O visitante

965 Words
Endi estacionou o carro em frente ao orfanato Chang’e, o lugar parecia feliz apesar de ainda ser madrugada e todos estarem dormindo. O portão tinha uns cinco metros, feito em bronze e quem passava na rua conseguia ver tudo o que acontecia no interior do lugar, não se parecia com os orfanatos fechados e sem vida que já tinha visitado. Reconheceu o cuidado da mãe em cada detalhe, as flores, o parque, a mesa enorme que ele até conseguia imaginar Júlia enchendo com várias coisas. Já fazia um ano que não recebia uma visita dos pais, o orfanato estava sob investigação, um padre havia feito uma denúncia contra o espaço, acusando Júlia e Ethan de usarem as crianças para lavagem de dinheiro e que muitos dos internos sofriam maus tratos, não eram acompanhados por nutricionista e ficavam negligenciados. Tudo começou de um jeito estranho que Júlia não entendia, mas que o marido identificou quase que imediatamente. Uma tarde comum, a administradora estava se preparando para ir embora quando uma das assistentes entrou na sala. - Senhora, um homem disse que quer vê-la, expliquei que já encerramos o atendimento, mas ele disse que veio do Paraná apenas para isso, insistiu muito, o que eu digo? Júlia colocou novamente os documentos sobre a mesa, pegou um café, olhou em volta para garantir que a sala estava apta para receber um visitante, organizou os pedaços de bolo que haviam sobrado de forma a ficarem apresentáveis, sempre alguma criança ia até lá roubar uma sobremesa no meio do dia e Júlia adorava, ganhava abraços e se divertia com os sorrisos lambuzados que os seus bolos tirava dos pequenos. - Peça que entra, Claudia e pode ir em seguida, perdão por segurá-la aqui. Júlia não havia perdido o jeito simples de lidar com a vida, nascida no campo ainda tinha a mesma disposição para o trabalho duro e a paixão pelas pessoas, mas o trabalho com o orfanato deu a mulher um ar mais refinado, não chique, ainda usava as mesmas sapatinhas de sempre e os vestidos longos, mas agora mantinha os cabelos hidratados, as unhas feitas e uma maquiagem que realçava a beleza que já era natural. Sabia que o marido ficaria preocupado se ela demorasse, sempre ia buscá-la, esperava no carro e provavelmente já tinha chegado, enviou uma mensagem. “Ethan tenho uma visita que chegou sem avisar, vou demorar um pouco, pode entrar um pouco?” Sombra era o subchefe da máfia, tinha mais atribuições do que conseguia dar conta, principalmente depois que Ivan e Ming tinham se aliado, Linda, irmã de Ethan era a nova líder da Tríade, mas Ming era o ponto de equilíbrio que impedia que a mulher se perdesse para o poder. O marido de Júlia ajudava com isso também. “Pode ficar a vontade esquisita, estou resolvendo algumas coisas por aqui, te espero no carro.” Pedro tinha um ar forte, a expressão altiva, usava roupas que o deixavam ainda mais oponente, a mulher achou que o visitante devia ter em torno de quarenta e cinco anos, a barba com um cavanhaque milimetricamente desenhados denunciava um cuidado excessivo com a aparência, Júlia se arrependeu de ter dispensado a assistente, de repente não quis ficar sozinha com o homem, mas respirou fundo, o cumprimentou e se sentou em seguida. - Como posso ajudar? Pedro abriu um sorriso, foi gentil e passou uma impressão bondosa ao fazer a proposta. - Sou diretor de um orfanato no Paraná, temos cerca de duzentas crianças conosco, o negócio foi um sonho da minha filha que faleceu com câncer e, por isso o mantive, mas agora que as crianças cresceram queria que elas tivessem contato com outras culturas, soube que também acolhem estrangeiros, principalmente crianças angolanas, estou certo? Pedro estava bem-informado, realmente tinham recebido cinco meninas angolanas, os pais foram assassinados pelos atravessadores, não tinham conseguido pagar a dívida da viagem dentro do prazo e acabaram executados, as irmãs seriam separadas e Júlia interveio e abrigou as garotas, tinham idades próximas, entre dez e quatro anos. No entanto, também havia um garotinho estadunidense e duas meninas francesas, as demais crianças eram brasileiras, na maioria das vezes retiradas de lares abusivos. - Sim, mas ainda não entendi como posso ajudar o senhor, não temos espaço para recebermos mais duzentas crianças, talvez possamos receber cinquenta no máximo. Pedro deu sorriu da ingenuidade de Júlia, achou que seria mais fácil do que havia imaginado lidar com a diretora do orfanato Chang’e. - Não, eu quero adotar uma das angolanas, levá-la para o meu orfanato, ela terá mais oportunidades, temos muitos empresários que se sensibilizam com a causa, a escolhida estudará na melhor faculdade e terá um futuro brilhante. Falou como se negociasse e Júlia não entendeu onde Pedro desejava chegar. - Senhor, se deseja adotar uma criança precisa fazer um processo na Vara da infância e juventude. E não, não pode escolher nenhuma das que estão sob nossa tutela. Pedro tentou barganhar. - Certo, então talvez possa deixar que eu leve uma das angolanas para uma estadia, talvez um mês. - Senhor, eu quero que vá embora. A minha resposta é não. Júlia nunca permitiu que os filhos fossem cuidados por estranhos e o mesmo se aplicava as crianças do orfanato, tinha escolhido com cuidado cada uma das funcionárias, todas pertenciam a organização, sabiam o preço de descumprir as regras e ainda assim, passavam por testes psicológicos mensalmente. Os salários eram pagos por Ming, o líder da Tríade e o subchefe eram os mantenedores do lugar em tudo. A alimentação era a melhor, tinham cozinheiras, faxineiras, enfermeiras, mas todas respondiam a Ming ou a Ivan. - Quanto quer? - Oi? O que o senhor disse? - Perguntei quanto quer por uma das meninas, qualquer uma, mas pago melhor pela mais novinha.
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