Irmãs Silva

938 Words
Samira desligou o celular e já se levantou. O gesto era automático. Decidido. De quem não pensa duas vezes quando a filha chama. — Vou arrumar a mala. — disse, indo direto para o quarto. Silvia piscou, entendeu tudo… e já estava de pé. — Vou com você. Samira parou por um segundo. Virou devagar. — Silvia, dessa vez é diferente. — A voz saiu baixa, grave. — Não é só confusão. É tradição, honra, família. É uma tormenta. Silvia cruzou os braços. O olhar firme, antigo, de quem já atravessou coisa pior. — Eu não tenho medo dele. — disse, sem elevar o tom. — Quando foi a sua vez, eu fui até a Turquia e te trouxe de volta. E vou fazer o mesmo agora. Samira respirou fundo. Aquela memória doía… e salvava ao mesmo tempo. — Eu sei. — Murmurou. — Mas agora não é só fugir. É enfrentar um homem que não aceita perder. Silvia se aproximou, pousando a mão no braço da irmã. — Então enfrentamos. — respondeu. — Juntas. Um silêncio curto se instalou. Denso. Samira assentiu devagar. — Primeiro precisamos saber uma coisa. — disse. — Se Bell quer fugir. Silvia sorriu de canto. Um sorriso de quem conhece a sobrinha melhor do que ela imagina. — Ela sempre quer fugir. — respondeu. — A questão é… Fez uma pausa. — …se dessa vez ela vai conseguir. --- Samira estava no quarto, olhando para a mala, respirou fundo e começou a falar mais para si do que para Silvia. — Precisamos pensar antes de pisar na Turquia. — disse, passando a mão pelos cabelos. — Não podemos chegar lá sem um plano para conter Yaman. Silvia não respondeu de imediato. Sentou-se na beira da cama, pegou um papel qualquer e uma caneta, como quem já entrou em modo guerra. — Você tem razão. — disse, calma demais. — Enfrentar Yaman Karaman no impulso é pedir para perder. Samira suspirou, andando de um lado para o outro. — O problema não é chegar até a Isabella. — Completou. — É impedir que ele a arraste de volta e a force àquele casamento absurdo com o pretendente que ele escolheu. Silvia levantou o olhar. Frio. Calculista. Perigoso. — Então não vamos tentar impedir com força. — disse. — Yaman respeita duas coisas: Fez uma pausa. — Reputação. — E vergonha pública. Samira parou. — Você está pensando em…? — Exatamente. — Silvia respondeu. — Se ele aparecer para “resgatar” a filha, vai precisar parecer um pai honrado. Não um tirano desesperado. Ela começou a rabiscar. — Isabella está oficialmente noiva — continuou. — Com testemunhas, imprensa, tradição cumprida. Isso não é pouca coisa para um homem como ele. Samira engoliu seco. — Mas ele não vai aceitar um chef como genro. A não ser… Silvia sorriu de canto. Não havia humor ali. Só estratégia. — Ele não precisa aceitar. — disse. — Só precisa acreditar que não tem saída. Samira sentou-se devagar. — Então, o plano é ganhar tempo. — Não. — Silvia corrigiu. — O plano é deixá-lo sem saída. Ela apoiou a caneta na cama. — Primeiro, falamos com Isabella. — Depois, entendemos até onde Demir Osman está disposto a ir. — Não vamos falar com Izabella, ela perdeu o direito de se defender quando ficou noiva sem me avisar. — O que você quer fazer, então? Silvia falou, já esperando um plano maluco. — Vamos montar um plano de contingência e já chegaremos com ele montado, não podemos errar, o tempo é curto. Silêncio. Silvia fechou os olhos por um instante. — E se mesmo assim ele tentar levá-la? Samira levantou-se. — Aí não vai ser uma conversa de pai e filha. — disse. — Vai ser uma disputa de poder. Olhou firme para Silvia. — E dessa vez, Yaman não vai estar sozinho no tabuleiro. Enquanto as irmãs Silva pensavam no que fazer, amanhecia na Turquia. O restaurante estava em polvorosa. A equipe estava rindo, comentando, mostrando vídeos uns para os outros. E no meio daquela bagunça de panelas, cheiro de café forte e frituras, Umut, claro, estava com o celular na mão. Ele postou o grande anúncio. No i********: do restaurante, um carrossel: fotos do jantar gratuito, Vídeos dos clientes emocionados. Demir servindo mesa, dançando para mim, Eu rindo sem entender como havia parado naquela confusão. E no final… uma foto de nós dois, lado a lado, a luz quente atrás, parecendo um casal real e, por um instante, eu me vi casada com Demir. Legenda escrita por Umut, o poeta da encrenca: “Nosso chef Demir Osman finalmente escolheu sua noiva. Que a prosperidade os acompanhe.” Boom. Corações, comentários, compartilhamentos, gente marcando gente. Vi Demir observando o engajamento disparar e um sorriso genuíno surgir no canto de sua boca. Não o sorriso de um homem apaixonado, ele, como eu, ainda não admitimos isso nem para nós mesmos, mas o sorriso de um homem que vê esperança. Que sente que algo está voltando a pulsar em sua vida. Eu, no entanto, se tinha esperança de que meu pai não descobrisse, perdi assim que recebi a notificação do celular: Vídeo viral, assista agora. — Parabéns, Bell… você prometeu que ia chegar, fazer seu curso e sair sem ser percebida. Conseguiu. Fez tudo errado. Um aperto atravessou meu peito. Um medo antigo, familiar. Sei que é questão de horas para que meu pai veja tudo isso. E quando Yaman Karaman se move… a terra treme. Deveria avisar Demir, mas Umut disse que não era problema deles, vamos ver quando meu pai chegar se ainda vão pensar assim.
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