O som dos pássaros do lado de fora da janela contrastava com o alvoroço dentro de Elisa. O céu ainda era claro, quase sem nuvens, mas para ela a manhã já estava longa demais.
Acordara antes do despertador. Deitada, olhou para o teto por alguns minutos, tentando racionalizar o que sentia. Mas não havia lógica. Só uma ansiedade quase infantil, uma espera que fazia o coração parecer descompassado.
Ela levantou, tomou um banho demorado, prendeu os cabelos cacheados num coque frouxo, soltou, prendeu de novo. Experimentou duas blusas diferentes, ficou com a terceira. Nenhuma aula tinha sido tão esperada. Nenhum dia tão arrastado.
— Ridícula. — murmurou para si mesma diante do espelho, tentando rir do próprio nervosismo.
Mas não adiantava. A ideia de ver Rafael outra vez… De ouvir a voz grave dele dizendo seu nome… O jeito como ele gesticulava ao falar, como franzia a testa quando pensava — tudo era demais.
Às 13h48, ela saiu. Não queria se atrasar nem um minuto. Caminhou até a escola como se cada passo a aproximasse de algo que ainda não entendia. Sentou-se na sala antes de todo mundo, ocupando a mesma carteira de sempre — na segunda fileira, à esquerda, onde podia vê-lo sem precisar virar o rosto demais.
E então ele entrou.
O tempo pareceu encolher.
Rafael estava com uma camisa cinza de mangas dobradas, os cabelos levemente bagunçados como se tivesse passado a manhã inteira tentando resolver algo importante. Ele disse “boa tarde” com a mesma voz firme de sempre e começou a aula, falando sobre o tempo nas narrativas, como passado e presente podem se sobrepor num texto. Elisa tentava anotar, mas era difícil. A mente dela pulava parágrafos, imaginava outras formas de presença, outras conversas.
Por vezes, ela teve certeza de que ele a olhava por mais de um segundo. Só ela. Ou talvez fosse só imaginação.
A aula passou como um vendaval. As palavras dele soavam como música, mas Elisa não registrava metade. Quando o sinal tocou, foi como acordar de um feitiço.
Os colegas começaram a sair, alguns comentavam sobre o calor, outros riam alto demais. Elisa demorou para guardar as coisas. Esperava algo. Um sinal. Um “Elisa, pode ficar mais um minuto?”
E então veio.
— Elisa — ele chamou, do outro lado da sala. — Pode fechar a porta pra mim, por favor?
O estômago dela virou. Ela assentiu, silenciosa, e trancou a porta. Quando se virou, ele já estava ali, próximo demais. Tão próximo que ela pôde sentir o perfume amadeirado dele. Os olhos verdes a prenderam.
— Você sabe que me provoca, não sabe? — ele disse baixo, rouco.
— Eu? — ela m*l conseguia respirar. — Eu não...
Ele levou um dedo até a boca dela, silenciando qualquer justificativa.
— Não mente — sussurrou. — Desde a primeira vez que entrou por aquela porta, eu soube.
O tempo pareceu parar.
Rafael encostou o corpo no dela, e ela sentiu o calor subir pelas costas. Os lábios dele roçaram sua orelha, o pescoço, e Elisa arfou sem perceber. A mesa atrás dela bateu levemente em suas coxas quando ele a conduziu até ali.
Com um movimento ágil, ele a ergueu e a sentou sobre a madeira fria da mesa. Suas mãos deslizaram pelas coxas dela, lentamente. A boca dele encontrou a dela em um beijo urgente, molhado, cheio de tudo que ela sempre imaginou.
Elisa gemeu entre beijos, puxando-o pela gola da camisa. Ele respondeu com mais intensidade, as mãos agora subindo pela barra da blusa dela.
— A gente não pode... — ela sussurrou contra os lábios dele, mas não recuou.
— Então me diz pra parar — ele provocou.
Ela não disse.
A blusa caiu. As mãos dele exploravam sua pele como se já a conhecessem. Os beijos desciam pela clavícula, pelo seus s***s, enquanto ela se arqueava em resposta. O zíper da calça dele começou a ceder, as respirações se misturavam.
Até que...
Um barulho.
Um sobressalto.
Elisa abriu os olhos.
O quarto estava escuro, abafado. Suada, com o coração acelerado, ela levou a mão ao peito, tentando entender o que acabara de acontecer. Os lençóis grudavam em sua pele. Ainda podia sentir o gosto do beijo, o toque das mãos dele. Era como se tivesse realmente acontecido.
Mas não.
— Foi só um sonho... — ela murmurou, ainda ofegante.
Sentou-se na cama, levou as mãos ao rosto e ficou ali, em silêncio, tentando se acalmar. O relógio marcava 3h27 da madrugada.
Olhou para o teto, o quarto mergulhado na penumbra. Mas uma coisa era certa: aquilo não era só um sonho comum. Era intenso demais, real demais. Como se tivesse vivido aquilo em outra realidade.
E o pior... ainda sentia desejo.
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O sol da tarde não perdoava. Elisa caminhava em direção à escola com os olhos semicerrados e a alma meio fora do corpo. A noite maldormida deixara marcas visíveis. Cada passo parecia pesado, como se o sonho da madrugada ainda colasse nela como um lençol molhado.
Na entrada, Bia a aguardava encostada na mureta, tomando um suco em caixinha com cara de quem não tinha um problema no mundo.
— Credo, Elisa! — exclamou, assim que a viu de perto. — Que olheiras são essas? Parece que passou a noite em vigília!
— Foi quase isso — respondeu Elisa, soltando um suspiro arrastado.
— O que aconteceu? — Bia a acompanhou pelo corredor, curiosa.
— Tive um sonho… estranho — começou, hesitante. — Muito real. Daqueles que você acorda e acha que ainda tá dentro.
Bia arqueou uma sobrancelha.
— Estranho tipo… “caí pelada no meio da sala de aula” ou estranho tipo “acordei suada, com o coração disparado e um certo alguém na minha mente”?
Elisa desviou o olhar, ruborizada.
— Melhor a gente não entrar em detalhes...
— Ah, então foi o segundo. Tô ligada. — Bia deu uma risadinha marota. — Conta mais. Sonhou com quem?
— Esquece, Bia. Só sei que depois não consegui mais dormir. E tô assim, parecendo que fui atropelada por um caminhão de sensações.
Elisa estava tão distraída contando que não viu quando virou o corredor e esbarrou direto no peito de alguém. Um impacto súbito, firme, quente.
— Me desculpa, eu— — começou a dizer, até levantar o olhar e perceber que era ele.
Professor Rafael.
O mesmo do sonho. Com a mesma expressão que ele olhava para ela. Só que agora, real. Real demais.
Os olhos dele encontraram os dela com intensidade. Por um segundo, foi como se o tempo parasse, de novo. A respiração dela falhou, e um calor estranho percorreu sua espinha.
Rafael estreitou levemente os olhos.
— Dormiu bem, Elisa?
O mundo girou.
Ela sentiu as palavras subirem na garganta antes de pensar.
— Isso não é da sua conta — disparou, mais ríspida do que queria.
Ele franziu a testa.
— Peço que tenha mais respeito, Elisa. Eu sou seu professor, e você precisa lembrar disso.
— E o senhor precisa parar de se meter onde não foi chamado — rebateu, com os olhos faiscando.
O silêncio entre eles ficou tenso. A atmosfera pareceu mais densa. Bia, atrás, arregalava os olhos, assistindo à cena como se fosse uma novela ao vivo.
— Essa conversa termina aqui — ele disse firme, com a voz mais baixa e controlada. — Entre na sala.
Elisa virou as costas sem dizer mais nada e entrou com passos duros, tentando ignorar o formigamento que sentia no corpo inteiro. Quando sentou, sentia as bochechas queimarem.
Bia não perdeu tempo. Se aproximou, segurando o riso.
— Menina... o que foi isso?
— Nada. Ele foi grosso, só isso.
— “Dormiu bem, Elisa?” — repetiu Bia, imitando o tom dele e dando risada. — Ele falou isso com uma cara de quem sabia que tava no teu sonho! Tá maluco? Não me dia que o sonho que você teve foi com ele? E se ele sonhou com você também.
— Cala a boca, Bia. Você fala de mais!
— Não vou calar. Eu senti daqui, foi tensão s****l. Aquilo ali não é só birra. É tensão. Daquela que dá vontade de pegar e resolver.
— Para, pelo amor de Deus.
— Amiga, cês dois tão precisando t*****r, desculpa. Tô sendo real. Essa energia não mente!
Elisa quase caiu da cadeira de tanto rir e se esconder de vergonha.
— Você é louca.
— Louca, mas não cega. E só tô falando o que todo mundo que passou no corredor pensou.
Elisa tentou se concentrar. Tentou. Mas as palavras de Bia martelavam na cabeça como verdades que ela mesma não queria aceitar. O pior de tudo era: Bia estava certa. A tensão estava ali. Viva. Palpável. E talvez, em algum nível, os dois soubessem disso.