Narrado por Helena A manhã estava nublada. O céu carregado, como se tivesse herdado o peso do que vivíamos há meses. Sofia dormia no sofá da sala, encolhida como uma criança de seis anos, mesmo tendo quase dezoito. Eu preparava café, sem fome, sem energia, apenas pelo hábito. A rotina se tornou o único elo com a sanidade depois que perdemos Aurora. Não a enterramos. Mas foi como se tivéssemos feito isso. Meu marido — se ainda merecesse esse título — havia mergulhado num silêncio cada vez mais hostil. Desde o dia do leilão, ele nunca mais foi o mesmo. E eu... eu também não. Porque por mais que eu gritasse, que eu chorasse, que eu implorasse, ele fez o que fez. Entregou nossa filha como se fosse nada. Para salvar uma empresa falida. Um nome podre. Ele dizia que era o único caminho. Que a

