Samira & Umut
“Alguns dias antes”
O celular de Umut tocou no meio da tarde, justo quando ele achava que ia ter cinco minutos de paz para respirar.
Número desconhecido.
Código do Brasil.
Ele já sentiu que era um problema.
— Alô? Atendeu, tentando parecer profissional.
A voz que saiu do outro lado não veio: chegou, atropelou e se instalou.
— Você é o Umut Emir?
Omut ajeitou os óculos, instantaneamente em alerta.
— Sou eu… quem está falando?
— Samira Silva. Mãe da Isabella.
Pausa dramática suficiente para derrubar um prédio.
— Ah. Umut fechou os olhos. — Claro, a mãe da Bell.
Samira continuou com a precisão de um bisturi.
— Minha filha me contou que aceitou esse noivado ridículo porque você a pressionou.
— Pressionar é uma palavra muito forte…
— Não é não. Ela cortou, seca. — E já que você complicou a vida da minha filha, agora vai ajudar a consertar. Pelo menos o suficiente para que Yaman não destrua o seu amigo.
Umut engoliu seco.
Ele já tinha encarado juiz, polícia, fiscal e até fornecedor com raiva…
Mas mãe pistola? É outra categoria.
— Dona Samira… juro que estou tentando ajudar. Tudo isso foi uma estratégia de emergência.
— Estratégia péssima. Ela rebateu. — Mas agora não adianta reclamar. Yaman me ligou hoje dizendo que está a caminho da Turquia e está uma fera.
— O que?!
— É. Vai buscar a filha. E se conheço um pouco aquele homem… ele vai levá-la de qualquer jeito.
Umut começou a andar de um lado para o outro.
— Então a senhora vem para impedir?
— Estou indo, sim. Mas quero algo concreto antes de aparecer no restaurante. — Samira inspirou fundo. — Precisamos de um documento. Algo que prova que Isabella e Demir já são casados há meses.
Omut arregalou os olhos.
— A senhora quer falsificar um…
— Não é querer. É necessidade. — Samira respondeu, prática, fria e absolutamente decidida. — Você é advogado, certo?
— Sim…
— Ótimo. Então sabe exatamente o que precisa para enganar Yaman e, se possível, enganar Deus também.
Omut passou a mão no rosto.
— Posso montar um contrato civil, mas vai precisar de carimbo, selo, assinatura…
— Deixa isso comigo. Samira cortou. — Um dos meus melhores amigos trabalha no cartório. E eu convivi anos com Yaman. Sei muito bem o que convence e o que não convence.
Ela deu um suspiro tão firme que parecia que estava amarrando o r**o de um cavalo selvagem.
— Ouça, Umut. A voz dela suavizou, mas continuou forte. — Eu não gosto de confusão. Mas se for para proteger minha filha, eu compro briga com meio planeta.
— Eu também. Umut disse. E era verdade.
— Quero proteger Demir e Bell.
— Então estamos do mesmo lado. Samira concluiu. — Faço a parte suja. Você me manda os dados necessários para deixar tudo convincente.
— Envio agora mesmo.
Silêncio curto. Mas confortável.
— E Umut? Samira chamou.
— Sim?
— Da próxima vez que obrigar minha filha a fazer alguma coisa…
— Prometo que não vou.
— Ótimo. Ela respondeu. — Porque vou te garantir que você não vai me querer como inimiga. Outra coisa, não diga a ninguém que falou comigo.
Ela desligou.
Umut ficou parado no meio do escritório, olhando para o nada.
“Meu Deus…”, ele murmurou.
Não sabia quem intimidava mais:
Yaman furioso…
Ou Samira, a nova parceira de crime.
Mas uma coisa era certa:
A Operação “Salvar Bella & Evitar Homicídio Emocional no Restaurante” havia acabado de ganhar sua comandante suprema.
TRÊS DIAS DEPOIS
O avião m*l havia POUSADO, Samira e Silvia já estavam de pé, puxando as malas com a pressa de quem não veio fazer turismo, mas sim impedir uma tragédia familiar internacional.
Assim que saíram para a área de desembarque, Silvia foi pegar as malas.
Samira abriu o aplicativo no celular, o rastreador de Yaman ainda estava ativo.
O pontinho vermelho piscava no endereço do restaurante.
— d***a… — ela murmurou. — Ele já chegou.
Samira acelerou o passo, quase atropelando um casal e derrubando a placa de “Bem-vindo a Istambul”.
Foi então que viu o jovem de terno segurando um cartaz escrito:
SAMIRA SILVA
Ela nem perdeu tempo olhando para o rosto dele.
— Vamos, Umut. O tempo está acabando.
O rapaz piscou, surpreso, ajustando os óculos.
— Senhora Samira?
Silvia chegou arrastando duas malas e já deu uma para Umut carregar.
Ele ficou olhando aquela beleza de mulher como quem esquece por três segundos que o mundo está acabando.
Samira se irritou porque Umut estava parado encarando Silvia.
— Ela pegou o documento da mão dele como se fosse tirar uma espada. — O que você está esperando? Vamos?
Umut correu atrás delas, tentando acompanhar o ritmo impiedoso.
— E quem é essa?
— Sou Silvia, tia de Isabella, e ainda vou me entender com você.
— Agora sei… hum… quer dizer, entendi de quem a Isabella herdou esse jeito… doce.
Samira só ergueu uma sobrancelha.
— Porque você ainda não conheceu o Yaman.
A frase caiu pesada no ar, quase uma ameaça.
Umut engoliu seco.
— Então é… pior?
— Filho, — ela respondeu, abrindo caminho entre as pessoas como uma locomotiva — Yaman não é pior. Ele é um projeto de furacão com autoestima. Se ele colocar a mão na minha filha, nem cartório, nem polícia, nem santo turco a salva dele.
Umut decidiu não responder.
Correu apenas.
E assim, os três seguiram rumo ao restaurante como um trio improvável:
O advogado desesperado.
A mãe que encararia até o d***o com salto baixo e a tia gostosona, brava pra c*****o e absolutamente disposta a quebrar qualquer acordo que ameaçasse a família.