PRÓLOGO

532 Words
Prólogo 22:30pm 𝑛𝑜 𝑑𝑒𝑐𝑜𝑟𝑟𝑒𝑟 A primeira coisa que aprendi sobre ele foi que alguns olhares não pedem licença. Eles invadem. Ficam. Marcam. O quarto estava mergulhado em sombras quando senti aquela presença — densa, silenciosa, impossível de ignorar. O ar parecia mais pesado, como se algo prestes a acontecer tivesse prendido a respiração do mundo. Eu deveria ter ido embora. Sabia disso. Mas havia uma estranha segurança em permanecer à beira do perigo, onde o coração acelera e o desejo sussurra mentiras convincentes. Existem encontros que não são acidentes. São avisos. E, ainda assim, a gente escolhe ignorá-los. Quando nossos caminhos se cruzaram naquela noite, entendi que algumas histórias começam muito antes do primeiro toque. Começam no silêncio carregado, na distância que queima, na vontade contida que ameaça transbordar a qualquer segundo. Ele não disse meu nome, mas soube exatamente quem eu era. E eu senti — com uma clareza assustadora — que aquela conexão custaria caro. O problema nunca foi o que ele poderia fazer comigo. Era o que eu estava disposta a fazer por ele. Naquele instante, entre sombras e promessas não ditas, percebi que já era tarde demais para fingir indiferença. Algumas escolhas selam destinos. Algumas pessoas chegam para virar tudo do avesso. E algumas histórias nascem condenadas a doer… justamente porque também sabem arder. E mesmo assim, eu fiquei. 𝐝𝐢𝐚𝐬 𝐚𝐭𝐮𝐚𝐢𝐬 Acordei antes do despertador tocar. Sempre acordo. O silêncio pesa mais quando se vive sozinha, e o hábito de vigiar o tempo nunca me abandonou desde os dias em que dividir um quarto significava dividir também sonhos quebrados e medos emprestados. Sentei na beira da cama, passando a mão pelo rosto, tentando afastar o cansaço que não vinha apenas da falta de sono. A cama ainda guardava o calor do meu corpo, mas não havia ninguém para reclamar do espaço vazio ao lado. Nunca houve. E talvez seja por isso que eu tenha aprendido tão cedo a não criar expectativas demais. Levantei-me devagar e caminhei até o pequeno espelho encostado na parede. A mulher que me encarava tinha olhos atentos demais para alguém da minha idade. Olhos de quem cresceu aprendendo a observar, a esperar, a sobreviver. No orfanato da região vizinha, aprendi que apego era um luxo e que ficar era sempre temporário. Tomei um banho rápido, como fazia desde criança — água quente demais, como se pudesse apagar marcas que não aparecem na pele. Vesti a roupa de trabalho sem pensar muito, peças simples, funcionais. Nada chamativo. Invisibilidade também é uma forma de proteção. Enquanto prendia o cabelo, minha mente insistia em voltar para aquele prédio antigo, paredes descascadas e vozes que iam embora com o tempo. O orfanato não me ensinou a sonhar grande, mas me ensinou a levantar todos os dias, mesmo quando não havia ninguém esperando por mim. Peguei a bolsa, respirei fundo e encarei a porta por alguns segundos antes de sair. Trabalhar nunca foi apenas uma necessidade — era a prova silenciosa de que eu tinha conseguido chegar até ali sozinha. Sem pais, sem heranças, sem ninguém para me segurar se eu caísse. E, ainda assim, eu seguia em frente. Porque sobreviver sempre foi o que eu fiz de melhor.
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