Os primeiros dias de recuperação foram um inferno para Heloísa.
Ela odiava ficar parada.
Ainda mais presa naquele quarto enquanto outra pessoa ocupava seu lugar na mansão. O tornozelo continuava dolorido, obrigando-a a repousar quase o tempo inteiro.
Henrico havia deixado ordens claras:
Ela não pisaria nas escadas até melhorar.
E ninguém ousava contrariá-lo.
Para substituí-la temporariamente, Bianca contratou outra funcionária.
Caterina.
Bonita. Vaidosa. E curiosa demais.
Desde o primeiro dia, Heloísa percebeu a diferença entre elas.
Caterina perguntava sobre tudo. Observava tudo. Tentava puxar assunto com os seguranças. E sorria demais para Henrico.
Erro.
Um erro gigantesco.
Naquela mansão, curiosidade era perigosa.
Nos dias seguintes, os comentários começaram a circular pelos corredores.
— Ela entrou no escritório do chefe sem autorização.
— Mexeu em documentos.
— Foi vista falando ao telefone escondida.
— Está tentando vender informações.
Heloísa sentiu medo imediatamente.
Porque agora ela entendia exatamente quem Henrico De Luca era.
E homens como ele não perdoavam traição.
Naquela noite, a mansão inteira ficou estranhamente silenciosa.
Pesada.
Assustadora.
Então Bianca entrou no quarto dela quase sem respirar direito.
O rosto pálido.
As mãos tremendo.
— O que aconteceu? — Heloísa perguntou imediatamente.
Bianca fechou a porta rápido antes de responder.
— Henrico descobriu tudo.
O coração dela apertou.
— Sobre Caterina?
Bianca assentiu devagar.
— Ela estava passando informações da mansão para inimigos da família De Luca.
O ar pareceu desaparecer do quarto.
— Meu Deus…
Bianca aproximou-se rapidamente.
— Todos os funcionários foram chamados para a sala principal.
Heloísa sentiu um arrepio subir pela coluna.
— Por quê?
Os olhos da governanta ficaram assustados.
— Porque o senhor De Luca quis ensinar uma lição.
O silêncio caiu.
Pesado.
Sufocante.
Heloísa já sabia a resposta antes mesmo de perguntar.
— O que ele fez?…
Bianca fechou os olhos rapidamente.
— Mandou matarem ela na frente de todos.
O mundo de Heloísa pareceu parar.
Ela arregalou os olhos imediatamente.
— Não…
Bianca assentiu.
— Ele disse que traidores não merecem piedade.
O estômago dela embrulhou violentamente.
As mãos começaram a tremer.
Porque aquilo era real.
Henrico realmente era aquele tipo de homem.
Frio. Violento. c***l.
Um mafioso de verdade.
A porta do quarto abriu naquele instante.
Bianca ficou rígida imediatamente.
Henrico entrou calmamente.
Vestido inteiramente de preto.
As mãos limpas. A expressão controlada.
Como se não tivesse acabado de assistir alguém morrer.
O olhar dele caiu primeiro sobre Bianca.
— Saia.
A governanta obedeceu imediatamente.
Assim que ficaram sozinhos, Heloísa sentiu o coração acelerar violentamente.
Henrico aproximou-se devagar da cama.
Os passos lentos fizeram ela prender a respiração.
Ele parecia ainda mais assustador naquela noite.
Mais frio.
Mais sombrio.
Henrico parou diante dela e observou o tornozelo enfaixado por alguns segundos.
Então seus olhos subiram lentamente para o rosto dela.
— Está chorando por ela?
A pergunta saiu baixa.
Cortante.
Heloísa limpou rapidamente os olhos úmidos.
— Eu…
— Ela mereceu.
A voz dele não carregava culpa alguma.
Nem arrependimento.
Nada.
Aquilo assustou Heloísa mais do que deveria.
Henrico inclinou-se lentamente até ficar perto demais dela.
— Pessoas desleais sempre acabam mortas no meu mundo.
O coração dela batia tão forte que chegava a doer.
Os olhos escuros analisavam cada reação dela.
Como se procurassem alguma coisa.
Mentira. Medo. Traição.
Então ele ergueu a mão devagar.
Os dedos grandes seguraram delicadamente o queixo dela.
Gentil demais para um homem como ele.
— Você não seria capaz de me trair, seria?
O ar ficou preso na garganta dela.
Porque aquela pergunta não parecia realmente uma pergunta.
Parecia ameaça.
Heloísa balançou a cabeça rapidamente.
— Não.
Henrico continuou olhando fixamente para ela.
— Tem certeza?
Ela assentiu novamente, nervosa.
— Eu nunca faria isso.
Os dedos dele apertaram levemente o rosto dela.
Não o suficiente para machucar.
Só para lembrar quem tinha controle ali.
— Porque eu odiaria precisar machucar você.
A voz grave atravessou ela inteira.
E o pior…
Era que ele parecia sincero.
Henrico soltou o rosto dela lentamente.
Então os olhos escuros desceram para seus lábios por um segundo longo demais.
Perigoso demais.
— Você é diferente das outras.
Heloísa permaneceu imóvel.
Com medo até de respirar errado.
Henrico aproximou-se mais uma vez.
Tão perto que ela conseguia sentir o calor dele.
— Não me decepcione, Heloísa.
O tom baixo fez um arrepio percorrer seu corpo inteiro.
Então ele se afastou calmamente.
Como se não tivesse acabado de destruir qualquer sensação de segurança que ela ainda tinha naquela mansão.
Antes de sair do quarto, Henrico parou na porta.
Sem olhar para trás, falou:
— E pare de sentir pena de traidores.
A voz saiu fria novamente.
Cruel novamente.
Depois do que aconteceu com Caterina, a mansão mudou.
O silêncio tornou-se ainda mais pesado. Os funcionários evitavam contato visual. E ninguém ousava comentar qualquer assunto perto de Henrico.
Já Heloísa…
Tentava fingir que estava tudo normal.
Mas não estava.
Porque agora ela sabia exatamente do que aquele homem era capaz.
E mesmo assim…
Continuava pensando nele.
Na forma como segurou seu rosto. Na maneira assustadoramente calma com que falou sobre matar alguém. E pior…
Na forma como parecia se importar com ela.
Aquilo não fazia sentido.
Henrico De Luca era c***l. Perigoso. Violento.
Homens assim não protegiam pessoas.
Eles destruíam.
Naquela manhã, porém, Heloísa finalmente conseguiu sair do quarto depois de dias praticamente presa em repouso.
O tornozelo ainda doía um pouco, mas estava muito melhor.
Bianca permitiu que ela fosse até os jardins tomar ar.
— Nada de escadas — a governanta avisou. — E se o senhor De Luca descobrir que você está forçando o pé, eu não quero estar perto quando ele ficar irritado.
Heloísa riu baixinho.
Mas no fundo sabia que Bianca falava sério.
Os jardins da mansão eram enormes.
Lindos.
Flores coloridas espalhavam-se pelos caminhos de pedra enquanto o sol fraco da tarde aquecia sua pele pela primeira vez em dias.
Ela sentou-se em um banco perto da fonte central e fechou os olhos por alguns segundos.
Finalmente paz.
Ou quase.
— Então você realmente existe.
A voz masculina fez Heloísa abrir os olhos imediatamente.
Um dos seguranças da mansão aproximava-se lentamente.
Ela já o tinha visto antes algumas vezes pelos corredores.
Alto. Barbudo. Sorriso convencido demais.
— Desculpa? — perguntou confusa.
O homem riu baixo.
— Os funcionários falam tanto da brasileira ruiva que eu comecei a achar que era invenção.
Heloísa sorriu educadamente apenas por educação.
— Ah.
O segurança sentou-se ao lado dela sem ser convidado.
Aquilo a deixou desconfortável imediatamente.
— Sou Matteo.
— Heloísa.
— Eu sei quem você é.
Ela desviou o olhar rapidamente.
Não gostava daquele tom.
— Seu pé melhorou?
— Sim. Obrigada.
Matteo inclinou-se um pouco na direção dela.
— Você é ainda mais bonita de perto.
Heloísa ficou sem graça imediatamente.
— Não precisa falar isso.
— Preciso sim.
Ela percebeu rapidamente que ele era insistente.
Muito insistente.
— Escuta… eu não—
— Podemos sair algum dia — ele interrompeu sorrindo. — Conheço lugares incríveis em Roma.
Heloísa balançou a cabeça rapidamente.
— Não estou interessada.
Matteo pareceu divertido com a resposta.
— Todas dizem isso primeiro.
Ela franziu levemente a testa.
— Estou falando sério.
Mas ele continuou ali.
Perto demais.
O olhar descendo constantemente pelo corpo dela de maneira desconfortável.
— Você devia sorrir mais pra mim assim.
Heloísa levantou-se imediatamente do banco.
— Acho melhor eu voltar.
O homem levantou junto.
— Qual o problema? Estou só conversando.
Ela deu um passo para trás.
Então uma voz fria cortou o jardim inteiro:
— O problema é que ela disse não.
O sangue dela gelou instantaneamente.
Matteo empalideceu.
Henrico De Luca caminhava lentamente pelo jardim acompanhado de dois homens armados.
Vestido inteiramente de preto.
Os olhos escuros fixos no segurança.
Perigosamente calmos.
Heloísa percebeu imediatamente.
Aquilo era pior que raiva.
Henrico parou diante deles.
O olhar caiu rapidamente sobre Heloísa.
Analisando. Verificando. Como se quisesse ter certeza de que ela estava bem.
Então voltou para Matteo.
— Senhor… eu só estava—
— Ela recusou.
A voz grave saiu mortalmente baixa.
Matteo engoliu seco.
— Eu não fiz nada demais.
Henrico aproximou-se devagar.
Assustadoramente devagar.
— Você encostou nela?
— Não—
— Olhou demais pra ela?
O segurança permaneceu em silêncio.
Erro.
Henrico inclinou levemente a cabeça.
— Escute com atenção porque eu não gosto de repetir ordens.
O jardim inteiro parecia congelado.
Até os seguranças atrás dele permaneceram imóveis.
— Você nunca mais chega perto dela.
A voz saiu baixa. Fria. c***l.
— Nunca mais fala com ela. Nunca mais olha pra ela. Nunca mais respira perto dela.
Matteo abaixou imediatamente a cabeça.
— Sim, senhor.
Henrico aproximou-se mais um passo.
Perto o suficiente para assustar qualquer homem.
— Porque se eu descobrir que incomodou ela outra vez…
Os olhos escuros ficaram violentos.
— Eu arranco suas mãos antes de matar você.
O silêncio ficou sufocante.
Heloísa perdeu o ar.
Porque ele parecia completamente sério.
Matteo assentiu rapidamente.
— Não vai acontecer de novo.
Henrico ficou olhando para ele por mais alguns segundos antes de finalmente desviar o olhar.
Então virou-se lentamente para Heloísa.
E a expressão dele mudou.
Não totalmente.
Mas o suficiente para assustar ela ainda mais.
Porque havia possessividade ali.
Pura.
Crua.
— Você deveria estar descansando.
A voz saiu menos agressiva.
Ela apertou nervosamente as mãos.
— Bianca deixou eu vir tomar sol…
Henrico observou o rosto dela em silêncio.
Depois o tornozelo.
Então segurou delicadamente o braço dela.
— Volte para dentro.
Aquilo não foi um pedido.
Foi ordem.
Mesmo assim, o toque dele era estranhamente cuidadoso.
Heloísa obedeceu sem discutir.
E enquanto caminhava ao lado dele em direção à mansão…
Sentiu todos os funcionários olhando.
Porque naquele momento ficou claro para todos:
Henrico De Luca havia decidido que Heloísa era dele para proteger.
O problema…
Era que homens como ele destruíam tudo o que tocavam.