O que esperamos pode já estar aqui

529 Words
Ficou conversando com o pai enquanto Júlia começou a preparar o café das crianças, havia pessoas para aquela tarefa, mas ela gostava de participar e supervisionar tudo. “Não basta ser saudável, precisa ser gostoso! Vão começar o dia, precisa ser especial.” A frase que Júlia repetiu tantas vezes naquela cozinha já havia se tornado quase um mantra das mulheres que trabalhavam para ela. Sempre que criavam uma receita nova tinham isso em mente antes de apresentar para patroa. - Como você tá moleque? - Indo, tudo tranquilo, pai, sério, Vick é legal e o trabalho paga bem. Sombra não conseguia entender como Endi tinha ido parar em um caminho tão diferente do que planejou para o filho. O garoto que deveria ser o novo capô tinha se tornado tudo aquilo que Ethan abominava. - Virou mesmo um engomadinho de merdα? Vai me dar esse desgosto? Endi achou engraçado, qualquer outro pai se orgulharia do filho. - Pois é! Por aí dizem que desprezamos aquilo que temos em nós e não aceitamos, mas ainda sou bom de braço, topa trocar hoje a tarde? - Se não for amassar a sua roupinha. Deram risada juntos e Sombra bagunçou o cabelo perfeitamente alinhado do filho, já não se parecia em nada com o moleque relaxado e livre que tinha embarcado, mas ainda tinha a mesma tristeza no olhar. Júlia pediu para que Marta levasse as coisas do filho para o quarto que mantinham no orfanato. Era o mesmo que Mel dormia as vezes, e que Lis também chegou a usar, Théo e Anne também passaram por lá, mas sempre acabavam junto com as outras crianças e Júlia nunca viu isso como um problema, para ela eram só crianças, pobres ou ricas, refugiadas ou vítimas de violência, no fim, tinham as mesmas necessidades, proteção e carinho. Endi pegou o computador e colocou no colo, se sentou sobre a cama de solteiro e começou a trabalhar, mas quando ergueu os olhos da tela viu alguns mangás, achou que Júlia os tivesse levado, o coração pareceu doer e ganhar vida ao mesmo tempo quando viu a letra de Mel rabiscada na capa. Endi, cadê você? Volta vai. Leu e releu todas as frases que encontrou no livro, mas se prendeu a uma em especial. Será que leu a minha carta ou nem descobriu que estava lá? O rapaz andava com aquele livro na pasta o tempo todo, para ele era como ter uma foto do passado, dos momentos que dividiu com a amiga e que nunca foram registrados, não se lembravam de usar o celular quando estavam juntos. Pegou o mangá na pasta e tirou de lá a folha em branco que ele guardou como marcador de página por tantos anos. Segurou o pedaço de papel amarelado com certeza de que ali estavam as palavras que esperou aquele tempo todo. A respiração ofegante, engoliu a saliva algumas vezes, andou em círculos, quando Vick ligou ignorou a chamada pela primeira vez desde que começaram a namorar. Correu até o escritório e procurou por durex. - Mãe! tem uma caneta marcador e um durex, por favor! - Calma o que aconteceu ? - Onde, mãe?
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