CAPÍTULO 1-2

2042 Words
O coração de Lúcia agarrou-se quando, após alguns dias, foi convocada pelo tio Artemio3 para o seu estudo, na outra ala do edifício da ala habitada por ela e pela sua avó. O estudo do tio era uma sala enorme, luxuosamente mobilada, as paredes adornadas com tapeçarias, o chão parcialmente coberto com um enorme tapete. Uma parede inteira foi ocupada por uma estante, contendo textos sagrados e profanos, manuscritos valiosos e alguns textos impressos, incluindo uma cópia da Divina Comédia de Dante Alighieri, feita anos antes por Federico Conti na sua loja de impressão em Jesi. Lúcia teria dado tudo para poder consultar esses pontos, mas foi sempre estritamente proibida. O cheiro dos veludos, que cobriam cadeiras e poltronas, contribuiu para tornar o ar na sala pesado e irrespirável, quase ao ponto de asfixiar. As janelas com vista para a praça permitiram ao Cardeal lançar o seu olhar sobre o centro nervoso da sua cidade, mantendo os seus ilustres concidadãos sob controlo, mas foram sempre hermeticamente fechadas para evitar que o barulho da praça e das ruas perturbasse a concentração do prelado mais alto do local. O cargo de cardeal permitiu-lhe estar acima de qualquer outro cargo político, podendo contestar até qualquer decisão do Capitão do Povo, que residia no não muito distante Palazzo del Governo. O poder que lhe foi dado pelo Papa Alexandre VI, e confirmado pelos seus sucessores, Pio III, Júlio II e Leão X, foi de facto respeitado e temido por todas as outras autoridades locais na altura. O Cardeal ofereceu a sua mão anelada à sua sobrinha para que ela se beijasse, depois convidou-a a sentar-se numa das cadeiras imponentes em frente à sua secretária. «Lúcia, minha querida sobrinha, já não és uma criança, e chegou o momento de encontrar para ti um homem que será um marido digno. Se não há outro jovem nos seus pensamentos, gostaria de lhe propor o filho do Capitão do Povo, Andrea. Tem vinte anos de idade, é um jovem bonito, e é bom tanto a montar como a manusear armas», virou-se para ela enquanto limpava as lentes dos seus espectáculos venezianos requintadamente trabalhados com um pequeno pano. À espera que a jovem respondesse, voltou a respirar nas lentes, esfregou-as cuidadosamente com o pano e depois colocou os seus óculos, fixando o seu olhar penetrante nos olhos de Lúcia. O Cardeal, com quase sessenta anos de idade, além do seu cabelo grisalho, era ainda uma pessoa forte e robusta com uma figura alta e esguia; os seus olhos castanhos de aspecto aguçado destacavam-se contra a pele pálida do seu rosto, que apesar da sua idade ainda não parecia sulcada por rugas óbvias. Apenas naqueles raros momentos em que sorria, os pés de galinha formam-se nos lados dos olhos. Lúcia sabia que não era certamente por isso que tinha sido convocada, e tentou penetrar na mente do seu tio para saber o que ele realmente queria, mas os seus pensamentos foram selados atrás de barreiras invisíveis e muito resistentes. A sua avó tinha-a avisado, o tio Artemio fazia parte da família e, como todos os seus membros, era dotado de poderes, talvez mais fortes do que qualquer um deles. No entanto, na aparência e nos olhos do povo, tinha dedicado a sua vida a combater a bruxaria e a heresia. «Se ele também é um feiticeiro, porque é que luta contra os seus semelhantes», Lúcia perguntou um dia à sua avó. «Porque é da sua derrota que ele é capaz de aumentar os seus poderes. Nunca lhe vires as costas, nunca confies nele, se ele descobrir que és uma criatura com poderes fortes, mesmo que sejas sua neta, ele não hesitaria em condenar-te à estaca, e ver-te a arder, enquanto os teus poderes também se transferem para ele. Quando estiveres na sua presença, não penses, ele lê os teus pensamentos, mesmo os mais escondidos, e, além disso, impede-te de leres os dele». E era verdade! Naquele momento Lúcia estava a experimentar que não podia de forma alguma penetrar na sua mente, era como se não tivesse pensamentos, e mesmo assim deve ter tido. «Eu deveria saber se gosto dele, conhecê-lo e ver se me posso apaixonar por ele». «Apaixone-se, que grande palavra! Em famílias nobres como a nossa, casa-se com base num contrato. A família encontra um bom par para a rapariga e ela irá honrar o seu marido escolhido. Mas eu quero conhecê-lo. Eu e o Capitano del Popolo, Guglielmo dei Franciolini, organizaremos uma festa onde você e Andrea se conhecerão. E agora vai, eu avisar-te-ei quando a festa será realizada». Sem responder, Lúcia já se tinha levantado da sua cadeira e estava prestes a despedir-se, quando o Cardeal voltou a dirigir-se a ela. «Ah, esqueci-me», disse ele, como se fosse algo que não lhe interessava de todo. «Disseram-me que há alguns dias resgatou um companheiro cujas roupas tinham pegado fogo. Bravo, nós Baldeschi devemos distinguir-nos nesta cidade e mostrar que ajudamos os outros em todas as circunstâncias». Naquele momento, Lúcia tinha a percepção da mente do seu tio a vasculhar os cantos mais afastados do seu cérebro. Ela ainda não conseguiu forçar a si própria a não pensar, mas tentou recordar a cena na sua mente de forma diferente de como tinha acontecido na realidade. Eis que Elisabeth se tinha aproximado da fogueira que o Mestre Dyer tinha acendido em frente da sua oficina no início da descida de Fortino, para ferver o pote de água no qual ele mergulharia os tecidos a serem tingidos com as suas cores garridas. Uma aba do hábito da rapariga tinha sido tocada pelas chamas, que se tinham levantado num instante e até queimado o seu cabelo. Felizmente, tinha começado a chover subitamente, e Lúcia, que por acaso estava de passagem, tinha observado a sua pele avermelhada e tirado do seu alforge um frasco de aloé e pomada de linhaça, um remédio natural para as queimaduras solares que a sua avó utilizava para preparar. «Bravo, estou orgulhoso de ti!», repetiu o Cardeal. Lúcia deixou a sala, esperando no seu coração que tivesse incomodado o seu tio, embora não pudesse ter a certeza. Se ele sabe realmente que eu sou uma bruxa e que tenho poderes que ele pode invejar, o que é que ele fará? Manter-me sob controlo até ele estar seguro das minhas capacidades e depois atirar-me impiedosamente para uma estaca e ver-me morrer nas chamas? Mas então porquê propor-me um marido? Mah, talvez este seja um jogo político. Casar a sua sobrinha com o filho do Capitano del Popoloirá aumentar ainda mais o seu poder temporal sobre esta cidade, onde ainda há demasiados habitantes que se proclamam Ghibellines. Não me surpreenderia se o tio quisesse centralizar tanto o poder religioso como político sobre si próprio. Fica atenta, Lúcia, e não te deixes enganar nem pelo teu tio nem por esta jovem Andrea. Ela teria gostado de saber mais sobre Andrea, mesmo antes de se encontrar com ele na festa oficial. Quem sabe quando é que este evento teria tido lugar? Se o seu tio se tivesse exposto, ela poderia ter a certeza de que não demoraria muito até que ele o organizasse. Mergulhada nos seus pensamentos, atravessou o longo corredor que a levou de volta à ala do edifício onde vivia. No final do corredor desceu as escadas, encontrando-se no rés-do-chão, no corredor da porta da frente. Ela teria de subir as escadas à sua frente para chegar aos seus apartamentos. À sua direita, através de uma porta de madeira, tinha acesso aos estábulos. Marrocos, o seu garanhão favorito, sentiu a sua presença e queixou-se para saudar a rapariga, que se sentiu tentada a empurrar a porta apenas o suficiente para entrar e ir dar uma carícia ao corcel preto. Mas a sua atenção foi atraída para outra pequena porta de madeira, que levou ao calabouço do palácio. Normalmente essa porta estava aparafusada, mas nesse dia estava estranhamente entreaberta. A sua avó tinha-a avisado mais de uma vez para não se aventurar na masmorra. Lá em baixo havia um labirinto, no qual era fácil perder-se, representado pelas ruas e salas dos antigos edifícios romanos. De facto, todos os edifícios mais recentes assentavam as suas fundações em construções romanas antigas. A curiosidade de Lúcia era demasiado forte. Ela pensava que se esses recessos, que eram agora túneis, galerias e caves, tivessem sido outrora habitados, os espíritos dos antigos habitantes poderiam ter-lhe falado, contado as suas histórias, confiado os seus medos e sentimentos. Afinal de contas, o Palazzo Baldeschi estava no que no tempo dos romanos era a acrópole, o fórum, o centro comercial e político da cidade. Ali estavam os templos, ali estavam os banhos, um pouco mais adiante, onde agora se ergue o novíssimo Palácio do Governo, havia um enorme anfiteatro; mais perto, perto das muralhas da cidade ocidental, estava a grande cisterna para o abastecimento de água. Será ali em baixo escuro, pensou Lúcia. Vou precisar de uma fonte de luz. Entrou no estábulo e deu a Marrocos um pequeno presente, que reclamou a cenoura que a rapariga lhe trazia de presente. Lúcia arrancou-o do seu bolso e o animal foi rápido a tirá-lo suavemente dos seus lábios. Ela acariciou o cavalo na parte de trás do nariz, procurando com os olhos por uma lanterna. Ela viu-o, desengatou-o do prego ao qual estava preso, verificou que estava cheio de óleo, depois focou o seu olhar no pavio, que se incendiou em poucos momentos. Ele baixou a chama, saiu do celeiro e aventurou-se a descer as escadas desniveladas em direcção às entranhas da terra. Embora a terra fosse um dos elementos sobre os quais ele tinha controlo, ele tinha um pouco de medo nesse momento. Quase parecia que aquela escadaria nunca mais acabaria, tanto tempo foi assim. Mas talvez essa tenha sido apenas a impressão de Lúcia. Ela finalmente deixou o último passo com o pé. A humidade era forte lá em baixo, o suor da rapariga congelava nela, e o seu hálito condensava em pequenas nuvens de vapor. Ela levantou a chama da lanterna. Havia vários corredores, delimitados por antigas paredes de pedras e tijolos brutos. Uma, muito longa, perdeu-se na escuridão que se avizinhava. A sua avó tinha-lhe dito que havia uma longa passagem que podia ser utilizada durante os cercos, para atravessar as linhas inimigas e adquirir mantimentos para as pessoas sitiadas e armas para os defensores da cidade. Esta passagem acabou mesmo perto da residência rural da família Baldeschi, no início da estrada para Monsano, uma cidade situada a poucos léguas de Jesi, e aliada de longa data da nossa cidade. À sua direita, um túnel teria certamente conduzido em breve à cave da catedral, talvez até à cripta que albergava as relíquias de São Séptimius. O túnel à sua esquerda poderia tê-la conduzido à base da igreja de São Florian, bem como à antiga cisterna romana. Quem sabe se esta última ainda estava cheia de água, Lúcia interrogou-se. Decidiu dirigir-se para a sua direita, em direcção à cave da catedral, e logo se encontrou numa pequena capela quadrada. Quatro estátuas de mármore branco sem cabeça, como colunas, suportavam a abóbada transversal da capela. Muito provavelmente eram estátuas que outrora tinham agraciado os banhos romanos. Privadas das suas cabeças, que estavam empilhadas num canto escuro escondido, tinham sido utilizadas por aqueles que em tempos tinham desenhado a catedral, como colunas. No centro da capela, debaixo da abóbada apoiada por arcos góticos, um pequeno altar de pedra emoldurou um santuário contendo as relíquias do primeiro Bispo de Jesi, Septimius. O santo, como muitos dos cristãos da época, tinha sido martirizado a mando das autoridades romanas. O governador romano que governou a cidade de Jesi ordenou a sua decapitação, depois de Septimius ter convertido uma grande parte da população ao cristianismo, incluindo a filha do próprio governador. Septímio tinha sido considerado um perigoso inimigo do Império Romano e executado. Os ossos tinham sido roubados pelos primeiros cristãos para os salvar da profanação pelos pagãos, e escondidos tão bem que durante séculos ninguém sabia onde eles estavam. O santo foi decapitado em 304 e os seus restos mortais só foram encontrados após 1.165 anos na Alemanha. Por conseguinte, só tinham sido devolvidos àquele lugar de culto cerca de 50 anos antes.
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