O sino acima da porta tocou assim que cheguei, anunciando mais um dia exatamente igual — e, ainda assim, necessário. A cafeteria já tinha o cheiro familiar de café recém-passado e pão quente, aquele tipo de aroma que conforta as pessoas sem fazer perguntas. Para mim, era apenas mais um lembrete de que eu tinha um lugar. Pequeno, simples, mas meu.
Faz exatamente um ano e meio que trabalho aqui. Um ano e meio desde que deixei o orfanato no dia em que completei dezoito anos, com uma mochila nas costas, alguns trocados no bolso e uma promessa silenciosa de que não voltaria. Consegui este emprego poucos dias depois, mais por insistência do que por sorte. Desde então, tenho cumprido horários, decorado pedidos e aprendido a sorrir mesmo quando não sinto vontade.
Coloquei o avental, prendi o cabelo outra vez e liguei a máquina de café. O som do vapor enchendo o ar era quase terapêutico. Logo os primeiros clientes começaram a entrar — rostos conhecidos, pedidos repetidos, rotinas que se encaixavam perfeitamente naquela manhã.
— Bom dia — eu dizia, automaticamente, enquanto anotava pedidos e passava troco.
Alguns sorriam de volta, outros m*l levantavam os olhos do celular. Havia quem viesse todos os dias, quem contasse pedaços da própria vida entre um gole e outro, como se aquela bancada fosse um confessionário improvisado. Eu escutava. Sempre escutei bem. No orfanato, ouvir era uma forma de existir sem incomodar.
Preparei cafés, servi doces, limpei mesas. Meus movimentos eram precisos, quase mecânicos, mas minha mente nunca ficava completamente ali. Às vezes eu observava as pessoas e me perguntava como seria ter alguém esperando por mim do outro lado do balcão. Alguém que soubesse exatamente como gosto do café ou que percebesse quando meus olhos estão cansados demais.
Mas pensamentos assim não pagam contas.
Uma cliente reclamou que o café estava frio. Pedi desculpas, refiz o pedido, entreguei com um sorriso treinado. Aprendi cedo que engolir palavras também é uma habilidade de sobrevivência. E eu sobrevivi a muita coisa antes mesmo de aprender meu próprio sobrenome.
Quando o movimento diminuiu por alguns minutos, apoiei as mãos no balcão e respirei fundo. Eu tinha saído do orfanato sem garantias, sem promessas, sem ninguém para me dizer que tudo ficaria bem. E, ainda assim, eu estava ali. Em pé. Trabalhando. Existindo.
Talvez não fosse a vida que eu sonhei — porque sonhar nunca foi algo que me ensinaram — mas era a vida que eu construía dia após dia, xícara por xícara, cliente por cliente.
E eu não fazia ideia de que aquele turno, aparentemente comum, estava prestes a mudar
O relógio atrás do balcão marcava quase o horário de fechar quando comecei a limpar a máquina de café. O movimento tinha diminuído, restavam apenas algumas mesas vazias e o cansaço se acumulando nos ombros. Eu já pensava no caminho de volta para casa quando o sino da porta tocou.
Levantei o olhar por reflexo e ele entrou primeiro.
Alto demais para passar despercebido, o corpo forte preenchendo o espaço como se a cafeteria tivesse encolhido de repente. A pele morena contrastava com o terno escuro perfeitamente ajustado, e o cabelo longo, caindo até os ombros, dava a ele um ar perigosamente indomável. Mas foram os olhos que me prenderam. Negros. Profundos. Impenetráveis. Um tipo de olhar que não pede — toma.
Atrás dele, dois homens entraram logo em seguida. Silenciosos. Atentos. Claramente não estavam ali por acaso.
Meu coração bateu mais forte, um aviso tardio ecoando no peito. Aquilo não era comum. Não naquele lugar. Não naquele horário.
— Estamos fechando em alguns minutos — avisei, a voz mais firme do que eu me sentia, enquanto ele se aproximava do balcão.
Ele parou a poucos passos de mim. Perto o suficiente para que eu sentisse sua presença como uma pressão invisível no ar. Não sorriu. Não respondeu de imediato. Apenas me observou, como se estivesse avaliando algo que já lhe pertencia.
— Um café — disse, finalmente. A voz era baixa, controlada… perigosa. — Forte.
Assenti, mesmo sem saber por quê. Talvez porque aquele olhar não aceitasse negativas. Enquanto me virava para preparar o pedido, senti seus olhos em mim — atentos demais, intensos demais. Era o mesmo tipo de sensação que eu tinha quando criança, no orfanato, quando sabia que algo estava prestes a mudar e não havia para onde correr.
Coloquei a xícara sobre o balcão com cuidado, empurrando-a na direção dele.
— Aqui está.
Os dedos dele tocaram os meus por um segundo a mais do que o necessário. Foi breve, mas suficiente para acender algo que eu não estava preparada para sentir. Um arrepio percorreu minha espinha, e eu puxei a mão instintivamente.
— Obrigado — murmurou, sem desviar o olhar.
Atrás dele, os outros dois homens observavam em silêncio, como sombras. Meu estômago se revirou. Eu não sabia quem ele era, nem o que fazia ali. Só sabia que aquela presença não passaria despercebida na minha vida.