raiva

910 Words
O jantar naquela noite estava silencioso. Pesado. Como quase tudo naquela mansão desde que Henrico De Luca havia voltado. A mesa enorme estava ocupada apenas por ele e dois homens italianos envolvidos em assuntos que Heloísa preferia fingir não ouvir enquanto ajudava discretamente na cozinha. Mesmo de longe, ela conseguia sentir a tensão. Os funcionários andavam rápido. Falavam baixo. E evitavam errar qualquer coisa perto dele. Então a voz grave de Henrico ecoou pela sala de jantar: — Quem deixou Heloísa sair para o jardim? O silêncio foi imediato. Heloísa congelou do outro lado da porta da cozinha. Bianca respondeu primeiro: — Senhor, eu achei que— — Você achou? A voz dele tornou-se perigosamente calma. Erro. Sempre era um erro quando Henrico ficava calmo demais. — O médico mandou ela descansar — continuou friamente. — E ainda assim ela estava andando pela propriedade inteira. — O tornozelo dela já melhorou bastante— Henrico bateu lentamente os dedos na mesa. O simples som fez os funcionários prenderem a respiração. — Tudo que acontece dentro desta casa deve ser comunicado a mim. A voz dele saiu baixa. Cruel. — Principalmente quando envolve ela. Heloísa sentiu o coração apertar imediatamente. Porque Bianca não tinha culpa. Nenhum deles tinha. Ela que havia insistido. A raiva de Henrico continuava crescendo. Era perceptível. — Vocês estão começando a esquecer quem dá ordens aqui? Ninguém respondeu. O ambiente tornou-se sufocante. Heloísa fechou os olhos rapidamente antes de tomar coragem. Então saiu da cozinha mancando levemente. A sala inteira ficou em silêncio no instante em que ela apareceu. Henrico ergueu os olhos imediatamente. E a expressão dele piorou ao vê-la apoiando-se na parede discretamente. — Desculpa interromper o jantar — ela falou baixo. — Mas a culpa foi minha. Os olhos escuros permaneceram presos nela. Intensos. Ameaçadores. Heloísa respirou fundo antes de continuar: — Eu estava me sentindo presa no quarto… e meu pé já está quase melhor. Henrico apoiou lentamente os talheres sobre a mesa. O som metálico ecoou pelo ambiente inteiro. — Você pediu autorização para sair? Ela franziu levemente a testa. — Eu… — Pediu? A voz grave cortou ela imediatamente. — Não. Henrico inclinou-se lentamente para trás na cadeira. O olhar dele percorrendo cada detalhe do rosto dela. — Então você decidiu fazer o que queria. Aquilo irritou Heloísa um pouco. Porque parecia absurdo. Ela não era prisioneira. Mesmo assim, não discutiu. — Eu só queria tomar ar. — Tudo o que acontece nessa casa me diz respeito. A frase saiu fria. Controladora. Assustadora. — Inclusive você. O silêncio caiu imediatamente. Os funcionários abaixaram ainda mais a cabeça. Heloísa sentiu o rosto esquentar. Aquilo era ridículo. Exagerado. Mas ela conhecia o suficiente de Henrico para saber que contrariá-lo na frente dos outros seria pior. Então apenas respirou fundo. — Desculpa. A voz saiu baixa. Sincera. — Não vai acontecer de novo. Henrico continuou olhando fixamente para ela. Como se esperasse que ela argumentasse. Que enfrentasse ele. Mas Heloísa apenas assentiu minimamente e virou-se devagar. — Com licença. Então saiu da sala mancando levemente até desaparecer corredor adentro. O silêncio permaneceu. Pesado. Um dos italianos arriscou falar depois de alguns segundos: — Você está sendo duro demais com a garota. Henrico nem olhou para ele. Continuou encarando o corredor vazio por onde Heloísa havia saído. A mandíbula travada. Os dedos apertando lentamente a taça de vinho. Então empurrou o prato intacto para longe. — Termine a reunião sem mim. Levantou-se da mesa imediatamente. Sem tocar na comida. Sem ouvir ninguém. Porque estava irritado. E o pior… Nem ele sabia exatamente o motivo. Alguns minutos depois, Henrico parou diante da porta do quarto dela. O silêncio ali dentro irritou ele ainda mais. Então abriu a porta sem bater. E encontrou exatamente o que procurava. Heloísa realmente havia ido embora. Ela estava sentada na cama pequena, ainda usando o vestido simples, com os livros da faculdade espalhados ao redor enquanto tentava fingir que estudava. Mas os olhos vermelhos denunciavam tudo. Ela tinha chorado. Henrico fechou a porta lentamente atrás de si. O quarto inteiro ficou pequeno demais com ele ali dentro. Heloísa levantou os olhos imediatamente. Surpresa. — Senhor De Luca… Ele observou o rosto dela em silêncio. Depois os livros. Depois o pé ainda enfaixado. Então perguntou friamente: — Está me ignorando agora? Ela arregalou levemente os olhos. — Não. Henrico aproximou-se devagar. Assustadoramente calmo. — Porque saiu da sala como se eu fosse um estranho falando com você? Heloísa franziu a testa sem entender. — Eu só não queria atrapalhar seu jantar. — Já atrapalhou. A resposta veio rápida demais. Ela ficou em silêncio. Henrico observou ela por alguns segundos antes de falar novamente: — Você acha que estou exagerando. Não era pergunta. Era constatação. Heloísa desviou os olhos imediatamente. Erro. Henrico segurou delicadamente o queixo dela obrigando-a a olhar para ele. — Responde. Ela engoliu seco. — Acho que o senhor se preocupa demais com algo simples. Os olhos escuros estreitaram minimamente. — Simples? A mão dele apertou levemente o rosto dela. — Você caiu de uma escada. Poderia ter quebrado algo pior. A respiração dela ficou presa. Porque ele parecia genuinamente irritado com aquilo. Quase afetado. — Eu estou bem agora… Henrico ficou em silêncio por alguns segundos. Então aproximou o rosto lentamente do dela. Perto demais. — Você ainda não entendeu uma coisa, Heloísa. A voz grave saiu perigosamente baixa. — Eu não gosto quando algo machuca o que é meu.
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