não o pai distante, não o aristocrata preocupado com dívidas. Apenas um homem atingido por palavras que talvez merecesse havia anos.
Mas então a máscara voltou.
— Resta o futuro — disse ele. — E é justamente por isso que você irá.
Amara respirou fundo.
— Fale a verdade. Por que essa convocação importa tanto?
Evander abriu uma gaveta da mesa e retirou um conjunto de documentos amarrados com fita preta. Jogou-os sobre a madeira entre os dois.
— Porque a Casa Bellmont está mais perto do fim do que você imagina.
Amara olhou para os papéis.
Contratos.
Cartas de cobrança.
Hipotecas.
Selos de casas credoras.
Reconheceu alguns nomes: Merek, Draven, Sorell. Famílias que sorriam em bailes enquanto compravam pedaços de outras famílias nos bastidores.
— As terras do norte já foram dadas como garantia — disse Evander. — A ala oeste da propriedade está comprometida. Parte das joias da família foi vendida. Se Lorde Merek não aceitar a extensão da dívida, perderemos os vinhedos antes do inverno.
Amara sentiu um nó na garganta.
Não por pena da grandeza Bellmont. A grandeza Bellmont nunca lhe pertencera. Mas havia pessoas presas àquela queda. Criados antigos. Arrendatários. Crianças nas terras do norte que talvez nem soubessem pronunciar o nome da rainha, mas sofreriam se a propriedade mudasse de mãos.
— E eu sou a solução? — perguntou.
— Você é uma oportunidade.
— Que diferença generosa.
— Amara.
— Não. Diga como realmente é. O senhor precisa que eu vá ao palácio, sorria para as pessoas certas, dance com os homens certos, agrade à rainha e convença a corte de que os Bellmont ainda merecem ser salvos.
Evander não negou.
A ausência de negação doeu mais do que qualquer resposta.
Amara desviou o olhar para os documentos. Sua vida inteira cabia ali, nas entrelinhas de dívidas que ela não contraiu e expectativas que nunca escolhera. De repente, a convocação da rainha não parecia uma porta aberta. Parecia uma corrente diferente.
— E se eu for m*l? — perguntou.
— Não vá.
— E se me humilharem?
— Suporte.
— E se perguntarem sobre minha mãe?
O silêncio voltou.
Mais frio.
Evander recolheu lentamente os documentos, evitando seus olhos.
— Sua mãe não é assunto da corte.
— Tudo é assunto da corte.
— Não se você souber desviar.
— E se eu não quiser desviar?
Ele a encarou.
— Então destruirá a si mesma antes que alguém precise fazê-lo.
Amara sentiu vontade de rir, mas não havia humor algum.
— O senhor está preocupado comigo ou com o nome Bellmont?
Evander respondeu rápido demais:
— Com ambos.
Ela sorriu sem alegria.
— Mentira.
O duque endureceu.
— Você fala de mentiras como se não vivesse protegida por uma.
Amara parou.
As palavras dele ficaram suspensas entre os dois.
— O que isso significa?
Evander pareceu perceber tarde demais o que havia dito. Seu rosto se fechou, e a mão dele pousou sobre a carta da rainha.
— Significa que o mundo é mais c***l do que você gostaria. E que, no palácio, sua origem será usada contra você se permitir.
— Minha origem ou minha mãe?
— Basta.
A ordem veio baixa.
Amara percebeu que não conseguiria arrancar mais nada dele. Não naquele momento. Talvez nunca de forma direta. Mas havia algo ali. Uma f***a. Uma verdade escondida sob anos de silêncio. E a convocação da rainha, de algum modo, havia tocado essa verdade.
Pela primeira vez desde que lera a carta, Amara sentiu algo além de raiva.
Curiosidade.
Perigosa, insistente, quase viva.
Evander respirou fundo, recompondo-se.
— No palácio, haverá jovens melhores preparadas. Mais belas aos olhos da corte. Mais ricas. Mais legítimas. Não tente vencê-las em seus próprios jogos.
— Então como espera que eu sobreviva?
— Observando. Falando pouco. Escolhendo aliados com cuidado. Nunca aceitando favores sem entender o preço. Nunca ficando sozinha com homens influentes. Nunca confiando em mulheres que sorriem demais.
Amara ergueu uma sobrancelha.
— Conselhos paternos ou instruções de proprietário?
— Instruções de alguém que conhece a corte.
— Faz muito tempo que o senhor não é bem recebido nela.
A frase foi c***l.
Amara soube no instante em que disse.
Evander também.
O duque ficou muito quieto. Pela primeira vez, ela viu algo parecido com vergonha atravessar seus olhos. Não arrependimento. Vergonha. A dor orgulhosa de um homem que perdera prestígio e ainda não aprendera a viver sem ele.
— Justamente por isso — disse ele, mais baixo — sei o que acontece quando a corte decide esquecer uma família.
Amara não respondeu.
Do lado de fora do gabinete, a casa continuava se movendo. Passos. Vozes abafadas. O som distante de baús sendo arrastados. A mansão Bellmont inteira se preparava para enviá-la embora como se preparasse uma oferenda.
Evander pegou a carta e a colocou de volta diante dela.
— Você partirá em três dias. Usará o nome Bellmont com dignidade. Não mencionará nossas dificuldades financeiras. Não discutirá sua legitimidade. Não fará inimigas antes de entender quem realmente governa os salões. E, acima de tudo, não dará à rainha motivo para se arrepender da convocação.
Amara encarou o selo dourado quebrado.
— O senhor já decidiu tudo.
— Sim.
— Então por que me chamou aqui? Para fingir que tenho escolha?
A resposta demorou.
Quando veio, foi inesperadamente baixa.
— Porque você tem mais escolha indo do que ficando.
Amara ergueu os olhos.
Evander parecia mais velho sob a luz morta do gabinete. As linhas ao redor de sua boca estavam fundas, e os cabelos escuros mostravam fios grisalhos que ela não havia notado antes. Por um breve segundo, ele não parecia um duque c***l. Parecia um homem cercado pelos escombros de suas decisões.
— Se ficar — continuou ele —, os credores virão. As alianças que ainda restam serão cobradas. E você será parte das negociações, queira ou não.
O estômago de Amara se contraiu.
Ela entendeu.
Não porque ele dissesse tudo. Evander nunca dizia tudo. Mas as palavras ausentes eram claras.
Casamento.
Acordos.
Homens com idade para serem seus tios, talvez avôs. Famílias que aceitariam uma Bellmont ilegítima se ela viesse acompanhada de perdão de dívida, terras ou silêncio.
A raiva dela vacilou.
Em seu lugar, veio um medo quieto, mais profundo.
— O palácio também é uma negociação — disse ela.
— Sim.
— Mas lá a mesa é maior.
— E há mais saídas.
Amara odiou o fato de aquilo fazer sentido.
Odiou mais ainda a parte de si que, mesmo ferida, viu ali uma chance.
Não uma chance de salvar a Casa Bellmont. Isso era desejo do pai. Não uma chance de agradar à rainha. Isso era delírio da nobreza. Mas uma chance de sair dos corredores onde sua história já fora escrita por outras mãos.
No palácio, talvez tentassem usá-la.
Mas na Casa Bellmont isso já acontecia.
A diferença era que, no palácio, haveria mais olhos, mais segredos, mais possibilidades.
E talvez a verdade sobre sua mãe.
— Eu irei — disse Amara.
Evander não demonstrou surpresa. Talvez nunca tivesse duvidado.
— Ótimo.
— Mas não por gratidão.
A mandíbula dele se contraiu.
— Isso pouco importa, desde que vá.
— Importa para mim.
Amara pegou a carta da rainha e dobrou-a com cuidado.
— Irei porque ficar aqui é aceitar uma prisão menor. Irei porque, se minha presença pode impedir que eu seja vendida em algum acordo vergonhoso, prefiro enfrentar a corte. Irei porque há coisas que o senhor escondeu de mim por tempo demais. E, se o palácio souber algo sobre minha mãe, eu descobrirei.
Evander ficou imóvel.
— Amara…
— O senhor disse que eu deveria observar, falar pouco e escolher aliados com cuidado. Aceito o conselho. Mas não confunda minha ida com obediência.
Os olhos dele escureceram.
Por um instante, Amara pensou que ele gritaria. Que a chamaria de ingrata, de insolente, de erro. Palavras que talvez já tivesse pensado tantas vezes que poderiam sair com facilidade.
Mas Evander apenas respirou fundo.
— Você aprenderá rápido que orgulho demais é perigoso.
— Aprendi vivendo com o seu.
A frase ficou entre os dois como uma lâmina.
Dessa vez, ele não respondeu.
Amara inclinou-se levemente, não como filha, mas como alguém encerrando uma audiência.
— Com sua licença, Vossa Graça. Tenho vestidos usados para transformar em intenção.
Saiu antes que ele pudesse detê-la.
No corredor, o ar pareceu menos pesado, embora a casa continuasse a mesma. As paredes descascadas, os retratos antigos, o frio preso nas pedras. Tudo igual. E, ainda assim, algo dentro dela havia se deslocado.
Mirelda a esperava perto da escada, ansiosa demais para fingir casualidade.
— O que aconteceu?
Amara olhou para a carta em suas mãos.
— Meu pai me explicou que sou a última esperança dos Bellmont.
A governanta fechou os olhos com tristeza.
— Ah, menina…
— Não se preocupe. Não pretendo ser esperança de ninguém além de mim mesma.
Mirelda a observou por um longo momento.
— Isso é perigoso.
— Tudo parece ser.
— E mesmo assim?
Amara subiu o primeiro degrau.
Pensou na rainha Isolde. No Palácio de Vidro. No Livro das Casas, do qual ouvira apenas rumores, mas que registrava honras e manchas como se famílias fossem páginas a serem corrigidas. Pensou nas jovens que a olhariam como intrusa. Nos homens que tentariam medir seu valor. No pai que finalmente a chamara de filha quando precisava de uma representante.
Pensou na mãe.
Na promessa de uma verdade escondida.
Então apertou a carta contra o peito, não como quem segurava uma ordem, mas como quem segurava uma chave ainda sem conhecer a fechadura.
— Mesmo assim — disse.
Naquela noite, Amara não dormiu cedo.
Enquanto a mansão mergulhava em silêncio, ela permaneceu acordada à luz de uma única vela, separando vestidos, testando combinações, removendo rendas antigas e costurando novas intenções sobre tecidos herdados. Seus dedos doeram. Uma pequena gota de sangue surgiu quando a agulha furou sua pele, manchando de vermelho a ponta de um retalho branco.
Amara levou o dedo aos lábios por instinto, depois olhou para a marca no tecido.
Pequena.
Quase invisível.
Como ela sempre fora.
Por impulso, em vez de descartar o retalho, costurou-o na parte interna do vestido azul, onde ninguém veria. Um segredo contra a pele. Uma lembrança de que, por trás de cada camada de seda, haveria sangue seu. Vontade sua. Escolha sua.
Lá fora, o vento diminuíra.
A neve, antes presa nos jardins, continuava derretendo.
E, no quarto menor do segundo andar, a filha esquecida da Casa Bellmont preparava-se para entrar no lugar onde todos fingiam brilhar.
Não para salvar o nome que a ferira.
Mas para impedir que ele fosse a última coisa que lhe restava.