CAPÍTULO I
Quando a Aurora n***a surgiu no céu, Zaakaroth achou que o sol jamais ia nascer novamente. Era então um jovem Zaalim. Suas raízes não haviam penetrado no solo memorial e muito menos havia chegado em sua desvorada inicial.
Os mais antigos, diziam através dos ventos trazidos do lado oeste do planeta que um novo orbe surgiu no céu e este causara a escuridão dos dias que se seguiram.
Antigas escrituras das pedras foram reveladas e acreditou-se que nasceria aquele que levaria os Zaalins a uma nova era. Mas também havia aqueles que diziam que o m*l surgiria e aniquilaria os seres dominantes do planeta. Seria a chegada de Tempesto, o devorador de raízes, ou o Grande Zaa que cantaria as verdades absolutas? Zaakaroth não sabia, mas ficou triste ao não ouvir as bactérias cantantes naquele entardecer e não alterando as cores do ambiente ao seu redor, muitas das jovens Zaalins adoeceram. E a seiva que corria em si chorou ao ver que Xakathou estava perdendo as primeiras folhas. Usando o vento vibracional ao redor deles decidiu entender o que acontecia.
– Dizem que surgiu do ventre de um Ente a semente Vok profetizada. E em breve ele caminhará entre nós. – Disse Cohagath, o Samaul da cidade de Juz’Maaz. – Aguardo o caminhante Pahath, nos trazer o que a ventania não se permite dizer.
– Xakathou, Galeth, Imembuih e Danth estão sentindo a mudança do clima. Minha preocupação é que percamos para sempre a essência deles. - interrompeu Faliahg, responsável pelo ciclo enraizatório dos mais novos.
– Não tema, Faliahg! A semente que se perde, volta em outro prisma.
As palavras do sábio Samaul deixaram Zaakaroth triste. Não queria perder os amigos de ciclo, muito menos Xakathou. Decidiu encostar sua raiz mais profunda na dela e assim, poderia sentir o que se passava. Ao permitir o toque, quase chorou e sua seiva se encheu com as palavras de sua amiga.
– Estou muito triste, Zaak! Sinto que algo dentro de mim parou de crescer. E esta escuridão me sufoca. Sem luz, creio que não sobreviverei.
– O que posso fazer Xaka? Estou triste com isso. Não quero lhe perder.
– Creio que só rezando para Juthah. Que suas lágrimas escorram em nós e molhem a terra que sinto perder a vida. Em mim encostaram-se Imembuih e Danth. Sei que eles estão bem. Não consigo sentir Galeth. Ela não quer me deixar ouvi-la.
– Eu também tentei, senti que ela afastou suas raízes. Juthah n******e nos deixar nessa escuridão. Eu não confio no que diz o nosso Samaul.
– Cuidado Zaak, sabe que questionar nossos mestres é desnatural! Você pode ser punido!
– Isso já é uma punição Xaka! Não percebe, algo precisa ser feito. Não podemos aguardar a chegada de nosso caminhante, para entender o que aconteceu. Não, enquanto muitos de nós se esvaem. Não enquanto você sofrer.
– Mas cuidado para que Cohagath não o sinta. Isso seria imperdoável.
Zaakaroth decidiu se calar. Mas não quis soltar as raízes de Xakathou. E durante dias em eterna penumbra, o tempo assim passou. Não caiu a chuva, as lágrimas de Juthah. Na verdade o orbe não permitia.
A Aurora n***a surgiu devido a chegada de uma Esfera estelar que trazia em si, uma das três forças da Galáxia, o próprio Kaorim-Za.
Após a saída abrupta do seu Universo primordial, através de uma Estrela Ana Vermelha criou um braço galaxial. Kaus'Lis virou a estrela central desse sistema. Surgiram dessa estrela, cinco planetas que orbitavam essa estrela Anã. O segundo mais próximo desse sol era a morada dos Zaalins.
O que eles não sabiam é que haviam sido criados por Kaorim-Za. A Força que durante três ciclos de rotação caminhou pelo orbe. Findado o terceiro ciclo germinou com seus próprios dedos o solo que ainda estava incandescente.
– Ka tal’ru nan’eth al’zu! – Disse a entidade esta frase Vocalíptica que significa “Que a ordem se levante da matéria!”
E em alguns ciclos surgiu a semente Vok. Uma substância viva, cristalina e mutável. Ela penetrou no solo, foi levada pelos ventos e infiltrou-se na água do planeta e infectou-o com consciência latente.
Durante as sete eras seguintes, criou uma Coroa Observatória, de dentro do sol, a Estrela Kaus’Lis. Trouxe de sua antiga dimensão os seus vinte quatro seguidores mais fiéis e os materializou em Espelhos Vivos. Seres que o auxiliaram na criação e germinação dos outros orbes e estrelas do braço galático que foi batizado de Ruk-bat’Sa.
Os primeiros organismos vivos a surgirem foram as bactérias Cantantes que conseguiram alterar o ambiente com sons padronizados e esfriaram mais o planeta. Essa mudança climática foi fundamental para surgirem as Árvores Códice que se espalharam por todo o planeta e no fundo de mares, rios e oceanos. As bactérias primordiais se fundiram a estes entes e delas surgiram os Seres Cordados de Luz fria, os primeiros organismos multicelulares com percepção de ritmo e direção.
E foi da água que surgiram os Thalam. Anfíbios de mente coletiva que povoaram o planeta, junto com os Kuresh, aracnídeos que construíram templos de som puro, que vibravam com a movimentação dos ventos.
Enquanto seus vinte e quatro espelhos vivos continuaram a criação dentro do espaço galaxial, Kaorim-Za voltou ao orbe que escolheu para iniciar a vida consciente e observou várias espécies de árvores espalhadas pelo planeta. Escolheu doze pares de cada uma e tocando-as trouxe os primeiros espíritos que tinham atingido o grau necessário de evolução para a nova etapa que estava por vir, dizendo :
– Despertem para a Consciência de seu Deus Vivo. Centelhas divinas que iniciam a sua caminhada e serão guiadas por mim e meus guardiões.
E assim foi feito.
As centelhas se fundiram à matéria árvorea e aprenderam a falar Vocalíptico com as Bactérias Cantantes através dos ventos. Depois descobriram que ao tocarem suas raízes por baixo da terra, poderiam se sentir e conversar entre si.
Com o passar das eras povos-florestas surgiram e cidades em dois continentes terrenos e um aquático cresceram.
A primeira grande evolução foi necessária para que os Zaalins pudessem se espalhar pelo Universo. E novamente Kaorim-Za interviu, junto com seus Espelhos Vivos. Criou o que foi chamado depois de Desvorada.
Assim surgiram os Caminhantes. Por volta de dois ou três séculos de vida, do ventre do próprio Zaalim, surgia um ser bípede.
A primeira Desvorada trouxe espanto, entre os Zaalins mais jovens e a primeira guerra planetária iniciou-se.
De um lado Caminhantes que defendiam a existência dos Zaalins raízes e outros que achavam que todos deveriam ser exterminados para a nova espécie que surgia progredir sozinha e sem apego ao passado. Foi necessário que um dos Espelhos Vivos encarnasse e ensina-se a todo o planeta um código de conduta para que a espécie evoluísse.
Assim, Deotah, reuniu povos e espécies e subjulgou com punho de ferro aqueles que queriam a aniquilação total da subespécie dos Zaalins que ganhou o nome de Entes.
Foi escrita em rochas as imutáveis leis do planeta, o que se chamou de Sagradas Escrituras dos Entes. Foi explicado o ciclo, onde brota-se da terra o novo Ente. Este aguarda, lembrando, absorvendo e aprendendo entre dois ou três séculos, em seu lugar de origem. Depois a primeira Desvorada o transforma em Caminhante, que protege o seu povo e traz com mais celeridade o que os seus irmãos necessitam. Este ciclo dura o mesmo período do anterior e então o Caminhante arvoreda-se novamente em um local de sua preferência para procriar junto com Caminhantes que arvoraram-se. Fica então responsável pelos novos brotos até que todos façam a Desvorada Inicial. Até lá, como Cuidador, ele ensina os caminhos, perigos e segredos que absorveu em suas experiências para aqueles que darão seus primeiros passos. O último a desvorar, força o Cuidador a sua Segunda Desvorada. Para guiar a jornada que decidirem os novos Caminhantes. Quando estes chegam a idade de novamente arvorarem-se e procriarem, o Guia-Caminhante volta ao seu local de origem para virar um Samaul, sábio que transforma-se em um Ente, imóvel, que morrerá lentamente dentro da sua madeira oca, velha, deixando fluir a seiva ao solo para que alimente os novos brotos e sua centelha-alma possa seguir dentro das inúmeras dimensões para sua nova vida.
Deotah, deixou instruções sobre o equilíbrio natural das espécies terrestres e aquáticas, o papel das Bactérias Cantantes, do pensamento único e coletivo dos Thalam (modo de se comunicar com os Espelhos Vivos e com o próprio Kaorim-Za), o culto aos Kuresh, que com suas teias propagam e absorvem as mensagens de todos os cantos do planeta, a simbiose com as Árvores Códices que possuíam vida mas não senciente como os Zaalins, e que todos, eram formados de Seres Cordados, o que os tornavam um único organismo vivo com o próprio planeta.
Mas isto com o tempo foi esquecido. As palavras em rocha previam a chegada do próprio Deus Vivo, para novos ensinamentos nos anos da Revelação. Mas as palavras foram deturpadas.
Séculos depois da subida de Deotah, os Zaalins começam a construir cidades cada vez maiores e independentes, se afastando em definitivo de seus irmãos planetários. Povos começaram a comercializar a seiva das Árvores Códice, escravizar Thalans para trabalhos de construção e guerra, cidades voltaram a batalhar entre si pelo poder central dos continentes e após isso pelo domínio global. Os Samauls que conviveram com o Espelho Vivo, já haviam morrido a milênios quando uma rebelião aconteceu na Coroa Solar.
Três dos vinte e quatro espelhos vivos rebelam-se contra Kaorim-Za e decidiram encarnar no planeta para reunir o máximo de almas para suas legiões.
Ao saber disso, Kaorim-Za os caça por todos os cantos mas não os encontra.
Depois de três séculos de incursões de seus Espelhos no orbe, decide que está na hora dele mesmo Encarnar e finalmente fazer cumprir a profecia. Em terra buscará os três amotinados e os levará para o Abismo n***o da Galáxia, os condenando a voltar ao Universo original que agora não passa de poeira estelar.
Foi justamente por esse motivo que surgiu a Aurora n***a, quando a Coroa Solar Observatória planou próxima ao planeta para preparar a descida em carne do Deus Vivo.
Durante semanas a conjunção foi preparada e neste período muitos Zaalins, sucumbiram sem a fonte primária de energia a luz solar.
Zaakaroth soube da morte de Galeth, em um dos dias negros que se seguiram. Acordou com o toque de Xakathou que o fez entender que o que Galeth era já não estava presente em seu pequeno tronco. Aquilo deixou Zaakaroth em prantos, gostava de Galeth e sentia que os seus outros três companheiros teriam o mesmo fim, talvez ele mesmo, algo que ele poderia suportar. Mas o que mais temia era a partida de Xakathou.
E a cada nova manhã escura, chegavam pelos ventos, mortes e mais mortes e o caminhante não havia regressado com ideias ou mensagens do que se devia fazer. Então partiu Imembuih e alguns dias depois Danth. Então aconteceu. Em uma noite, Zaakaroth tentou em vão buscar as raízes de sua amiga e todos estavam em silêncio. Um respeito de morte que paira no chão. Até que encostou em uma de suas raízes mais profundas e já não havia seiva a correr.
Chamou por ela em vão. Ao entender o que aconteceu, a dor mais profunda que nunca sentira tomou conta de si. Algo dentro dele rompeu-se. Não soube precisar o que, mas sentiu que se esvaia também. Talvez houvesse chegado para ele a morte. E isto o reconfortou. Iria rever seus entes queridos. Sentiu que sua essência se separava das raízes, dos galhos e começava a se concentrar no miolo do tronco. E então sentiu uma luz muito forte e já não era a árvore, mas estava dentro dela. Uma dor nova tomava conta de si.
Moveu-se e isto era estranho. Conseguiu virar-se e ao ver uma fresta de luz, tocou-a. Sentiu seus dedos, suas mãos e conseguiu deixar passar mais a luz. E finalmente entendeu.
Usou as forças que ainda tinha e conseguiu romper o tronco que ocupava. O solo o amparou. E em poucos segundos estava de pé, sem raízes, troncos e folhas. Era um novo ser, um caminhante.
– n******e! Ele é muito novo para isso! É desnatural. - Disse Faliahg. – Não consigo entender como ele desvorou em trinta anos.
Zaakaroth nem ficou para escutar a resposta do Samaul e correu. Não sabia para onde, só decidiu seguir para bem distante dali, longe daquele campo de morte, longe da escuridão que o sufocava.
Caminhando e correndo com dificuldade, enxergou à distância quatro caminhantes que vinham ao seu encontro. Parou. Não sabia se devia retroceder ou aproximar-se deles. Até que viu Pahath entre eles, o caminhante da cidade de Juz’Maaz.
– É ele? –Perguntou um dos caminhantes.
– Sim! - Respondeu Pahath. - Deve estar assustando sem entender como isto aconteceu.
– Assustado ele ficará quando souber o que queremos dele e como ele vai ser usado.
Zaakaroth nada entendeu e gostaria de nunca ter saído de seu tronco primordial.