Voltando para casa

1778 Words
Demir dirigia como se estivesse fugindo de um assalto… ou indo direto para o altar do próprio destino. O volante firme nas mãos, o maxilar travado, o olhar fixo na estrada. Zero palavras. Nada de emoção aparente. Só aquele silêncio que dava vontade de abrir a porta do veículo e sair rolando morro abaixo. Enquanto isso, eu? Eu estava no banco do passageiro, lutando contra meus próprios nervos como quem tenta segurar uma mala lotada com zíper estourado com o pé. Dois dias. Só dois dias para me acostumar com o toque daquele homem que, só de respirar perto de mim, já bagunçava meu sistema imunológico, meu emocional e… francamente… minha fé em Deus. Minha mãe, por outro lado, parecia em outro planeta. No jantar, ela olhava para o meu pai como quem olha para um livro que jurou não reler — mas que, no fundo, lembra cada parágrafo. Ela saiu em alerta total. No salão, enquanto meu pai falava, ela manteve a postura ereta, o rosto calmo, a expressão de quem parecia indiferente. Mas eu conhecia aquele olhar. Conhecia desde criança. Era o olhar de quem já entendeu o perigo… E está calculando quanto tempo ainda tem antes que tudo exploda. Ela não desviou os olhos de Yaman nem uma única vez. Observava cada gesto, cada pausa calculada, tentando avaliar o próximo passo que ele daria. Se havia algum resquício de sentimento ali, ele não vinha em forma de nostalgia. Vinha com raiva contida. Talvez com medo disfarçado de lucidez. Como a certeza c***l de que o homem que ela amou ainda era exatamente o homem de quem fugiu. Sei que ela me esconde alguma coisa e acha que está me protegendo, mas vou fazer com que me conte. Tenho que saber em que tipo de situação estou metida. O silêncio dela não era confortável. Era tensão. As mãos pousadas no colo estavam rígidas demais. O maxilar travado. O olhar fixo na estrada, como se qualquer desvio pudesse custar caro. — Mãe? — chamei, tentando quebrar o peso que tinha se instalado entre nós. Ela piscou devagar, como quem retorna de um campo de batalha invisível. — Estou aqui, minha filha. — respondeu. A voz firme demais para quem estaria tranquila. Mas eu percebi. Ela não estava revivendo o passado. Estava tentando impedir que ele nos alcançasse de novo. Samira conhecia Yaman melhor do que qualquer um naquela mesa. Sabia que aquele jantar não tinha sido um gesto de pai… Havia sido um movimento de guerra. E, se ela tivesse que escolher entre amar aquele homem outra vez ou proteger a própria filha… Eu sabia. Ela já tinha feito essa escolha antes. E faria quantas vezes fosse preciso. Demir segurou minha mão e apertou levemente, me trazendo de volta ao problema de agora. — Hayatim? — Ele rompeu o silêncio com aquela voz profunda que deveria ser proibida depois das 22h. — Oi… — respondi baixinho, quase engolindo a sílaba para não demonstrar pânico. — Está muito quieta. Está tudo bem? Claro que não estava tudo bem. Eu ia passar uma semana num paraíso particular com um homem que eu m*l conseguia encarar sem virar uma adolescente sem coordenação motora e teria que fingir uma i********e que não tinha. Mas respirei fundo e respondi: — Estou processando. Ele deu um sorrisinho rápido, quase imperceptível. — Vai sobreviver, Isabella. — Não tenho tanta certeza assim. — Eu tenho. — Ele disse, e o tom era tão seguro que me deu vontade de chorar e de pular do veículo ao mesmo tempo. — Vou cuidar de você. Ah. Pronto. Agora minha alma levantou os braços e pediu arrego. Minha mãe, perdida em pensamentos que não quer me contar quais são. Eu, perdida em sentimentos pelo… marido de mentira. E Demir dirigia rumo ao meu destino como se já soubesse exatamente o que fazer comigo nessa lua de mel. Se a morte emocional existe, eu talvez esteja prestes a vivê-la. E pior: sorrindo. SAMIRA Eu estava no veículo, mas minha mente estava relembrando a noite. A partir do momento em que chegamos à mansão que foi minha por quinze anos. Eu não estava nervosa. Eu estava em alerta. São coisas diferentes… mas só quem já fugiu de um homem como Yaman Karaman sabe distinguir. O veículo atravessava os portões da mansão e meu coração batia rápido demais para alguém que jurou a si mesma que não sentiria mais nada por aquele lugar. Não era nostalgia. Nem era saudade. Era o perigo. Perigo para Isabella. Que tentei evitar, juro que tentei, mas o destino é uma coisa sem controle e nos trouxe aqui. A última vez que estive naquela casa foi no dia da escuta. Eu estava armada de raiva, palavras afiadas e uma coragem que só aparece quando a gente já perdeu tudo. Enfrentei Yaman como quem enfrenta um inimigo conhecido. Mas hoje ia ser diferente. Hoje eu não estava brava. E isso me enfurecia ainda mais. Só de pensar que estaria perto dele… que ouviria aquela voz baixa, controlada, aquele tom de quem sempre acha que tem razão… meu coração resolveu agir como uma adolescente i****a revendo o primeiro crush. Ridículo. Perigoso. Inaceitável. Respirei fundo antes de sair do veículo. Endireitei a postura. Blindagem emocional ativada. Quando entramos na mansão, Yaman estava sentado. Não se levantou. O gesto foi calculado. Sempre foi. Ele ergueu os olhos, viu Isabella e, então, sim, levantou-se. O sorriso curto, o olhar possessivo, a atenção inteira nela. Ignorou Demir como se fosse parte da mobília. — Minha filha. O beijo na testa foi rápido. Controlado. Proposital. E então, medindo Demir sem nem cumprimentá-lo, falou. — Venha comigo, quero te mostrar minha adega. Meu estômago revirou. Por um segundo — só um — achei que ele queria falar comigo. Que me puxaria para o lado, que me pediria para voltar. Mas não. Ele passou direto por mim. Segui atrás, em silêncio, até a adega. E ali… bastou ele abrir a boca para eu lembrar exatamente porque fugi. — Samira. — Ele disse, fechando a porta atrás de nós. — Estou te dando a chance de me falar a verdade. Cruzei os braços. — Que verdade? Não sei do que você está falando. Ele sorriu de lado. Aquele sorriso que sempre vem antes da sentença. — Não se faça de desentendida. Sei que o casamento de Isabella é falso. E vou provar isso hoje. Meu coração tentou sair pela garganta. Mas não deixei. — Eles se amam. — respondi firme. — E você vai ter que aceitar isso e mandar Vicenzo de volta para a Itália. Yaman inclinou a cabeça, avaliando. — Hum… — murmurou. — Não posso fazer isso antes de ter certeza de que Isabella realmente quebrou a promessa de me obedecer. A raiva subiu quente. — Ela se casou com o homem que ama. — Avancei um passo. — E você vai ter que aceitar. E sumir com aquele mafioso da vida dela. — Minha filha nunca mentiu para mim. — Ele disse, com aquela calma irritante. — Se ela confirmar que ama o marido… e eu acreditar… penso no que fazer com Vicenzo. — Yaman, deixe nossa filha viver a vida dela. Não a que você planejou. Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Depois, simplesmente disse: — Vou pensar. E saiu. A porta se fechou. E eu fiquei. Presa. Foi ali que perdi o controle. Quebrei uma garrafa. Depois, outra. E outra. Vinhos de colecionador, raros, caríssimos. O som do vidro estilhaçando ecoava na adega como um grito que engoli por anos. Se ele achou que me calar ali dentro ia me enfraquecer… Errou f**o. O jantar foi uma guerra fria. Yaman alfinetava com elegância, tentando colocar Isabella contra mim, jogando palavras como sementes de dúvida. Observava cada reação dela, cada olhar para Demir. Permaneci firme. Por fora. Por dentro, eu já calculava rotas de fuga, danos colaterais, possibilidades. Aí veio a tal lua de mel, Uma semana. Uma ilha. Um teste. Fechei os olhos por um instante. Yaman não estava tentando unir a família. Estava tentando confirmar uma traição… e decidir o destino de todos nós. Demir e Isabella me deixaram em frente ao prédio e foram para o apartamento dele. Sei que parece loucura, mas rezei para minha filha se entregar para Demir. Assim, mesmo não sendo casada no papel, será considerada esposa dele perante a lei, a não ser que ele a recuse, mas isso não vai acontecer. Quando cheguei ao apartamento, as luzes estavam acesas. Isso, por si só, já dizia tudo. Silvia me esperava acordada. Quando o perigo rondava Isabella, ela era até mais estratégica que eu. Como quem sabe que guerra não avisa hora. Tirei os sapatos devagar, sentindo o corpo finalmente pesar. O cansaço não era físico. Era emocional. Daqueles que vêm de enfrentar o homem que um dia você amou… e que ainda é capaz de destruir tudo que toca. — Demorou. — A voz de Silvia veio da sala, seca, objetiva. Ela estava sentada no sofá, pernas cruzadas, tablet na mão, óculos no rosto. Pronta. Sempre pronta. — Você sabe como é jantar com Yaman. — Respondi apenas. Ela suspirou como quem já esperava a confirmação. — Ele vai testar o casal? — Já está testando. — Corrigi. — A lua de mel. Uma semana na ilha. Silvia fechou o tablet lentamente. — Então ele quer confirmação. Ou execução. Sentei ao lado dela, passando a mão pelo rosto. — Se o casamento for falso, Vicenzo entra em cena por bem. Se for verdadeiro… Yaman terá que renegociar. — E ele odeia renegociar. — Silvia completou. Assenti. — Isabella não faz ideia da dimensão do risco. Demir… menos ainda. Silvia inclinou o corpo para frente, os olhos atentos. — E você? Sorri sem humor. — Sei exatamente o homem com quem fui casada. Ela se levantou e começou a andar pela sala, já conectando pontos. — Então precisamos garantir que essa lua de mel pareça real o suficiente para convencer Yaman… e segura o bastante para manter Vicenzo longe. — E rápida. — acrescentei. — Antes que alguém resolva cobrar a tal dívida. Silvia parou diante de mim. — Vamos ter que armar algo. Levantei os olhos. — Algo grande? — perguntei, mesmo sabendo a resposta. Ela sorriu. Um sorriso frio. Profissional. Mortal. — Não. Algo inteligente. Respirei fundo. — Faça o que precisar. — disse. — Mas proteja minha filha. Silvia assentiu. — Sempre. Encostei a cabeça no sofá, fechando os olhos por um segundo. Yaman achava que ainda controlava o tabuleiro. Vicenzo achava que tinha uma garantia. Mal sabiam eles… …que duas mulheres que conhecem seus monstros estão prestes a jogar.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD