De vez em quando, ele olhava para mim, como se estivesse tentando decifrar um mapa antigo.
E eu juro que vi a cabeça dele trabalhando:
“Se ela fosse como as turistas… já tinha me arrastado para o quarto. Por que ela não faz nada? Por que ela foge? Por que quero que ela não fuja?”
Eu também tinha minhas próprias perguntas existenciais:
“Isso é seguro? Não. É sensato? Jamais. Eu tô gostando? DEUS ME LIVRE… mas ao mesmo tempo sim.”
Quando terminamos de fechar o último, eu tinha certeza de uma coisa:
Se aquele homem continuasse respirando tão perto de mim, eu ia ter que chamar um paramédico… e não por causa da alergia ao queijo.
Quando organizamos a cozinha e deixamos os Börek alinhadinhos, prontos para assar de manhã, o silêncio caiu como uma cortina.
E aí… pronto.
Aquele nervosismo i****a voltou a rastejar pelo meu estômago.
Demir percebeu.
É claro que percebeu.
Ele sempre percebe tudo, irritante como um detector de mentira com wi-fi.
Ele se aproximou devagar, com aquela calma desconcertante.
— Bell… com quantos homens você namorou?
Levei um susto tão grande que quase derrubei a assadeira.
A pergunta bateu em mim como se tivesse atravessado a porta sem bater.
E eu respondi no impulso.
Sem filtro.
Sem raciocinar.
— Com nenhum.
Assim que a palavra saiu, a alma saiu junto.
Quis puxar de volta, recolher, fingir que nunca aconteceu, qualquer coisa.
Mas já era tarde.
Nos olhos de Demir, eu vi.
Ele estava fazendo cálculos.
Cálculos perigosos.
Cálculos que eu não queria que ele fizesse.
Meu instinto gritou para fugir e eu tentei. Dei dois passos para trás como quem procura uma saída de emergência.
Eu não queria falar sobre isso.
Não com ele.
Eu não estava pronta.
Não desse jeito.
Mas, ao mesmo tempo…
Ele já não parecia tão estranho.
E talvez isso fosse exatamente o problema.
Demir ficou me olhando como se eu tivesse acabado de dizer que nunca havia visto água na vida.
— Isabella… você quer que eu acredite que morou seis anos no Brasil e não teve namorado?
Pronto.
A tampa da minha paciência voou longe.
Fiquei encarando o pavão, porque chamá-lo de “homem” nesse momento seria generosidade demais… e senti meu rosto ferver.
Como deixei esse i****a chegar tão perto?
Idiota. Cretino. Arrogante.
— Acredite no que você quiser. Respondi seca, sem nem tentar parecer educada. Eu não sou como você, que teve uma mulher diferente a cada dia da sua vida e acha isso normal.
A frase bateu nele.
Eu vi.
Desceu rasgando.
Demir nem teve tempo de reagir, porque eu já tinha virado as costas e saído da cozinha antes que falasse alguma bobagem que me arrependesse depois.
DEMIR
Fiquei parado lá, no meio da cozinha, com cara de quem acabou de levar uma panelada invisível.
E aí veio o momento em que meu cérebro, finalmente, resolveu trabalhar.
“Se ela não namorou… então ela não fez…”
Arregalei os olhos e prendi a respiração.
“MEU DEUS!? Ela é virgem?”
Eu abri a boca. Fechei.
Pisquei duas vezes, completamente desarmado.
“Não pode ser… não… pode?
Se isso for verdade… muda tudo.”
Fiquei ali.
No silêncio.
Com o avental amarrado na cintura, segurando um garfo e encarando o ar como se estivesse prestes a desmaiar.
Olhei na direção do quarto e vi o tanto que fui i****a todos esses meses, a agredi com minha certeza sem saber. E agora tinha que dar um jeito de me desculpar.
BELL
Dois minutos depois, ouvi passos no corredor.
Demir.
Ele não entrou com o passo firme de sempre. Entrou devagar, como se estivesse invadindo território sagrado… e, honestamente, naquele momento até estava.
Sem me encarar, ele foi direto para o armário, abriu a parte de cima e puxou um colchão fininho, daqueles dobráveis, claramente de guerra.
Coisa de homem que já viu o mundo com pouca estrutura e muito perigo.
Ele estendeu no chão.
No chão.
Fiquei encarando o colchão como se fosse um animal selvagem que ele havia acabado de domesticar.
Demir ajeitou as bordas, deu uns tapinhas como quem mede conforto inexistente, depois se deitou com o braço sobre os olhos… um gesto tão humilde que parecia ilegal vindo dele.
Só aí ele respirou.
Profundo.
Cansado.
Derrotado de si mesmo.
Ele não estava fazendo drama.
Não estava interpretando o pavão romântico.
Estava… pedindo desculpa sem dizer “desculpa”.
E isso foi um problema.
Porque derreteu metade da minha raiva.
— Demir… Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia.
Ele abriu os olhos devagar, como se estivesse esperando uma sentença.
— Isabella. Respondeu, firme, mas arranhado. Quase humano demais.
— Você não precisava… dormir no chão.
Ele soltou uma risada curta, sem humor.
— Depois do que falei para você e do jeito que te tratei? Ergueu um ombro. — Dormir no chão foi o menor dos meus erros hoje.
Fiquei quieta.
Ele sentiu.
E entendeu que precisava ir além.
Demir se virou na minha direção, finalmente me encarando… e o olhar dele não tinha charme, nem arrogância, nem provocação.
Era uma vulnerabilidade pura.
Rara.
Assustadora.
— Fui um i****a. Disse baixo. — Tentei te ler como se você fosse qualquer outra mulher com quem eu já estive. E você não é. Nem perto disso.
Meu coração bateu no estômago.
O dele também, dava para ver.
— Eu não deveria ter te julgado. Nem ter levado a conversa para aquele lado. Engoliu seco. — Você me desmontou, Isabella. Eu não estou acostumado com isso. Eu não estou acostumado a me importar com o que uma mulher pensa de mim… mas com você… eu me importo. Demais até.
Tive que desviar o olhar ou ia implodir ali mesmo.
Demir voltou a ajeitar o colchão, como se tivesse medo de que eu interpretasse errado.
— Vou ficar aqui. Apontou o chão. — Não porque você pediu. Mas, porque preciso que você saiba que respeito você. Sua casa. Seu espaço. Sua história.
Minha garganta apertou.
Não era charme.
Nem era jogo.
Era verdade.
Ele fechou os olhos e virou um pouco de lado, tentando diminuir o próprio tamanho naquele colchão miserável que não aguentaria nem um gato dormindo.
Antes de se calar de vez, murmurou:
— Eu não vou te tocar. Não até você querer.
E pronto.
O quarto ficou pequeno demais para tanta tensão, tanta sinceridade e um homem enorme tentando caber num silêncio que ele mesmo quebrou sem querer.
A curiosidade turca me dominou.
Eu não conseguia parar de pensar no colchão. Porque ele teria um colchão tão velho guardado?
— Demir…
— Oi.
Ele quis parecer casual, mas a voz dele saiu meio rouca, como se tivesse corrido uma maratona emocional sozinho.
Olhei para o colchão no chão, aquele trambolho que parecia ter sobrevivido a três guerras e um furacão… e não aguentei segurar a pergunta.
— De onde veio esse colchão?
Cruzei os braços.
— Você não tem cara de quem gosta de acampar.
O silêncio que veio depois dava para cortar com a faca de pão que a gente usou mais cedo.
Por um segundo, achei que ele ia fingir que não ouviu. Então, Demir se virou na minha direção, apoiando um braço atrás da cabeça. O olhar dele… mudou. Ficou sério, mas não daquele jeito mandão. Era outra coisa. Algo mais… cru.
— Vou te contar porque confio em você. Disse, baixo.
Senti meu estômago cair. Quando ele fala assim, eu esqueço até meu próprio nome.
— Quando eu tinha nove anos, meus pais morreram num acidente náutico.
As palavras dele vieram firmes, sem drama, mas com aquele peso que só quem viveu sabe carregar.
— Fui de orfanato a orfanato. Eu e Umut… ele deu um meio sorriso sem alegria — …ele é meu único amigo desde lá. Passamos fome, sede, frio… por isso ele acha que pode entrar na minha casa como se fosse dono do lugar. Somos irmãos de vida.
Eu não respirei. Literalmente esqueci.
— Depois dessa fase, as coisas foram melhorando. Com dezesseis anos, a gente já trabalhava.
Ele deu de ombros.
— Pelo menos não passávamos tanta fome.
Demir olhou para o teto, como se lembrasse de algo mais longe do que a própria memória alcançava.
— Quando o restaurante começou a dar certo, eu senti que deveria retribuir. Fazer algo por quem ainda vive aquilo que vivi.
Ele passou a mão pelo colchão.
— Esse colchão… veio da África. Eu e Umut ficamos seis meses lá, ajudando nos projetos de alimentação. Não era exatamente confortável, mas… Ele soltou uma risada seca… funcionava.
E aí ele ficou quieto.
Quieto de um jeito que desmontou todas as versões que eu havia criado sobre ele.
Fiquei encarando aquele colchão h******l… o mesmo colchão que eu havia achado ridículo há alguns minutos, e senti meu peito apertar de um jeito que não era nervoso, nem medo, e muito menos raiva.
Era outra coisa. Admiração.
Porque esse Demir…
Esse eu não conhecia.
E essa versão dele mexeu comigo de um jeito que nenhuma outra tinha conseguido.