Capítulo 4 — A Realidade - Narrado por Theo

1919 Words
Tem coisas que a gente só entende quando perde.
E, às vezes, nem assim. Passei três anos tentando encontrar uma versão de mim que funcionasse longe da Lara. Fisicamente, foi fácil: novos lugares, novos rostos, projetos desafiadores, um mundo de possibilidades em Seattle. Mas emocionalmente… era como tentar viver com uma parte do corpo amputada e fingir que estava inteiro. No começo, Sophia parecia uma escolha lógica. Inteligente, ambiciosa, linda. Ela entendia o mundo da tecnologia, nossas conversas fluíam bem e tínhamos uma química decente. Mas aos poucos, o que era leve virou cobrança. — Por que você sempre fala da Lara? — ela perguntou um dia, depois de ouvir, pela centésima vez, uma história da infância que incluía risos, árvores e a ruiva com sardas no rosto. — Porque ela é minha melhor amiga. Crescemos juntos. É normal — respondi, achando que aquilo bastava. Mas pra Sophia, não bastava.
Ela não queria competir com uma sombra. Com um fantasma que, mesmo longe, parecia ocupar o lugar que ela queria. — A verdade, Theo? Você fala da Lara como se ela fosse sua irmã, mas você nunca fala de ninguém com tanta ternura. Você nunca fala de mim assim. E então ela foi embora. Disse que merecia mais. Que eu ainda não estava pronto para amar alguém porque uma parte de mim nunca deixou a Lara ir. Na época, achei um exagero. Hoje, eu entendo. Porque talvez, durante todos aqueles anos, eu estivesse apenas me escondendo. Fingindo que a Lara era só uma amiga, quando no fundo... ela sempre foi o centro de tudo. Três anos se passaram. Terminei o curso. Me formei em Desenvolvimento de Software. Tinha ofertas de trabalho, projetos para iniciar, um futuro pela frente. Mas tudo o que eu queria era voltar. Voltar para casa.
Voltar para ela. E eu sabia exatamente qual dia escolher. O dia da formatura da Lara. As nossas mães haviam mantido contato constante, e Maria me contou sobre o jantar surpresa que estava organizando para a filha. “Ela não sabe que você vai. Vai ser bom vê-la de novo, filho.”
Eu não tinha tanta certeza. Mas fui mesmo assim. O voo chegou no fim da tarde. O céu estava alaranjado, e o calor morno me abraçou como um velho amigo. Respirei fundo antes de entrar no carro e seguir para o bairro onde cresci. Onde crescemos. O coração batia acelerado no peito. Como se eu tivesse dezessete anos de novo. A casa dela estava cheia de gente. Música suave tocando ao fundo, vozes animadas, risos. Balões prateados flutuavam presos às cadeiras, e uma faixa dizia “Parabéns, Formada!” com letras douradas. A cozinha cheirava a comida caseira — aquela mistura de bolo, lasanha e brigadeiro que só mãe sabe preparar em festas simples. Fiquei parado por alguns segundos na porta, observando. E então a vi. Lara estava perto da janela, rindo de algo que uma prima dizia. Usava um vestido verde-musgo que realçava os cabelos ruivos — agora mais longos — caindo em ondas sobre os ombros. Os olhos… aqueles olhos verdes que pareciam carregar primaveras inteiras dentro de si, brilharam quando se voltaram para mim. Ela congelou. Literalmente. A taça de vinho parou no ar, os lábios entreabertos, como se a realidade tivesse sido arrancada debaixo dos pés dela. Um segundo depois, as lágrimas começaram a se formar, silenciosas, caindo com a delicadeza de alguém que sentiu tudo de uma vez. E eu? Fiquei ali. Estático. Engolindo em seco. Ouvindo meu próprio coração martelar no peito como um tambor de guerra.
Meus pés se moveram antes que eu pensasse. Caminhei até ela, ignorando os olhares curiosos ao redor. E quando finalmente a alcancei, não disse nada. Só a abracei. Apertei-a contra mim como se todo o tempo, toda a distância, todas as falhas, pudessem ser lavadas naquele toque. Ela não disse nada também. Só se agarrou a mim. Como se estivesse esperando por isso desde o dia em que parti. E talvez estivesse. Depois do jantar, já no quintal iluminado por luzinhas penduradas nas árvores, nos sentamos num canto mais afastado, longe da música e dos tios barulhentos. A noite estava fresca, e havia algo de poético na brisa que passava entre nós, como se o universo tentasse dizer: agora é a hora. — Você está diferente — disse ela, quebrando o silêncio. — Três anos mudam a gente. Ela riu, mas foi um riso curto. Quase triste. — Não achei que você viria. — Eu não podia não vir. Não depois de tudo. Ela me olhou com atenção, como se procurasse verdade nos meus olhos. — A Sophia…? — Acabou. Há mais de um ano. — Por quê? — Porque eu falava demais de você — respondi, com sinceridade. — E porque... nenhuma relação funciona quando seu coração está em outro lugar. Ela desviou o olhar. Piscou devagar, como se estivesse processando. — Você me magoou, Theo. — Eu sei. E não espero que tudo volte a ser como era. Mas eu tô aqui. E quero reconstruir o que a gente perdeu. Mesmo que seja do zero. — Não dá pra reconstruir algo do zero… quando nunca foi apenas amizade pra mim. Aquela frase me atingiu em cheio.
Ela finalmente disse o que eu temi por anos ouvir. Mas, estranhamente, não doeu.
Foi um alívio. — Talvez… nunca tenha sido só amizade pra mim também. Lara me olhou, surpresa. Mas havia algo nos olhos dela que me fez entender: ainda havia chance. Não de voltar ao que éramos. Mas de construir algo novo. Verdadeiro. Capítulo 4 — A Realidade Narrado por Theo Foi quando vi a Lara naquela festa, com os olhos marejados e a alma inteira no olhar, que tudo fez sentido. Não era amizade. Nunca tinha sido. Talvez, por anos, eu tenha tentado esconder isso de mim mesmo, mas ali, com ela nos meus braços, entendi com a mais absoluta clareza: eu amava aquela mulher. Nas semanas que se seguiram ao reencontro, tomamos uma decisão silenciosa, mas poderosa: nos daríamos uma nova chance — não como amigos, mas como duas pessoas que tinham vivido uma vida inteira lado a lado e agora podiam finalmente escolher um ao outro, com maturidade e verdade. Começamos devagar. Nada de pressa. Íamos a cafés escondidos pela cidade, jantávamos em lugares discretos, assistíamos filmes antigos no cinema do centro — aquele tipo de programa que só funciona quando o silêncio entre duas pessoas é confortável. E era. Sempre foi. Lara estava buscando oportunidades na sua área — Administração de Empresas. Ela era focada, determinada, cheia de ideias. Enquanto isso, eu trabalhava de casa, desenvolvendo softwares simples para pequenas empresas locais. Ainda não era nada revolucionário, mas me dava o suficiente para sonhar. — Acho que você tem algo grande nas mãos, Theo — ela disse uma noite, sentada ao meu lado no sofá, com o notebook no colo. — Isso aqui que você está desenvolvendo tem potencial pra virar tendência. Você só precisa pensar maior. Lara sempre enxergou o que eu ainda não conseguia ver. Foi ali que a sementinha da ambição ganhou raízes. Comecei a estudar mercado, explorar demandas reais, conversar com empresas. Criei um sistema de gestão personalizado, que se mostrou eficaz e simples. Em poucos meses, pequenas empresas começaram a aderir. O lucro veio, mas o que me motivava era outra coisa: a sensação de estar construindo algo meu. Algo nosso. Um dia, peguei Lara de surpresa com uma viagem. — Prepara a mala, ruivinha. Vamos ver o mar. — Como assim? A gente mora no meio do país, Theo. — Por isso mesmo. Você sempre quis sentir a areia nos pés, lembra? Dois dias depois, estávamos numa praia tranquila no litoral norte, numa pousada charmosa de madeira e redes brancas balançando ao vento. O mar era exatamente como ela imaginava: imenso, inquieto, azul-esverdeado. No segundo dia, ao pôr do sol, levei-a até um restaurante rústico montado na areia. Tinha combinado tudo com o dono. Uma mesa só nossa, luzes penduradas em estacas, pétalas de rosa no chão. Quando ela chegou, vestindo um vestido leve que dançava com o vento, eu soube que era a hora. — Lara — disse, ajoelhando na areia e tirando do bolso uma caixinha de veludo. — Não quero mais adiar o que já é óbvio. Você é a mulher da minha vida. E eu quero construir um futuro com você, um passo de cada vez. Quer namorar comigo? Ela riu com os olhos molhados. — Isso é um pedido de namoro ou de casamento? — Ainda namoro. Mas tô treinando pro outro também. — Então a resposta é sim. Nos beijamos com o mar como testemunha. E naquele momento, eu soube que nunca mais estaria sozinho. Nos meses seguintes, as coisas aconteceram rápido. Minha empresa ganhou visibilidade. Um dos meus softwares foi licenciado por uma grande rede de clínicas, e o dinheiro começou a entrar de verdade. Comprei meu primeiro carro. Depois, um segundo, só para a Lara. Alugamos um apartamento em São Paulo. Mudamos juntos. Ela deixou o emprego que tinha em nossa cidade para me acompanhar, mesmo relutante. Não queria depender de mim, e eu respeitava isso. Mas ver ela se frustrar com a dificuldade de encontrar algo na área me doía. Foi então que conheci Leonardo, um empresário com quem já havia feito negócios. — Minha namorada está em busca de oportunidades. Se você precisar de alguém competente, apaixonada por resultados… a Lara é a melhor escolha que pode fazer. Ele topou conhecê-la. E bastou uma entrevista para entenderem que ela era exatamente o que a empresa dele precisava. Lara começou a trabalhar na área administrativa da empresa de Leonardo e, em poucas semanas, já estava propondo soluções, reformulando processos, sendo admirada. — Você é uma força da natureza, sabia? — eu dizia a ela, enquanto jantávamos sushi no sofá depois de um dia exaustivo. — E você é um exagerado apaixonado. Mas eu gosto assim. Um ano se passou. A minha startup agora tinha mais de quinhentos funcionários. Consegui abrir o prédio próprio da empresa, com o logo na fachada e equipes em setores que eu nem imaginava liderar um dia. Recebia convites para eventos, entrevistas, prêmios. Era oficialmente um dos CEOs mais jovens e promissores do setor tecnológico no país. E mesmo assim… meu maior orgulho continuava sendo ver Lara crescer com as próprias conquistas. — Por que não vem trabalhar comigo? — perguntei um dia, enquanto a observava revisar um relatório no balcão da cozinha. — Porque eu gosto de vencer pelas minhas mãos, Theo. Admiro tudo que você construiu, mas ainda tenho meu próprio caminho. E com o Leonardo, estou tendo espaço pra isso. A empresa dele está crescendo e eu quero fazer parte dessa transformação também. Respeitei. E amei ainda mais por isso. No nosso aniversário de um ano de namoro, decidimos visitar nossos pais. Fizemos uma surpresa ainda maior: havíamos contratado reformas completas para a casa dos meus pais e para a dos pais dela. Nova pintura, móveis, melhorias na estrutura. — Isso tudo é exagerado, menino — disse meu pai, rindo, ao ver a casa ganhando uma nova fachada. — Não é exagero. É gratidão. A verdade é que estávamos construindo não só um futuro. Estávamos honrando o passado que nos formou. E pela primeira vez na vida, tudo parecia se encaixar. Eu era mais do que um garoto que brincava com códigos.
Ela era mais do que a melhor amiga da infância. Agora éramos dois adultos.
Parceiros. Sonhadores.
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