As últimas duas semanas passaram como um borrão. Desde que vi os resultados dos exames, minha mente não teve um segundo de descanso.
Eu estava grávida.
Repeti essa frase incontáveis vezes, tentando absorver o peso daquelas palavras.
Eu, Elizabeth Soares, grávida de um homem que conheci por apenas uma noite.
O médico confirmou que a gestação estava no início, mas tudo seguia dentro do esperado. Oficial. Inevitável.
E agora?
Essa pergunta martelava na minha mente sem parar. Meu primeiro instinto foi me fechar, processar tudo sozinha. Procurar Kai não fazia sentido. O que ele poderia fazer? Ficar? Assumir um papel na vida do bebê? E se ele simplesmente não quisesse?
O medo da rejeição era forte. Mas algo ainda mais inquietante me atormentava.
Nos últimos dias, uma sensação estranha tomou conta de mim. Algo invisível, inexplicável. No silêncio do meu apartamento, sentia arrepios, como se estivesse sendo observada. À noite, sonhava com florestas densas, sombras em movimento, uivos distantes. E toda vez que despertava desses sonhos, minha mão pousava instintivamente sobre o ventre.
Eu não sabia o que estava acontecendo.
Mas sentia que não estava passando por isso sozinha.
***
Meu dedo pairava sobre o contato de Kai na tela do celular.
Digitei o número várias vezes, mas nunca tive coragem de apertar o botão de ligar.
E se ele reagisse m*l? E se achasse que eu queria prendê-lo a algo que ele nunca quis?
Suspirei e larguei o telefone no sofá.
Talvez fosse melhor esperar mais um pouco. Organizar meus pensamentos.
Mas, no fundo, eu sabia que só estava adiando o inevitável.
A conexão que eu sentia não ia desaparecer.
E, de alguma forma, eu sabia que ele também estava sentindo isso.
***
O dia transcorria normalmente até que um arrepio percorreu minha espinha.
Forte. Intenso. Precisei parar o que estava fazendo e respirar fundo.
Algo estava errado.
Ou… algo estava prestes a acontecer.
Tentei ignorar, mas a sensação persistiu.
Então, meu celular vibrou.
Número desconhecido.
Meu coração disparou.
Atendi hesitante.
— Elizabeth?
A voz dele.
Minha garganta secou.
— Kai? Como conseguiu meu número?
— Isso não importa agora. Precisamos conversar.
Meu coração martelava.
— Sobre o quê?
Silêncio.
Então, ele disse a única coisa capaz de me deixar sem chão.
— Sobre o nosso filho.
Meu mundo parou.
Eu não tinha contado para ninguém.
— Como você sabe? — Minha voz saiu quase num sussurro.
— Eu apenas sei.
Fechei os olhos. Um misto de alívio e pavor tomou conta de mim.
Ele sabia.
E agora, não havia mais como fugir.
***
Ouvi sua respiração firme do outro lado da linha.
— Me encontre hoje. Onde quer que esteja, eu vou até você.
Eu hesitei.
— Eu… não sei se estou pronta para isso.
Senti um arrepio, como se algo dentro de mim soubesse que negar não seria uma opção.
— Café Miró. Daqui a uma hora.
Minha voz soou mais firme do que eu esperava.
E, naquele instante, percebi que o destino estava me empurrando para esse encontro, quer eu quisesse ou não.
***
O cheiro de café fresco e pão recém-saído do forno me envolveu assim que entrei no Café Miró. Era um dos meus lugares favoritos—pequeno, aconchegante, com luzes amareladas que traziam uma sensação de calor, mesmo nos dias mais frios.
Olhei ao redor, meu estômago se revirando quando o vi.
Kai já estava lá, sentado em uma mesa no canto. Parecia relaxado, mas havia uma tensão sutil nele, como um fio esticado prestes a se romper. Seu olhar encontrou o meu de imediato, como se soubesse exatamente o momento em que eu chegaria.
Engoli em seco e caminhei até ele.
— Oi. — Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava.
Ele não respondeu de imediato. Apenas me observou por um longo instante antes de acenar com a cabeça para a cadeira à sua frente. Sentei-me e, no mesmo momento, uma garçonete apareceu para anotar meu pedido.
— Um chá de camomila, por favor.
Minha voz ainda carregava hesitação.
Kai esperou até que a garçonete se afastasse antes de falar:
— Você está bem?
Uma pergunta simples, mas que me pegou de surpresa. Cruzei as mãos sobre a mesa, tentando manter a compostura.
— Acho que sim. Quer dizer… considerando tudo. — Soltei uma risada nervosa. — E você?
Seus olhos escuros brilharam por um instante.
— Eu estou aqui, não estou?
Ele se recostou na cadeira, mas sua atenção permaneceu fixa em mim. Seu olhar era intenso, como se estivesse buscando respostas antes mesmo que eu falasse.
— Preciso que você me diga. É verdade?
Soltei o ar devagar e levei a mão ao ventre, como se precisasse confirmar a resposta antes de dizê-la em voz alta.
— Sim. Eu estou grávida. Doze semanas.
Kai fechou os olhos por um instante. Quando os abriu de novo, algo havia mudado. Não era apenas surpresa. Era certeza. Como se, de alguma forma, ele já soubesse, mas precisasse ouvir de mim para tornar aquilo real.
A garçonete voltou com meu chá, e eu segurei a xícara quente entre as mãos. Precisava de algo físico, algo que me ancorasse àquele momento.
— Quando pretendia me contar?
Engoli em seco.
— Eu… não ia. — Minha voz quase se perdeu entre nós. — Não queria que achasse que precisa assumir a criança por obrigação. Foi só uma única noite e… estávamos bêbados.
Kai ficou em silêncio por um instante, apenas me observando. Então, inclinou-se para frente, apoiando os antebraços sobre a mesa.
— Obrigação?
Sua voz era baixa, mas carregava algo intenso, algo que fez minha pele se arrepiar.
— Minha espécie não abandona seus filhotes, Lis. Mesmo que você nunca contasse… eu saberia.
Meus dedos apertaram a xícara com mais força.
— Como poderia saber? — Perguntei hesitante.
— Lobisomens criam um vínculo com seu filhote. Eu não preciso de um exame para saber que o bebê dentro de você é meu.
Meu coração acelerou. Algo dentro de mim dizia que ele estava falando a verdade, mesmo que a lógica gritasse que aquilo era impossível.
— O que isso significa? — sussurrei, sentindo um nó na garganta.
Kai manteve os olhos presos aos meus. Lentamente, um sorriso surgiu em seus lábios. Um sorriso que não era apenas tranquilizador, mas carregava algo mais profundo… algo primitivo.
— Significa que você não vai passar por isso sozinha.
***
O vapor do chá subia lentamente, mas minhas mãos ainda estavam frias. Eu não sabia se era o nervosismo ou simplesmente o peso daquele momento.
Kai não desviou o olhar de mim. Eu sentia sua presença de uma forma estranha—quase física—como se houvesse algo invisível entre nós, algo que me puxava para ele.
— Então… — minha voz soou hesitante. — O que exatamente isso significa para você?
— Significa que eu vou estar aqui. — Sua resposta veio rápida, firme, como se não houvesse outra possibilidade. — Não importa como tudo isso aconteceu, esse bebê é meu tanto quanto seu.
Meu estômago se revirou. Parte de mim queria acreditar nisso, queria me agarrar à ideia de que eu não estava sozinha. Mas outra parte… aquela que sempre se preparou para o pior, me alertava que as coisas raramente eram tão simples.
— Você fala isso agora. — Cruzei os braços, desviando o olhar para a rua além da janela. — Mas e quando isso se tornar real? Quando o bebê nascer e sua vida mudar completamente?
— Você acha que isso não é real para mim agora? — A intensidade na voz dele me fez voltar a encará-lo. Seus olhos escuros estavam fixos nos meus, carregados de algo que eu não conseguia decifrar. — Desde que percebi que você estava grávida, não penso em outra coisa. Isso já é real, Lis.
Engoli em seco. O jeito como ele falava… Era como se não houvesse espaço para dúvidas. Como se ele tivesse aceitado essa realidade antes mesmo de mim.
— E se eu disser que não espero nada de você?
— E se eu disser que isso não muda nada? — Sua resposta foi rápida.
Eu o encarei, tentando entender o que se passava na cabeça dele.
— Você não me conhece, Kai. Nós tivemos uma única noite juntos.
— E mesmo assim, estou aqui. — Ele inclinou-se ligeiramente para frente, apoiando os cotovelos sobre a mesa. — Não vou a lugar nenhum, Lis.
Eu queria acreditar. Queria aceitar o que ele dizia sem hesitação. Mas não era tão simples.
Soltei um suspiro longo e tomei um gole do chá.
— Eu ainda estou tentando entender tudo isso. — Admiti. — Minha vida virou de cabeça para baixo em semanas.
— Eu sei.
Houve algo na maneira como ele disse isso, algo gentil, quase protetor. Como se ele realmente entendesse o que eu estava passando.
— Você já contou para mais alguém? — ele perguntou.
Neguei com a cabeça.
— Só O médico.
Kai assentiu devagar, absorvendo a informação.
— Quer que eu esteja lá quando contar para sua família?
A pergunta me pegou de surpresa.
— Eu… ainda não sei como contar para eles.
— Quando estiver pronta, se quiser, eu estarei lá.
Meu coração deu um pequeno salto estranho dentro do peito. Eu não esperava isso. Não esperava que ele quisesse fazer parte disso dessa maneira.
Abaixei o olhar para minha xícara, brincando com a alça entre os dedos.
— Você realmente quer estar envolvido nisso?
Kai soltou um riso baixo, sem humor.
— Lis, eu não tenho escolha.
Levantei o olhar para ele, confusa.
— O que quer dizer?
Ele me estudou por um instante antes de responder.
— Quero dizer que isso não é algo que eu possa simplesmente ignorar. O bebê… nosso bebê… já é parte de mim. Eu sinto isso.
Uma onda de calafrios subiu por minha espinha.
Havia algo no jeito como ele falava que me deixava inquieta. Como se, de alguma forma, ele realmente soubesse. Como se pudesse sentir o bebê da mesma forma que eu.
— Eu não entendo.
— Você não precisa entender agora. — Ele passou a mão pelos cabelos, como se tentasse se controlar. — Mas precisa saber que eu não vou desaparecer.
Fiquei em silêncio por um momento, absorvendo suas palavras.
— Certo.
Kai ergueu uma sobrancelha.
— Certo?
— Certo. — Respirei fundo. — Você quer estar aqui? Então está.
Ele assentiu, como se tivesse acabado de ganhar alguma pequena batalha.
— Eu quero levá-la para casa.
Pisquei, surpresa.
— O quê?
— Está tarde. Quero garantir que você chegue bem.
— Kai, eu consigo me virar sozinha.
— Eu sei que consegue. — Ele me olhou de um jeito que fez minha pele esquentar. — Mas não quero que faça isso sozinha.
Algo dentro de mim hesitou. Não porque eu não pudesse ir sozinha—mas porque, no fundo, parte de mim queria aceitar.
Mordi o lábio, ponderando.
— Certo. Mas só porque não quero pegar ônibus essa hora.
— O que for necessário para você aceitar. — Um meio sorriso surgiu em seu rosto, e eu balancei a cabeça.
Levantei-me, pegando minha bolsa. Kai fez o mesmo, e juntos caminhamos até a saída do café.
O ar da noite estava fresco, e um arrepio percorreu meus braços. Sem dizer nada, ele tirou o casaco e colocou sobre meus ombros.
— Você não precisa… — comecei, mas ele apenas balançou a cabeça.
— Apenas aceite, Lis.
Engoli as palavras que ia dizer e apenas segurei o casaco fechando-o ao redor de mim.