O jantar naquela noite estava silencioso.
Pesado.
Como quase tudo naquela mansão desde que Henrico De Luca havia voltado.
A mesa enorme estava ocupada apenas por ele e dois homens italianos envolvidos em assuntos que Heloísa preferia fingir não ouvir enquanto ajudava discretamente na cozinha.
Mesmo de longe, ela conseguia sentir a tensão.
Os funcionários andavam rápido. Falavam baixo. E evitavam errar qualquer coisa perto dele.
Então a voz grave de Henrico ecoou pela sala de jantar:
— Quem deixou Heloísa sair para o jardim?
O silêncio foi imediato.
Heloísa congelou do outro lado da porta da cozinha.
Bianca respondeu primeiro:
— Senhor, eu achei que—
— Você achou?
A voz dele tornou-se perigosamente calma.
Erro.
Sempre era um erro quando Henrico ficava calmo demais.
— O médico mandou ela descansar — continuou friamente. — E ainda assim ela estava andando pela propriedade inteira.
— O tornozelo dela já melhorou bastante—
Henrico bateu lentamente os dedos na mesa.
O simples som fez os funcionários prenderem a respiração.
— Tudo que acontece dentro desta casa deve ser comunicado a mim.
A voz dele saiu baixa.
Cruel.
— Principalmente quando envolve ela.
Heloísa sentiu o coração apertar imediatamente.
Porque Bianca não tinha culpa.
Nenhum deles tinha.
Ela que havia insistido.
A raiva de Henrico continuava crescendo.
Era perceptível.
— Vocês estão começando a esquecer quem dá ordens aqui?
Ninguém respondeu.
O ambiente tornou-se sufocante.
Heloísa fechou os olhos rapidamente antes de tomar coragem.
Então saiu da cozinha mancando levemente.
A sala inteira ficou em silêncio no instante em que ela apareceu.
Henrico ergueu os olhos imediatamente.
E a expressão dele piorou ao vê-la apoiando-se na parede discretamente.
— Desculpa interromper o jantar — ela falou baixo. — Mas a culpa foi minha.
Os olhos escuros permaneceram presos nela.
Intensos.
Ameaçadores.
Heloísa respirou fundo antes de continuar:
— Eu estava me sentindo presa no quarto… e meu pé já está quase melhor.
Henrico apoiou lentamente os talheres sobre a mesa.
O som metálico ecoou pelo ambiente inteiro.
— Você pediu autorização para sair?
Ela franziu levemente a testa.
— Eu…
— Pediu?
A voz grave cortou ela imediatamente.
— Não.
Henrico inclinou-se lentamente para trás na cadeira.
O olhar dele percorrendo cada detalhe do rosto dela.
— Então você decidiu fazer o que queria.
Aquilo irritou Heloísa um pouco.
Porque parecia absurdo.
Ela não era prisioneira.
Mesmo assim, não discutiu.
— Eu só queria tomar ar.
— Tudo o que acontece nessa casa me diz respeito.
A frase saiu fria.
Controladora.
Assustadora.
— Inclusive você.
O silêncio caiu imediatamente.
Os funcionários abaixaram ainda mais a cabeça.
Heloísa sentiu o rosto esquentar.
Aquilo era ridículo.
Exagerado.
Mas ela conhecia o suficiente de Henrico para saber que contrariá-lo na frente dos outros seria pior.
Então apenas respirou fundo.
— Desculpa.
A voz saiu baixa.
Sincera.
— Não vai acontecer de novo.
Henrico continuou olhando fixamente para ela.
Como se esperasse que ela argumentasse.
Que enfrentasse ele.
Mas Heloísa apenas assentiu minimamente e virou-se devagar.
— Com licença.
Então saiu da sala mancando levemente até desaparecer corredor adentro.
O silêncio permaneceu.
Pesado.
Um dos italianos arriscou falar depois de alguns segundos:
— Você está sendo duro demais com a garota.
Henrico nem olhou para ele.
Continuou encarando o corredor vazio por onde Heloísa havia saído.
A mandíbula travada.
Os dedos apertando lentamente a taça de vinho.
Então empurrou o prato intacto para longe.
— Termine a reunião sem mim.
Levantou-se da mesa imediatamente.
Sem tocar na comida.
Sem ouvir ninguém.
Porque estava irritado.
E o pior…
Nem ele sabia exatamente o motivo.
Alguns minutos depois, Henrico parou diante da porta do quarto dela.
O silêncio ali dentro irritou ele ainda mais.
Então abriu a porta sem bater.
E encontrou exatamente o que procurava.
Heloísa realmente havia ido embora.
Ela estava sentada na cama pequena, ainda usando o vestido simples, com os livros da faculdade espalhados ao redor enquanto tentava fingir que estudava.
Mas os olhos vermelhos denunciavam tudo.
Ela tinha chorado.
Henrico fechou a porta lentamente atrás de si.
O quarto inteiro ficou pequeno demais com ele ali dentro.
Heloísa levantou os olhos imediatamente.
Surpresa.
— Senhor De Luca…
Ele observou o rosto dela em silêncio.
Depois os livros.
Depois o pé ainda enfaixado.
Então perguntou friamente:
— Está me ignorando agora?
Ela arregalou levemente os olhos.
— Não.
Henrico aproximou-se devagar.
Assustadoramente calmo.
— Porque saiu da sala como se eu fosse um estranho falando com você?
Heloísa franziu a testa sem entender.
— Eu só não queria atrapalhar seu jantar.
— Já atrapalhou.
A resposta veio rápida demais.
Ela ficou em silêncio.
Henrico observou ela por alguns segundos antes de falar novamente:
— Você acha que estou exagerando.
Não era pergunta.
Era constatação.
Heloísa desviou os olhos imediatamente.
Erro.
Henrico segurou delicadamente o queixo dela obrigando-a a olhar para ele.
— Responde.
Ela engoliu seco.
— Acho que o senhor se preocupa demais com algo simples.
Os olhos escuros estreitaram minimamente.
— Simples?
A mão dele apertou levemente o rosto dela.
— Você caiu de uma escada. Poderia ter quebrado algo pior.
A respiração dela ficou presa.
Porque ele parecia genuinamente irritado com aquilo.
Quase afetado.
— Eu estou bem agora…
Henrico ficou em silêncio por alguns segundos.
Então aproximou o rosto lentamente do dela.
Perto demais.
— Você ainda não entendeu uma coisa, Heloísa.
A voz grave saiu perigosamente baixa.
— Eu não gosto quando algo machuca o que é meu.