Como a humanidade é estranha, disse Lúcia a si própria. O mesmo tratamento que os romanos reservaram aos primeiros cristãos, que foram perseguidos, parece agora ser reservado pela Igreja Católica para aqueles que não pensam como ela: aqueles que se desviam da doutrina oficial são marcados como hereges e podem acabar por ser mortos na praça pública. Bruxas, hereges, judeus... são julgados e queimados na fogueira, só porque têm a coragem de expressar as suas ideias e conhecimentos. Mah, agora a Igreja está a implicar com hereges, amanhã, no futuro, alguma outra facção irá assumir o controlo e talvez sejam os cristãos que serão novamente perseguidos. Porque não deve haver justiça neste mundo? Que Deus é este que permite tanta maldade no mundo, mas especialmente no coração do homem?
Ao seguir o curso dos seus pensamentos, uma ténue lâmina de luz gerada por um sol próximo do pôr-do-sol conseguiu filtrar através de uma pequena janela de mulhão, localizada no alto da abside da catedral acima, iluminando aquela área onde as cabeças das estátuas romanas estavam amontoadas. A atenção de Lúcia prolongou-se em alguns detalhes que ela não tinha sido capaz de notar antes, lá perto daquelas cabeças esculpidas em pedra tantos séculos antes. Uma espécie de pentagrama tinha sido desenhado no chão de terra, diferente daquele que estava habituado a ver desenhado na capa do diário. na capa do diário da família que lhe foi dado há muito tempo pela avó. O desenho parecia assimétrico, representando uma estrela de sete pontas feita através do desenho de uma linha contínua dentro de um círculo. Cada ponto da estrela intersectava um ponto na circunferência, em cada um dos quais havia escrita em caracteres hebraicos, cujo significado Lúcia não conhecia. Em cada um dos sete pontos, um vestígio de cera derretida era visível, deixado por uma vela que ali tinha sido acesa. No centro da figura estavam dois bonecos de trapo, feitos de palha, à volta dos quais tinham sido enroladas roupas em miniatura. Representavam uma mulher velha e uma rapariga: as roupas da mulher velha eram queimadas, enquanto a mulher jovem tinha um alfinete espetado no peito. Lúcia arfou, o seu coração bateu de forma selvagem, num instante ela tinha compreendido tudo. Foram aí realizados ritos de magia n***a, e as bonecas representavam-na e à sua avó. Era evidente que alguém queria vê-los sofrer, se não mortos. Quem? Quem poderá ser? Apenas uma pessoa poderia ter ido lá abaixo. A igreja acima estava agora fechada, proibida aos fiéis durante mais de um ano, pelo que a cripta não podia ser alcançada a partir da catedral. A passagem que ela tinha percorrido estava fechada por uma porta constantemente barrada, e apenas o seu tio, o Cardeal Artemio Baldeschi, Chefe Inquisidor, tinha a chave. É claro que já há demasiado tempo que as execuções tinham tido lugar em Jesi; a última estaca tinha sido acesa seis anos antes, aquela em que Lodomilla tinha perdido a sua vida. Agora o Cardeal tinha de saciar a sua sede, a sua luxúria pelas vítimas, o seu desejo de testemunhar o sofrimento e a morte directamente diante dos seus olhos, sob o seu olhar. Sim, porque ao contrário da maioria dos inquisidores que, uma vez pronunciada a sentença, entregaram a vítima ao braço secular da Lei, evitando testemunhar a tortura daqueles que tinham condenado, Artemio costumava assistir à execução, na fila da frente, levando por vezes a tocha na sua mão e incendiando a pilha. Ele parecia ter um prazer sádico em ver a sua vítima a contorcer-se nas chamas, continuou a olhar para ela até ao fim, e por uma razão precisa: para capturar a alma do condenado no preciso momento em que deixou o seu corpo mortal.
Incubada por estes reflexos, assustada com o que tinha visto, Lúcia agarrou a lanterna e correu pelas escadas, a sua mente ocupada por um medo. Encontraria ela a porta aberta novamente? E se o tio dela se tivesse lembrado que não o tinha trancado e que tinha voltado para o fechar? Ou e se ele o tivesse feito de propósito, para a induzir a ir lá abaixo e enterrá-la viva? Não, isso não teria sido suficiente para Artemio, ele tinha de ver o sofrimento da sua vítima no seu rosto, não teria sido como ele deixá-la morrer ali. Ele só queria assustá-la, e tinha conseguido. A pequena porta de madeira estava aberta, Lúcia saiu para o corredor, voltou a colocar a lanterna onde a tinha levado, nem sequer deu uma olhadela a Marrocos e correu para o ar livre, para a praça, com o coração ainda na garganta.
Era quase o pôr do sol num dia quente no final de Maio e a luz avermelhada do sol deu cores espectaculares à bela praça onde o Imperador Federico II da Suábia4 tinha nascido mais de três séculos antes. Ela disse a si própria que teria de investigar o significado dos símbolos encontrados na cripta do diário de família, naquele precioso manuscrito que a sua avó lhe tinha dado. Mas agora ela tinha de se acalmar, e decidiu dar uma volta pela cidade. Atravessou a praça para o lado oposto, virou à esquerda e desceu a Costa dei Longobardi para chegar à parte inferior da cidade, onde viviam comerciantes e artesãos. Os palácios eram menos suntuosos do que os da parte superior da cidade, mas foram no entanto enriquecidos com elementos decorativos, com portais finos e cornijas à volta das janelas. As fachadas eram quase todas embelezadas com gesso, pintadas em cores pastel, tais como azul claro, amarelo, ocre e laranja suave; raramente eram deixadas com cara de tijolo, como era o caso dos palácios do interior da cidade. Para lembrar que estas habitações tinham sido construídas graças ao dinheiro ganho por aqueles que lá viviam, inscrições como 'De sua pecunia' ou 'Suum lucro condita - Ingenio non sorte' apareceram frequentemente nos lintéis de portais ou janelas do primeiro andar. No final da Costa dei Longobardi, virando à direita, em breve se poderia chegar à igreja dedicada ao Apóstolo Pedro, que foi construída pela comunidade Lombarda que vive em Jesi na segunda metade do século X. “Principi Apostolorum – MCCLXXXXIIII”, pode-se ler acima do portal; a pessoa que tinha gravado a data tinha pouca memória de como os números eram escritos em latim, ou talvez nunca tivesse sabido, sendo um arquitecto de origem bizantina, já habituado a lidar com numerais árabes, que eram muito mais fáceis de memorizar. Em frente à igreja, o Palazzo dei Franciolini, recentemente concluído, era a residência do Capitano del Popolo, Guglielmo dei Franciolini. Também ele tinha feito a sua fortuna como mercador desde que, após a descoberta do Novo Mundo, tinham sido abertos novos canais comerciais e muitos bens novos tinham também chegado a Jesi. Aqueles que podiam ter aproveitado, e que tinham conseguido acumular uma riqueza considerável num curto espaço de tempo. Lúcia permaneceu sobre o rico portal do palácio, limitado por duas colunas e alguns azulejos quadrados de grés, decorados com representações de deuses e símbolos da época romana. Muito provavelmente, ao escavar as fundações da casa, foram encontrados elementos decorativos de uma casa de algum patrício romano, e estes tinham sido reutilizados para embelezar o portal. Lúcia reconheceu o Deus Pan, Bacchus, a Deusa Diana, e depois os lírios de três pontas… e uma estrela de seis pontas formada por dois triângulos cruzados - estranho, não era esse o símbolo dos judeus? - e novamente uma estrela de cinco pontas, um pentáculo5, e... um desenho de sete pontas inscrito num círculo, semelhante em todos os sentidos ao que tinha visto anteriormente na cripta. Estes últimos desenhos não podiam remontar à época romana e, de facto, olhando cuidadosamente para os azulejos em que eram feitos, podia-se ver que estes eram de um desenho diferente, mais recente do que os outros, talvez feitos com o propósito de decorar o portal. Mas qual foi o significado de tudo isto? Nessa pequena praça, o sagrado coexistiu com o profano: por um lado, a igreja dedicada ao principal dos apóstolos, a Pedro, o primeiro papa na história do cristianismo, e por outro, figuras e símbolos pagãos que poderiam acusar o anfitrião de ser um herege. No entanto, o tio Cardeal estava em boas condições com Francio-lini, ele até lhe tinha proposto o seu filho como futuro marido! Quanto mais ela olhava para esses símbolos, mais Lúcia pensava que havia algo de mágico no local. Talvez esse palácio tivesse sido construído sobre as ruínas de um templo pagão, e tivesse mantido as suas peculiaridades. Ele tentou concentrar-se, para abrir o seu terceiro olho à clarividência, invocou o seu espírito, para o fazer pairar acima e escanear elementos que de outra forma não teria visto. Já nas suas mãos em forma de copo, a colorida bola semi-fluida estava a materializar-se, quando o portão do palácio se abriu subitamente, revelando na meia-luz um jovem com uma ligeira armadura de batalha, montado num poderoso corcel, que por sua vez foi aproveitado à cabeça para o proteger de quaisquer golpes que pudessem ser dados por espadas e lanças.
O cavaleiro segurava a bandeira da República Jesina na sua mão direita, representando o leão desenfreado adornado com a coroa real. Assim que o portão foi totalmente aberto, ele estimulou o seu cavalo lá fora, quase atropelando a Lúcia que ali estava de pé. A rapariga assustada distraiu-se, e a esfera desapareceu imediatamente. O cavalo, confrontado com o obstáculo inesperado, levantou-se, chutando as suas patas dianteiras para o ar. Lúcia ouviu um casco a uma distância muito curta do seu rosto, mas não entrou em pânico e fixou o seu olhar nos olhos azuis-marinhos do cavaleiro, que tinha a viseira do seu capacete levantada. Por um momento ele perdeu-se naqueles olhos, o cavalo acalmou-se e o cavaleiro voltou o seu olhar para a donzela, olhando por sua vez para os olhos da aveleira. Houve um momento de calma, de silêncio total, o encontro dos dois olhares parecia ter parado o tempo.
Quem era aquele belo cavaleiro, pronto para uma hipotética batalha em defesa da sua cidade? Foi talvez a Andrea? Se assim fosse, ela deveria ter ficado grata ao seu tio mau! Mas talvez Franciolini tenha tido outros filhos. Ela não teve tempo de abrir a boca, porque após alguns momentos, os sinos da igreja de San Pietro começaram a tocar, e aos poucos foram-se-lhes juntando os da igreja de San Bernardo, depois os de San Benedetto, e finalmente os de San Floriano. Lançando um último olhar sobre a Lúcia, o cavaleiro voltou a impulsionar o seu cavalo, chegando à vizinha Piazza del Palio, o enorme espaço aberto dentro das paredes, dominado pelo Torrione di Mezzogiorno. Em pouco tempo, outros cavaleiros de armas agruparam-se em torno do homem que segurava a bandeira, depois chegaram pessoas a pé, armadas com bestas, punhais e qualquer outra arma que pudesse ser usada contra o inimigo.
«O povo de Ancona está a atacar-nos!» gritou o nobre Franciolini. «Os nossos vigias viram-nos do Torrione del Montirozzo. Hoje, 30 de Maio de 1517, preparamo-nos para defender as muralhas da nossa cidade».
Todos os portões estavam fechados, a maioria dos homens a pé arranjaram-se nos terraços, enquanto os cavaleiros lotaram a praça dentro de Porta Valle, prontos para se separarem contra o inimigo.
Mas para aquela noite, o exército de Ancona, liderado pelo Duque Berengario di Montacuto, não se aproximou de Jesi, mas permaneceu acampado mais abaixo no vale, a algumas léguas da cidade de Monsano, meio escondido no mato ribeirinho perto do rio Esino.
Durante alguns dias, o alerta permaneceu. Ao anoitecer, os escólexes chegaram às muralhas, para reforçar a guarda normalmente atribuída a alguns vigias, e das paredes ressoava o chamamento de uma canção que a população não ouvia há vários anos:
Tocar a trombeta que já o dia tinha acabado,
já do toque de recolher a canção subiu!
Para cima, sentinelas, para os guardas armados
das torres, olà,
Vigia silenciosamente!
O Capitano del Popolo tinha imposto um recolher obrigatório aos cidadãos. Às nove horas da noite, qualquer pessoa que não entrasse nas muralhas das paredes tinha de se retirar estritamente dentro de casa. Mas a guarda iria em breve ser baixada. Estava prevista uma festa para a noite de 3 de Junho no Palazzo Baldeschi, onde seria anunciado o compromisso da sobrinha do Cardeal, Lúcia, com o cadete da casa de Franciolini. Naqueles dias, cada vez que Lúcia encontrava os olhos do seu tio, embora não conseguisse ler os seus pensamentos, via apenas uma palavra desenhada no seu rosto: “traição”. Mas ela não conseguia compreender que interpretação dar a essa palavra, ao mesmo tempo tão simples e tão complexa.