Samira desligou o celular e já se levantou.
O gesto era automático. Decidido. De quem não pensa duas vezes quando a filha chama.
— Vou arrumar a mala. — disse, indo direto para o quarto.
Silvia piscou, entendeu tudo… e já estava de pé.
— Vou com você.
Samira parou por um segundo. Virou devagar.
— Silvia, dessa vez é diferente. — A voz saiu baixa, grave. — Não é só confusão. É tradição, honra, família. É uma tormenta.
Silvia cruzou os braços. O olhar firme, antigo, de quem já atravessou coisa pior.
— Eu não tenho medo dele. — disse, sem elevar o tom. — Quando foi a sua vez, eu fui até a Turquia e te trouxe de volta. E vou fazer o mesmo agora.
Samira respirou fundo. Aquela memória doía… e salvava ao mesmo tempo.
— Eu sei. — Murmurou. — Mas agora não é só fugir. É enfrentar um homem que não aceita perder.
Silvia se aproximou, pousando a mão no braço da irmã.
— Então enfrentamos. — respondeu. — Juntas.
Um silêncio curto se instalou. Denso.
Samira assentiu devagar.
— Primeiro precisamos saber uma coisa. — disse. — Se Bell quer fugir.
Silvia sorriu de canto. Um sorriso de quem conhece a sobrinha melhor do que ela imagina.
— Ela sempre quer fugir. — respondeu. — A questão é…
Fez uma pausa.
— …se dessa vez ela vai conseguir.
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Samira estava no quarto, olhando para a mala, respirou fundo e começou a falar mais para si do que para Silvia.
— Precisamos pensar antes de pisar na Turquia. — disse, passando a mão pelos cabelos. — Não podemos chegar lá sem um plano para conter Yaman.
Silvia não respondeu de imediato. Sentou-se na beira da cama, pegou um papel qualquer e uma caneta, como quem já entrou em modo guerra.
— Você tem razão. — disse, calma demais.
— Enfrentar Yaman Karaman no impulso é pedir para perder.
Samira suspirou, andando de um lado para o outro.
— O problema não é chegar até a Isabella. — Completou. — É impedir que ele a arraste de volta e a force àquele casamento absurdo com o pretendente que ele escolheu.
Silvia levantou o olhar. Frio. Calculista. Perigoso.
— Então não vamos tentar impedir com força. — disse. — Yaman respeita duas coisas:
Fez uma pausa.
— Reputação.
— E vergonha pública.
Samira parou.
— Você está pensando em…?
— Exatamente. — Silvia respondeu. — Se ele aparecer para “resgatar” a filha, vai precisar parecer um pai honrado. Não um tirano desesperado.
Ela começou a rabiscar.
— Isabella está oficialmente noiva — continuou. — Com testemunhas, imprensa, tradição cumprida. Isso não é pouca coisa para um homem como ele.
Samira engoliu seco.
— Mas ele não vai aceitar um chef como genro. A não ser…
Silvia sorriu de canto. Não havia humor ali. Só estratégia.
— Ele não precisa aceitar. — disse. — Só precisa acreditar que não tem saída.
Samira sentou-se devagar.
— Então, o plano é ganhar tempo.
— Não. — Silvia corrigiu. — O plano é deixá-lo sem saída.
Ela apoiou a caneta na cama.
— Primeiro, falamos com Isabella.
— Depois, entendemos até onde Demir Osman está disposto a ir.
— Não vamos falar com Izabella, ela perdeu o direito de se defender quando ficou noiva sem me avisar.
— O que você quer fazer, então? Silvia falou, já esperando um plano maluco.
— Vamos montar um plano de contingência e já chegaremos com ele montado, não podemos errar, o tempo é curto.
Silêncio.
Silvia fechou os olhos por um instante.
— E se mesmo assim ele tentar levá-la?
Samira levantou-se.
— Aí não vai ser uma conversa de pai e filha. — disse. — Vai ser uma disputa de poder.
Olhou firme para Silvia.
— E dessa vez, Yaman não vai estar sozinho no tabuleiro.
Enquanto as irmãs Silva pensavam no que fazer, amanhecia na Turquia.
O restaurante estava em polvorosa.
A equipe estava rindo, comentando, mostrando vídeos uns para os outros. E no meio daquela bagunça de panelas, cheiro de café forte e frituras, Umut, claro, estava com o celular na mão.
Ele postou o grande anúncio.
No i********: do restaurante, um carrossel:
fotos do jantar gratuito,
Vídeos dos clientes emocionados.
Demir servindo mesa, dançando para mim,
Eu rindo sem entender como havia parado naquela confusão.
E no final… uma foto de nós dois, lado a lado, a luz quente atrás, parecendo um casal real e, por um instante, eu me vi casada com Demir.
Legenda escrita por Umut, o poeta da encrenca:
“Nosso chef Demir Osman finalmente escolheu sua noiva.
Que a prosperidade os acompanhe.”
Boom.
Corações, comentários, compartilhamentos, gente marcando gente.
Vi Demir observando o engajamento disparar e um sorriso genuíno surgir no canto de sua boca.
Não o sorriso de um homem apaixonado, ele, como eu, ainda não admitimos isso nem para nós mesmos, mas o sorriso de um homem que vê esperança. Que sente que algo está voltando a pulsar em sua vida.
Eu, no entanto, se tinha esperança de que meu pai não descobrisse, perdi assim que recebi a notificação do celular: Vídeo viral, assista agora.
— Parabéns, Bell… você prometeu que ia chegar, fazer seu curso e sair sem ser percebida. Conseguiu. Fez tudo errado.
Um aperto atravessou meu peito. Um medo antigo, familiar.
Sei que é questão de horas para que meu pai veja tudo isso.
E quando Yaman Karaman se move… a terra treme.
Deveria avisar Demir, mas Umut disse que não era problema deles, vamos ver quando meu pai chegar se ainda vão pensar assim.