A luz do sol filtrava suavemente pelas cortinas, lançando sombras dançantes sobre o quarto. Pisquei lentamente, lutando contra o peso do sono e a ressaca que pulsava em minha cabeça. Cada batida era um lembrete insistente da noite anterior, uma noite que parecia um borrão de música, risos e toques.
Ao abrir os olhos completamente, a realidade me atingiu como uma onda fria. Eu estava deitada em uma cama estranha, os lençóis cheirando a uma combinação de colônia masculina e algo inconfundivelmente familiar. Meu coração deu um salto ao perceber que não estava sozinha. Ao meu lado, ele estava dormindo – Kai, o homem que eu m*l conhecia, mas com quem havia compartilhado uma noite inesquecível.
Por alguns instantes, apenas o observei. Seu rosto estava relaxado em um sono profundo, os cabelos escuros espalhados pelo travesseiro. Ele parecia tão tranquilo, tão alheio ao caos que crescia dentro de mim. Eu não sabia como me sentia em relação a ele, ou ao que havíamos feito. Tudo o que sabia era que precisava sair dali.
Com cuidado, comecei a me mover, tentando não fazer barulho. Meu corpo protestava a cada movimento, os efeitos do álcool ainda presentes em minhas veias. A cabeça latejava, e senti um gosto amargo na boca, lembranças tangíveis de uma noite de indulgência.
Levantei-me da cama, meus pés encontrando o chão frio. A sala estava em silêncio, exceto pelo som suave de sua respiração.
Vasculhei o quarto, procurando minhas roupas espalhadas pelo chão. A sensação de estar exposta, vulnerável, me fez apressar o processo.
Vesti-me rapidamente, tentando ignorar o turbilhão de emoções que ameaçava transbordar. Parte de mim queria acordá-lo e prolongar a noite. Mas a outra parte, a mais forte, gritava para que eu fugisse, para que deixasse aquela noite como uma lembrança efêmera, um segredo entre nós.
“Liz,” — Sofia sempre dizia, — “às vezes é melhor deixar o passado onde ele pertence.”
E então, sem olhar para trás, saí do quarto, cuidando para que a porta não fizesse barulho ao fechar. O corredor estava vazio, e cada passo ecoava como um lembrete de que eu estava cruzando uma linha invisível entre o que havia sido e o que agora era.
Mas minutos antes de sair do apartamento os meus olhos foram para um pequeno cartão de visita preto que estava no chão e ao ler o sobrenome nele, uma verdade aterrorizante se fixou em minha mente.
Eu havia passado a noite com um Alfa, é não era um Alfa qualquer, mas sim o Rei deles.
Quando finalmente cheguei à rua, inspirei profundamente o ar fresco da manhã. O mundo parecia continuar como sempre, indiferente ao que eu sentia. Enquanto caminhava lentamente pelas ruas ainda adormecidas da cidade, a brisa fria da manhã me ajudava a clarear a mente. Eu precisava de café, de um banho, e de um momento para processar tudo.
Os dias que se seguiram foram um borrão de rotinas. Voltei ao trabalho, mergulhando em meus projetos de design de interiores, tentando encontrar consolo na familiaridade dos materiais, cores e texturas. Meus colegas notaram minha distração, mas eu me escondi atrás dos prazos e das reuniões. Minhas amigas, sempre presentes, tentavam animar-me com histórias e risadas, mas algo dentro de mim estava diferente.
Comecei a sentir uma estranha fadiga, uma exaustão que não fazia sentido. Acordava de manhã com uma leve tontura, atribuindo-a ao estresse e à falta de sono. Pequenos sinais que, em retrospecto, deveriam ter me alertado para algo mais. Mas, na correria do cotidiano, eles passaram despercebidos.
— Você está bem, Liz? — perguntou Marina em uma tarde, enquanto tomávamos café em nossa cafeteria favorita.
— Sim, só estou um pouco cansada, — respondi, tentando soar convincente. A verdade era que eu estava começando a acreditar na minha própria mentira, ignorando o que meu corpo tentava me dizer.
— Tem certeza? Você parece diferente ultimamente, — ela insistiu, seu olhar preocupado.
— É só o trabalho, — eu disse, acenando com a mão como se isso bastasse para afastar suas preocupações.
Mas a verdade era que eu não sabia o que estava acontecendo comigo. Havia uma inquietação crescente, uma sensação de que algo estava prestes a mudar. As manhãs eram as piores, com aquela persistente náusea que eu atribuía a alguma comida r**m ou ao café forte demais.
Enquanto os dias se transformavam em semanas, comecei a notar outras mudanças. Meu apetite, normalmente robusto, oscilava entre a fome voraz e a completa indiferença. Pequenos cheiros, como o perfume de alguém no metrô ou o aroma de pão fresco, provocavam reações inesperadas em meu estômago.
— Liz, você realmente tem que cuidar de si mesma, — Sofia aconselhou um dia, enquanto caminhávamos pelo parque. — Não é normal você estar tão esgotada.
— Eu sei, — murmurei, tentando ignorar o crescente desconforto. — Talvez eu devesse marcar uma consulta médica.
Mas a vida continuava a conspirar para me distrair daquilo que meu corpo tentava me dizer. Projetos urgentes no trabalho, compromissos sociais, tudo parecia exigir minha atenção imediata. A ideia de enfrentar o que eu estava sentindo parecia um luxo que eu não podia me permitir.
Até que, em uma manhã particularmente difícil, o inevitável aconteceu. Acordei com uma sensação de vertigem que me derrubou de volta na cama. Meu coração estava disparado, e uma onda de náusea tomou conta de mim, forçando-me a correr para o banheiro.
Enquanto me ajoelhava no chão frio, a verdade começou a se cristalizar em minha mente. As pistas estavam todas lá, e eu as havia ignorado. O medo e a incredulidade lutavam dentro de mim enquanto eu tentava processar a possibilidade que se tornava cada vez mais real.
Era como se, de repente, todas as peças de um quebra-cabeça caíssem no lugar, revelando uma imagem que eu não estava pronta para ver. E, naquele momento, soube que precisava enfrentar a realidade que eu temia.
Horas mais tarde, enquanto olhava para o reflexo no espelho do banheiro, uma mulher que parecia ao mesmo tempo familiar e estranha me encarava. Eu estava à beira de uma mudança monumental, e não sabia como lidar com isso.
A dúvida e a ansiedade tomaram conta de mim, mas havia uma decisão que não poderia mais ser adiada. Eu precisava descobrir a verdade, por mais assustadora que ela pudesse ser.
E assim, com uma mistura de medo e determinação, fui em busca de respostas, sem saber que cada passo me levaria mais perto de um futuro que eu nunca havia imaginado. Um futuro onde as escolhas que eu faria seriam definidas por aquele momento naquela manhã ensolarada.
Decidi que era hora de procurar ajuda médica. Liguei para minha clínica de saúde e marquei uma consulta para o dia seguinte. A espera parecia interminável, e a ansiedade crescia a cada hora que passava. Tentei me distrair com trabalho e conversas com amigos, mas não conseguia afastar a sensação de que minha vida estava prestes a mudar irrevogavelmente.
Na noite anterior à consulta, deitei na cama, olhando para o teto do quarto. Os pensamentos giravam em minha mente, uma mistura de medo e esperança. E se eu estivesse realmente grávida? O que significaria para minha vida, para meu futuro? E, acima de tudo, como lidar com a possibilidade de ser mãe de um filho híbrido, fruto de uma noite com um lobisomem?
Finalmente, o cansaço me venceu, e adormeci. Meus sonhos foram povoados por imagens de um futuro incerto, onde um pequeno ser, parte de mim e parte dele, me olhava com olhos cheios de promessas e desafios.
Na manhã seguinte, acordei com uma determinação renovada. Eu precisava saber a verdade. Ao me arrumar para a consulta, senti uma calma estranha me tomar, como se uma parte de mim já soubesse o que estava por vir.
Quando entrei na clínica, o cheiro característico de desinfetante e o som suave de conversas me acolheram. A espera na sala de espera parecia eterna, mas finalmente meu nome foi chamado, e eu segui a enfermeira até a sala de exames.
O médico, um homem com expressão gentil, ouviu pacientemente enquanto eu explicava meus sintomas. Ele fez algumas perguntas, e então, com um sorriso encorajador, disse que realizaria alguns exames para confirmar o que já suspeitávamos.
O tempo que levou para obter os resultados foi uma eternidade. Senti meu coração bater descompassado enquanto esperava, cada minuto se arrastando como uma eternidade. Finalmente, o médico voltou, segurando os resultados em mãos.
— Elizabeth, — ele começou, com uma expressão que misturava profissionalismo e empatia, — os resultados confirmam que você está grávida.
As palavras dele ecoaram na sala, cada sílaba carregada de um peso que eu não estava preparada para suportar. Grávida. A confirmação trouxe uma onda de emoções que ameaçou me sobrecarregar — medo, alegria, incerteza.
— Sei que isso pode ser um choque, — o médico continuou, — mas estamos aqui para apoiar você em cada passo do caminho.
Assenti, incapaz de encontrar minha voz. Minha mente estava em turbilhão, mas uma parte de mim, uma parte que eu não havia reconhecido até agora, começou a aceitar o que isso significava. Eu seria mãe. E, com isso, veio uma sensação de propósito e responsabilidade que nunca havia sentido antes.
Enquanto saía da clínica, o sol brilhava intensamente, uma promessa de novos começos.
Eu sabia que o caminho à frente seria cheio de desafios e decisões difíceis, mas estava pronta para enfrentá-los, um passo de cada vez.
A minha vida nunca mais seria a mesma, e tudo bem.
Porque agora, havia um novo começo à vista, uma nova vida que prometia ser tão complicada quanto maravilhosa.