Vou dar a lua de mel

1416 Words
O clima na mesa parecia uma corda esticada, prestes a arrebentar — mas o jantar estava digno de um sultão. As travessas foram sendo abertas uma a uma, revelando os mezes perfumados, o brilho do azeite no hummus, o toque defumado do baba ganoush, os dolmas alinhados como pequenos soldados enrolados em folhas de uva. O pão pita quentinho foi colocado em cestos, macio como nuvem. Demir, sem esperar ninguém, montou meu prato com total naturalidade — hummus, dolma, um pedaço de pide, o arroz pilaf perfeito, o kebab no ponto exato. Ele colocou o prato na minha frente com aquele cuidado que estava ficando natural. Yaman observou cada movimento como um falcão empoleirado no topo de uma montanha. Mas não era o momento de atacar. Ainda não. Ele se serviu, depois serviu Samira como fazia quando ainda eram… eles. Ela aceitou o prato tentando não demonstrar como aquilo mexia com partes do passado que jurou ter enterrado. O silêncio reinou por alguns segundos, quebrado apenas pelo som dos talheres tocando a porcelana. O cheiro da carne grelhada se misturava com as especiarias do pilaf. Tentei me concentrar no jantar, mas a testosterona tensa entre Demir e Yaman dava para cortar com o próprio pão pita. — Está tudo impecável, baba. Comentei tentando suavizar. — Minha casa sempre oferece o melhor… para quem sabe se portar à mesa. Respondeu Yaman, sem tirar os olhos de Demir. Demir apenas ergueu a sobrancelha, tranquilo como quem sabe que cada gesto seu está sendo avaliado… e aprovado por mim. E, pela primeira vez naquela noite, tive certeza de que ele não estava ali para me proteger de meu pai… …mas para enfrentá-lo comigo. Samira observava tudo, comendo devagar, pronta para intervir caso o clima descarrilasse. Quando chegaram à sobremesa, o brilho dourado da baklava parecia quase propositalmente simbólico, camadas e mais camadas, como os segredos naquela mesa. Yaman pousou o garfo com calma excessiva, limpou os dedos no guardanapo de linho e então olhou para Samira. — Curioso… — comentou, como se estivesse falando da sobremesa. — Como algumas coisas voltam após tanto tempo. Samira não levantou os olhos. — Sim, e nem sempre são boas. — Pessoas. Promessas. Dívidas. — Ele sorriu de lado. — A memória tem dessas crueldades. —Foi o que acabei de dizer… nem sempre são boas. Meu estômago apertou, mas mantive o sorriso educado. Meu pai não joga as coisas ao vento, ele alfineta com elegância. Yaman virou o rosto lentamente na minha direção, mas falou com ela: — Quando você levou nossa filha daqui… achou que a estava libertando dos nossos costumes. E olha só o que aconteceu… ela volta, e casada com um turco. Ela ergueu os olhos, finalmente. O choque foi silencioso, mas visível. — Yaman, não tirei nossa filha daqui para quebrar tradições, tirei para que ela pudesse escolher o próprio caminho… e foi o que ela fez. Eu quase ri da ironia, ela me tirou daqui para que não fosse obrigada a me casar sem amor e olha só o que fiz. — Já que é assim… — Yaman continuou, tranquilo demais —… para quando será a chegada do meu herdeiro? Senti o sangue gelar. — Que herdeiro? — perguntei, rindo nervosa. — Baba, isso é um jantar, e não uma sessão de constrangimento. Ele sorriu para mim. Um sorriso cheio de afeto. Cheio demais. — Porque constrangimento? Se estão casados, a consequência é óbvia. Agora… se estão me enrolando e essa vermelhidão em seu rosto é porque seu casamento não se consumou, posso continuar meus planos. — Yaman, deixe nossa filha em paz. Meu pai, ainda sorrindo, deu dois tapinhas na mão de minha mãe que estava em cima da mesa e continuou. — E você, meu genro, está sendo homem o suficiente para providenciar meu neto? Demir manteve o corpo ereto, segurou minha mão e, olhando diretamente para meu pai, respondeu. — Posso garantir ao senhor que sou homem o suficiente para tal tarefa, mas que fique bem claro que só acontecerá quando e se Isabela quiser ser mãe. O silêncio que se seguiu não foi confortável. Foi acusatório. Samira apertou o guardanapo com força. Demir, ao meu lado, manteve o olhar afiado. Não falou mais nada. Mas o corpo inteiro entrou em alerta. — Acho que esse jantar foi um erro, Yaman… — Samira começou, firme — Achei que você poderia ter mudado só um pouquinho. — Não. — Ele negou com um simples gesto de mão. — Não tem como mudar a força de um homem. Olhou diretamente para ela. — Isso vem de linhagem… só faz sentido quando executadas com maestria. A mesa parecia menor. O ar, mais pesado. Segurei a mão de Demir instintivamente. — Mãe? — chamei, sem entender, mas sentindo que algo estava fora do lugar. Samira respirou fundo. Longo. Dolorido. — Fique calma, Isabella. — Ela disse, finalmente. — Seu pai só está sendo seu pai de sempre. Yaman inclinou a cabeça, satisfeito. — Este sou eu, o dono da casa. E voltou a comer a baklava como se não tivesse acabado de incendiar o jantar por dentro. O çay foi servido, quente, perfumado, envolvente. E aí, quando todos deram o primeiro gole… … Yaman pousou a xícara com calma. O momento dele tinha finalmente chegado. Yaman falou com aquela calma perigosa de quem não está sugerindo. Está decretando. — Vou dar a lua de mel para vocês e não aceito não como resposta. Engasguei com o çay. Demir congelou com a xícara a meio caminho da boca. Samira, essa, já levantou a guarda como uma leoa vendo o caçador apontar a lança. — O que você está planejando, Yaman? Ela cutucou, estreitando os olhos. Ele nem piscou. — Nada, querida… Disse daquele jeito que significava exatamente o oposto. — Vamos passar uma semana na minha ilha e, se tudo correr bem, depois que voltarmos, eu dou a bênção para este casamento. Apertei a mão de Demir com tanta força que parecia tentar mandar mensagens em código morse pelo toque. Demir respondeu apertando de volta, com aquele ar sereno que só quem está claramente gostando um pouco demais do papel de marido consegue manter. — Pai… tentei falar, mas Yaman levantou a mão como um juiz que não aceita objeções. — Belinha, eu não estive presente no seu casamento. Esta é a minha forma de corrigir isso. Ele olhou para Demir, como se cavasse dentro dele com os olhos. — E também é a minha forma de saber se você é quem diz ser. Demir inclinou a cabeça, quase desafiando, mas com respeito, eu quase soltei um suspiro encantada. — Uma semana está ótimo, senhor Yaman. Cutuquei o braço dele, assustada. Mas ele continuou, firme: — Faço qualquer coisa pela felicidade da minha esposa. Foi quase possível ouvir o “Ponto para o marido falso” ecoando pela mesa. Samira balançou a cabeça, incrédula. — Você está testando ambos ao mesmo tempo. É isso? — Estou protegendo minha família, respondeu Yaman. Simples. Direto. Cortante. Samira sorriu e seu sorriso não chegou aos olhos. — Agora você quer proteger sua família? Depois do que fez? — O que foi que o baba fez? Do que vocês estão falando? — Não é nada, minha filha, são coisas do passado. Samira tentou amenizar, mas vi que ali tinha coisas que não eram do passado. — Belinha, fique tranquila. Teremos uma semana inteira para conversar… Sobre o que fiz. Ou deixei de fazer. Respirei fundo. Muito fundo. A ideia de passar uma semana numa ilha isolada com Demir… e como esposa… fez minha mente dar uma voltinha fora do corpo. Yaman viu a hesitação, viu o rubor e viu o aperto de mãos entre nós. E sorriu. Um sorriso curto, quase imperceptível. Aquele sorriso que diz: “Achei a f***a no muro.” Mas aprendi com os melhores e vou vencer essa batalha, o único obstáculo é meu marido e seu olhar que me aquece a todo momento. Samira, percebendo o olhar dele, bateu o guardanapo na mesa. Tentando desviar a atenção. — Então, está decidido? Yaman olhou para minha mãe e só confirmou. — Está decidido. Demir virou-se para mim e falou baixo. — Hayatim… acho que a lua de mel chegou antes do casamento real. Engoli seco. E, pela primeira vez… eu não sabia se tinha. …medo do meu pai… Ou do fato de que, pela primeira vez, a ideia de fingir ser esposa de Demir não parecia fingimento nenhum.
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