Capítulo 1 — A Filha Esquecida
A Casa Bellmont ainda parecia nobre quando vista de longe.
Do alto da estrada principal, sua fachada de pedra clara resistia ao tempo como uma dama velha demais para admitir decadência. As torres estreitas ainda cortavam o céu cinzento de Valdoria com certa arrogância, os vitrais ainda refletiam a luz pálida da manhã, e o brasão dos Bellmont — um falcão prateado de asas abertas sobre três estrelas — continuava preso acima dos portões de ferro, como se não houvesse ferrugem devorando as barras, como se os jardins não tivessem sido reduzidos a canteiros malcuidados, como se os criados não tivessem desaparecido um a um nos últimos anos.
De longe, tudo ainda parecia intacto.
De perto, a ruína tinha cheiro.
Cheirava a madeira úmida, a velas economizadas até o último fio de pavio, a flores mortas em vasos que ninguém mais substituía. Cheirava a prata vendida em segredo, a cortinas viradas do avesso para esconder manchas, a tapetes gastos demais para suportar outro inverno. Cheirava a orgulho apodrecido.
Amara Bellmont conhecia cada rachadura daquela casa.
Conhecia a terceira escada do corredor leste, que rangia mesmo sob passos leves. Conhecia o quadro torto da antiga Duquesa Helena, cuja moldura dourada fora raspada em um canto para que parte do ouro pudesse ser vendida sem chamar atenção. Conhecia a biblioteca trancada, onde metade dos livros já não existia, embora seu pai ainda fingisse possuir uma das coleções mais admiráveis da província. Conhecia o salão de baile que não recebia música havia seis anos.
E conhecia, principalmente, o lugar exato que ocupava ali.
À margem.
Sempre à margem.
Naquela manhã, Amara estava ajoelhada diante de uma arca de cedro no quarto menor do segundo andar, costurando a barra de um vestido azul-claro que um dia pertencera à sua meia-irmã. A luz entrava fraca pela janela estreita, atravessando o vidro embaçado e caindo sobre o tecido como um pedido de desculpas. Havia neve acumulada no parapeito externo, embora a primavera já devesse ter alcançado Valdoria. A província dos Bellmont parecia sempre atrasada até para as estações.
Amara puxou a linha com cuidado, segurando o tecido entre os dedos para que o remendo não ficasse visível. Era boa nisso. Em tornar invisível o que havia sido rasgado. Em consertar o que os outros danificavam. Em fazer restos parecerem escolha.
A porta se abriu sem aviso.
— Ainda não terminou?
Amara não levantou a cabeça de imediato. Reconheceria aquela voz mesmo em meio a uma tempestade. Fria, impaciente, treinada para dar ordens sem precisar elevar o tom.
Duque Evander Bellmont entrou no quarto como se estivesse invadindo um aposento de criados, não o espaço onde sua filha dormia. Usava uma casaca escura, bem cortada, mas antiga. O tecido começava a brilhar nos cotovelos, e os botões, embora polidos, não eram os originais. Amara sabia porque fora ela quem substituíra dois deles na noite anterior.
O duque parou próximo à porta, evitando olhar por muito tempo para os móveis simples, para a colcha gasta, para a bacia de água fria sobre a cômoda. Talvez aquele quarto o incomodasse. Não por ser humilde, mas por lembrá-lo de que havia sido ele quem a colocara ali.
— Falta pouco — respondeu Amara, dando outro ponto.
— Falta pouco não é uma resposta adequada quando temos visitas.
Dessa vez, ela ergueu os olhos.
— Visitas?
Evander ajeitou as luvas com um gesto rígido.
— Lorde Merek virá ao meio-dia discutir a extensão da dívida sobre as terras do norte. Sua presença será necessária no salão.
Amara franziu levemente a testa.
— Minha presença?
— Não me obrigue a repetir.
Ela baixou os olhos para o vestido. Azul-claro. Delicado. Com pequenas pérolas falsas costuradas no corpete. Um vestido bonito o bastante para fingir prosperidade, desde que ninguém se aproximasse demais.
— O senhor deseja que eu sirva chá ou que sorria como prova de que a família ainda possui filhas apresentáveis?
A frase escapou antes que pudesse ser contida.
O silêncio que veio em seguida foi tão frio quanto a manhã.
Evander a encarou. Não havia surpresa em seu rosto, apenas aquele cansaço irritado que sempre surgia quando Amara esquecia o papel que deveria representar: obediente, discreta, grata por ter um teto, silenciosa sobre o sangue que compartilhavam.
— Você deveria ter aprendido, com o passar dos anos, que a ironia é um luxo reservado a quem possui alguma posição.
Amara espetou a agulha no tecido.
— Naturalmente, Vossa Graça.
O título saiu polido, mas não submisso.
Evander estreitou os olhos. Havia dias em que Amara achava que ele a odiava. Em outros, acreditava que era pior: ele a via como uma lembrança inconveniente de uma fraqueza antiga. Não uma filha. Não um erro amado. Apenas uma consequência.
Sua mãe nunca era mencionada naquela casa.
Não em voz alta.
Amara possuía dela apenas um medalhão pequeno de metal escurecido, guardado sob as roupas, e fragmentos de memória que talvez fossem inventados de tanto serem revisitados: mãos quentes penteando seus cabelos, uma canção sussurrada em uma língua que ninguém mais falava, o perfume de lavanda e chuva.
Quando sua mãe morreu, Amara tinha seis anos. Quando entendeu que era ilegítima, tinha oito. Quando percebeu que o sobrenome Bellmont não a protegeria, tinha dez.
Agora, aos dezenove, já não esperava p******o.
Apenas sobrevivia ao nome.
— Vista-se de modo apropriado — disse Evander. — Não fale a menos que seja chamada. Não contradiga. Não demonstre nervosismo.
— Há algo específico que Lorde Merek precise acreditar sobre mim?
O duque virou o rosto, como se a pergunta o ofendesse.
— Que você é uma Bellmont.
Amara quase sorriu.
Quase.
Porque havia uma crueldade particular naquela ordem. Durante toda a vida, fora lembrada de que não era Bellmont o suficiente. Não à mesa principal, não nos bailes, não nos retratos da família, não nas cartas enviadas à corte. Mas, quando a ruína se aproximava, quando credores atravessavam os portões e aliados desapareciam, seu sangue se tornava útil.
— Entendo — disse ela.
Evander a observou por mais um instante. Talvez esperasse revolta. Talvez desejasse obediência. Talvez não soubesse mais diferenciar uma da outra quando se tratava de Amara.
Antes que pudesse sair, passos apressados ecoaram no corredor. A governanta, senhora Mirelda, surgiu à porta com as bochechas coradas e uma expressão que Amara não via havia muito tempo naquela casa: espanto.
— Vossa Graça — disse a mulher, inclinando-se de forma desajeitada. — Perdoe a interrupção, mas chegou um mensageiro.
Evander se irritou.
— Mensageiros chegam todos os dias.
— Não como este, meu senhor.
A governanta ergueu uma bandeja de prata manchada. Sobre ela havia um envelope grosso, branco como neve recém-caída, selado com cera dourada.
O mundo pareceu encolher ao redor daquele pequeno objeto.
Amara se levantou devagar, esquecendo o vestido sobre a arca. Evander deu dois passos à frente. Sua postura mudou antes mesmo de tocar o envelope. A irritação desapareceu, substituída por uma rigidez quase reverente.
O selo era inconfundível.
Uma coroa envolta por ramos de louro.
A marca da Casa Arvand.
A marca da rainha.
Por um momento, ninguém falou.
Até a casa pareceu prender a respiração.
Evander pegou o envelope como se segurasse algo sagrado ou perigoso. Talvez fosse as duas coisas. Quebrou o selo com cuidado, desdobrou a carta e começou a ler. Seus olhos se moveram rapidamente pelas linhas. A cor sumiu um pouco de seu rosto.
Amara observou as mãos dele.
Tremiam.
Muito pouco. Quase nada.
Mas tremiam.
— Pai? — A palavra saiu antes que ela pudesse pensar.
Evander ergueu os olhos.
Aquele único olhar bastou para que Amara se arrependesse de tê-lo chamado assim. Ele nunca a corrigia em público; isso chamaria atenção demais. Mas, em particular, havia sempre uma pausa. Um muro invisível erguido entre o sangue e o reconhecimento.
— A rainha Isolde convocou a Casa Bellmont para a Temporada da Coroa — disse ele.
Mirelda levou uma das mãos à boca.
Amara ficou imóvel.
A Temporada da Coroa.
Mesmo em uma província decadente, mesmo dentro de uma casa onde os bailes haviam morrido, o nome ainda carregava poder. Todos em Valdoria conheciam a Temporada. Durante semanas, talvez meses, as famílias nobres se reuniam no palácio real para apresentar suas filhas, firmar alianças, negociar casamentos, disputar prestígio. Era um espetáculo para o povo e uma guerra silenciosa para a aristocracia.
Mas aquele ano seria diferente.
Os rumores vinham circulando havia meses: a rainha, sem herdeiro direto suficientemente aceito por todas as casas, criaria um novo processo de sucessão. Algo envolvendo candidatas, linhagens, juramentos, conselhos. Ninguém sabia ao certo. A corte adorava segredos antes de transformá-los em armas.
— Convocou a Casa Bellmont — repetiu Amara. — Ou uma das filhas da Casa Bellmont?
Evander dobrou a carta devagar.
— Você.
O chão pareceu se deslocar sob os pés dela.
Mirelda soltou um som baixo, entre espanto e alegria. Amara não conseguiu fazer o mesmo. Não havia alegria em seu peito. Apenas uma sensação estranha, como se uma porta tivesse sido aberta em uma parede onde ela jamais percebera existir passagem.
— Deve haver engano — disse Amara.
— Não há.
— A rainha não sabe quem eu sou.
— A rainha sabe tudo que considera necessário saber.
A resposta veio rápida demais.
Amara percebeu.
Havia algo naquela carta que seu pai não dissera. Algo além da convocação.
— Por que eu? — perguntou.
Evander caminhou até a janela. Do lado de fora, a neve começava a derreter nos galhos secos do jardim. Ele ficou de costas para ela por alguns instantes, segurando a carta como se o papel queimasse seus dedos.
— Porque sua meia-irmã está comprometida com a Casa Draven e não pode ser apresentada como candidata. Porque sua outra irmã está doente desde o inverno. Porque nenhuma sobrinha Bellmont possui idade adequada. Porque, aparentemente, Sua Majestade deseja representantes de todas as casas antigas, mesmo aquelas que atravessam dificuldades.
Dificuldades.
Amara quase riu.
Dívidas tinham se tornado dificuldades. Falência tinha virado momento delicado. Desonra era apenas instabilidade.
A nobreza possuía palavras elegantes para todas as formas de queda.
— Então não fui escolhida — disse ela. — Fui o que restou.
Evander virou-se.
— Você foi convocada.
— Há diferença?
— Há, se tiver inteligência suficiente para aproveitá-la.
O tom dele mudou. Não era mais o pai distante, nem o duque irritado. Era o homem desesperado por uma chance de salvar o que ainda restava de seu nome.
Amara sentiu um frio mais fundo que o da manhã.
— O que o senhor espera de mim?
Evander se aproximou. Seus olhos, cinzentos como o céu sobre a propriedade, prenderam-se aos dela.
— Espero que entenda a importância disso. A presença de uma Bellmont no palácio pode restaurar alianças. Pode atrair investidores. Pode lembrar à corte que nossa casa ainda existe.
— Nossa casa?
— Não comece.
— Pensei que eu fosse apenas uma inconveniência.
O rosto dele endureceu.
— Você é minha filha.
Amara sentiu a frase como um t**a.
Não por ser c***l.
Por ser tardia.
Houve um tempo em que teria dado qualquer coisa para ouvi-la. Aos oito anos, escondida atrás da porta do salão enquanto as visitas perguntavam quem era “a menina de olhos escuros”. Aos doze, quando uma prima distante lhe disse que bastardas deveriam ser gratas por não serem enviadas a conventos. Aos quinze, quando sua meia-irmã riu ao vê-la usando um vestido reformado e perguntou se ela também herdaria restos de marido um dia.
Naqueles momentos, teria amado ouvir Evander dizer: “Ela é minha filha.”
Agora, a frase tinha gosto de moeda.
— Não diga isso apenas porque precisa de mim — respondeu Amara, baixo.
Por um instante, algo atravessou o rosto dele. Culpa, talvez. Ou irritação por ser confrontado com uma verdade inconveniente.
— O mundo não é gentil com mulheres sem p******o, Amara.
— Eu sei.
— Não. Você acha que sabe porque cresceu ressentida em uma casa fria. Mas o palácio é diferente. Lá, um erro não custa apenas lágrimas. Custa nome, futuro, segurança. Se você fracassar, não cairá sozinha. Levará os Bellmont com você.
E ali estava.
A verdade inteira.
Não era sobre oportunidade. Não era sobre reconhecimento. Não era sobre vê-la finalmente como parte da família.
Era sobre o peso que ele colocava em seus ombros antes mesmo de lhe oferecer uma escolha.
Amara olhou para a carta real.
— E se eu recusar?
Mirelda inspirou com força.
Evander não se moveu.
— Você não recusará.
— Isso não foi uma resposta.
— Foi a única que posso dar.
O silêncio cresceu entre os dois.
Amara imaginou a si mesma dizendo não. Imaginou rasgar a carta. Imaginou virar as costas para o palácio, para a rainha, para a chance de ser exibida como uma peça reformada da Casa Bellmont. Imaginou a expressão do pai ao perceber que não podia controlar tudo.
Mas então pensou nas dívidas.
Nos criados dispensados.
Em Mirelda economizando farinha.
Nas terras do norte hipotecadas.
Na possibilidade de Evander casá-la com algum credor velho o bastante para chamar sua juventude de solução. Porque, se a temporada real era uma prisão dourada, a casa dos Bellmont era uma cela sem ouro algum.
No palácio, ao menos, haveria portas desconhecidas.
E talvez uma delas levasse para fora.
— Quando devo partir? — perguntou.
Evander soltou o ar com discrição, mas Amara viu o alívio em seus ombros.
— Em três dias.
Três dias.
Para deixar a casa onde nunca pertencera.
Três dias para preparar vestidos que não possuía, modos que nunca lhe ensinaram completamente, sorrisos que não queria oferecer.
Três dias para transformar uma filha esquecida em uma representante aceitável de uma linhagem moribunda.
— Vou precisar de roupas adequadas — disse ela.
— Sua irmã deixou peças suficientes.
— Peças usadas não bastam para a corte.
— Faça com que bastem.
A resposta foi imediata.
Claro.
Amara assentiu uma vez.
— Como sempre.
Evander desviou o olhar. Talvez porque não suportasse o modo como ela dissera aquilo. Talvez porque suportasse muito bem, e isso fosse pior.
Mirelda, ainda parada à porta, abraçava a bandeja contra o peito.
— Senhorita Amara… — começou, emocionada. — O palácio real…
Amara olhou para ela e tentou sorrir. A governanta era a única pessoa naquela casa que ainda a chamava pelo nome como se ele não fosse um incômodo.
— Parece que terei que aprender a não tropeçar em saias longas — disse Amara.
Mirelda riu baixinho, mas seus olhos estavam úmidos.
Evander ignorou a troca.
— Haverá instruções. Regras. A rainha não tolera escândalos. E você, mais do que qualquer outra jovem naquela temporada, não poderá se dar ao luxo de cometê-los.
Amara sustentou o olhar dele.
— Porque sou ilegítima.
— Porque a corte é c***l.
— Uma coisa não exclui a outra.
Ele fechou a mão ao redor da carta.
— Você irá como Amara Bellmont. Nada mais. Nada menos. Sua origem não deve ser assunto.
— Minha origem sempre é assunto, mesmo quando ninguém diz uma palavra.
Evander pareceu prestes a responder, mas desistiu. Caminhou até a porta, entregando a carta a Mirelda sem olhar para Amara.
— Prepare-a — ordenou. — E encontre todos os vestidos que possam ser ajustados.
— Sim, Vossa Graça — disse a governanta.
Antes de sair, o duque parou.
— Amara.
Ela ergueu o rosto.
— Não confunda essa convocação com liberdade.
A frase permaneceu no quarto depois que ele se foi.
Por alguns segundos, Amara não se moveu. Apenas escutou os passos do pai se afastando pelo corredor, firmes e controlados, como se ainda houvesse império sob seus pés.
Mirelda entrou devagar e fechou a porta.
— Minha menina…
Amara voltou a olhar pela janela.
Do lado de fora, a neve derretia sobre a terra escura. Pequenos filetes de água escorriam pelos caminhos abandonados do jardim, revelando raízes, pedras, folhas mortas. A primavera não chegava bonita. Chegava rasgando o gelo, expondo tudo que o inverno havia escondido.
— Não chore por mim, Mirelda — disse Amara.
— Não estou chorando.
Amara olhou para ela.
A governanta enxugou rapidamente o canto dos olhos.
— Ainda não.
Dessa vez, Amara sorriu de verdade, embora pequeno.
Mirelda se aproximou da arca e pegou o vestido azul. Passou os dedos pelo remendo quase invisível.
— Posso ajustar este. E talvez o verde de sua irmã. O dourado está manchado, mas com renda no corpete…
— Não precisa parecer novo — interrompeu Amara. — Só precisa parecer intencional.
— No palácio, tudo parece intencional.
— Então talvez eu aprenda rápido.
Mirelda observou-a com carinho e tristeza.
— Você sabe que eles vão olhar.
Amara assentiu.
— Sempre olharam.
— Não assim.
Talvez fosse verdade.
Na Casa Bellmont, os olhares eram velhos. Já vinham prontos, gastos pelo costume. No palácio, seriam novos. Afiados. Curiosos. Famintos.
Amara imaginou salões iluminados por centenas de velas, damas com joias suficientes para comprar aldeias, homens sorrindo como se assinassem sentenças, a rainha em seu trono de mármore e ouro. Imaginou seu nome anunciado diante deles.
Amara Bellmont.
A filha esquecida.
A vergonha aproveitada.
A peça restante.
Um arrepio percorreu sua nuca.
Não de medo.
Não apenas.
Havia algo mais. Uma centelha pequena, perigosa, que ela não queria nomear.
Porque, pela primeira vez em muitos anos, o mundo além dos portões a chamava.
Talvez para humilhá-la.
Talvez para destruí-la.
Talvez para lhe mostrar que a jaula podia ser maior do que ela imaginava.
Amara pegou o medalhão escondido sob a gola simples do vestido que usava. O metal estava frio contra seus dedos. Abriu-o com cuidado. Dentro, havia um fragmento de tecido antigo, azul-escuro, bordado com uma linha prateada em forma de estrela.
Era tudo que tinha da mãe.
— Você teria ido? — sussurrou.
Mirelda fingiu não ouvir.
Amara fechou o medalhão.
No corredor distante, vozes começaram a se agitar. Criados abrindo armários esquecidos. Portas rangendo. O nome Bellmont sendo pronunciado com uma urgência que não existia havia anos. A casa, que pela manhã parecia morta, estremecia com a possibilidade de ser vista outra vez.
Amara caminhou até o espelho pequeno sobre a cômoda.
A superfície estava manchada nos cantos, mas ainda refletia o suficiente. Ela viu uma jovem de pele pálida pelo frio, cabelos escuros presos de qualquer jeito, olhos atentos demais para alguém que passara a vida tentando não chamar atenção. Não parecia uma dama da corte. Não parecia uma candidata. Não parecia uma salvadora de família.
Parecia o que sempre fora.
Alguém que aprendera a sobreviver com pouco.
Talvez, pensou, isso fosse mais útil do que todos os vestidos novos do mundo.
Mirelda colocou o vestido azul sobre a cama.
— Vamos começar?
Amara olhou uma última vez para o próprio reflexo.
Lembrou-se da voz do pai.
“Não confunda essa convocação com liberdade.”
Talvez ele estivesse certo.
Talvez o palácio fosse apenas outra prisão, maior, mais bonita, cheia de regras polidas e portas guardadas.
Mas havia uma diferença.
Na Casa Bellmont, todos já sabiam quem ela deveria ser.
No palácio, ainda não.
Amara virou-se para Mirelda.
— Sim — disse ela. — Vamos começar.
E, pela primeira vez, a filha esquecida da Casa Bellmont permitiu-se imaginar o que aconteceria se, ao ser finalmente vista, ela se recusasse a desaparecer outra vez.