Onde Começa o Desejo

1471 Words
O som dos pássaros do lado de fora da janela contrastava com o alvoroço dentro de Elisa. O céu ainda era claro, quase sem nuvens, mas para ela a manhã já estava longa demais. Acordara antes do despertador. Deitada, olhou para o teto por alguns minutos, tentando racionalizar o que sentia. Mas não havia lógica. Só uma ansiedade quase infantil, uma espera que fazia o coração parecer descompassado. Ela levantou, tomou um banho demorado, prendeu os cabelos cacheados num coque frouxo, soltou, prendeu de novo. Experimentou duas blusas diferentes, ficou com a terceira. Nenhuma aula tinha sido tão esperada. Nenhum dia tão arrastado. — Ridícula. — murmurou para si mesma diante do espelho, tentando rir do próprio nervosismo. Mas não adiantava. A ideia de ver Rafael outra vez… De ouvir a voz grave dele dizendo seu nome… O jeito como ele gesticulava ao falar, como franzia a testa quando pensava — tudo era demais. Às 13h48, ela saiu. Não queria se atrasar nem um minuto. Caminhou até a escola como se cada passo a aproximasse de algo que ainda não entendia. Sentou-se na sala antes de todo mundo, ocupando a mesma carteira de sempre — na segunda fileira, à esquerda, onde podia vê-lo sem precisar virar o rosto demais. E então ele entrou. O tempo pareceu encolher. Rafael estava com uma camisa cinza de mangas dobradas, os cabelos levemente bagunçados como se tivesse passado a manhã inteira tentando resolver algo importante. Ele disse “boa tarde” com a mesma voz firme de sempre e começou a aula, falando sobre o tempo nas narrativas, como passado e presente podem se sobrepor num texto. Elisa tentava anotar, mas era difícil. A mente dela pulava parágrafos, imaginava outras formas de presença, outras conversas. Por vezes, ela teve certeza de que ele a olhava por mais de um segundo. Só ela. Ou talvez fosse só imaginação. A aula passou como um vendaval. As palavras dele soavam como música, mas Elisa não registrava metade. Quando o sinal tocou, foi como acordar de um feitiço. Os colegas começaram a sair, alguns comentavam sobre o calor, outros riam alto demais. Elisa demorou para guardar as coisas. Esperava algo. Um sinal. Um “Elisa, pode ficar mais um minuto?” E então veio. — Elisa — ele chamou, do outro lado da sala. — Pode fechar a porta pra mim, por favor? O estômago dela virou. Ela assentiu, silenciosa, e trancou a porta. Quando se virou, ele já estava ali, próximo demais. Tão próximo que ela pôde sentir o perfume amadeirado dele. Os olhos verdes a prenderam. — Você sabe que me provoca, não sabe? — ele disse baixo, rouco. — Eu? — ela m*l conseguia respirar. — Eu não... Ele levou um dedo até a boca dela, silenciando qualquer justificativa. — Não mente — sussurrou. — Desde a primeira vez que entrou por aquela porta, eu soube. O tempo pareceu parar. Rafael encostou o corpo no dela, e ela sentiu o calor subir pelas costas. Os lábios dele roçaram sua orelha, o pescoço, e Elisa arfou sem perceber. A mesa atrás dela bateu levemente em suas coxas quando ele a conduziu até ali. Com um movimento ágil, ele a ergueu e a sentou sobre a madeira fria da mesa. Suas mãos deslizaram pelas coxas dela, lentamente. A boca dele encontrou a dela em um beijo urgente, molhado, cheio de tudo que ela sempre imaginou. Elisa gemeu entre beijos, puxando-o pela gola da camisa. Ele respondeu com mais intensidade, as mãos agora subindo pela barra da blusa dela. — A gente não pode... — ela sussurrou contra os lábios dele, mas não recuou. — Então me diz pra parar — ele provocou. Ela não disse. A blusa caiu. As mãos dele exploravam sua pele como se já a conhecessem. Os beijos desciam pela clavícula, pelo seus s***s, enquanto ela se arqueava em resposta. O zíper da calça dele começou a ceder, as respirações se misturavam. Até que... Um barulho. Um sobressalto. Elisa abriu os olhos. O quarto estava escuro, abafado. Suada, com o coração acelerado, ela levou a mão ao peito, tentando entender o que acabara de acontecer. Os lençóis grudavam em sua pele. Ainda podia sentir o gosto do beijo, o toque das mãos dele. Era como se tivesse realmente acontecido. Mas não. — Foi só um sonho... — ela murmurou, ainda ofegante. Sentou-se na cama, levou as mãos ao rosto e ficou ali, em silêncio, tentando se acalmar. O relógio marcava 3h27 da madrugada. Olhou para o teto, o quarto mergulhado na penumbra. Mas uma coisa era certa: aquilo não era só um sonho comum. Era intenso demais, real demais. Como se tivesse vivido aquilo em outra realidade. E o pior... ainda sentia desejo. ---- ---- ---- ---- O sol da tarde não perdoava. Elisa caminhava em direção à escola com os olhos semicerrados e a alma meio fora do corpo. A noite maldormida deixara marcas visíveis. Cada passo parecia pesado, como se o sonho da madrugada ainda colasse nela como um lençol molhado. Na entrada, Bia a aguardava encostada na mureta, tomando um suco em caixinha com cara de quem não tinha um problema no mundo. — Credo, Elisa! — exclamou, assim que a viu de perto. — Que olheiras são essas? Parece que passou a noite em vigília! — Foi quase isso — respondeu Elisa, soltando um suspiro arrastado. — O que aconteceu? — Bia a acompanhou pelo corredor, curiosa. — Tive um sonho… estranho — começou, hesitante. — Muito real. Daqueles que você acorda e acha que ainda tá dentro. Bia arqueou uma sobrancelha. — Estranho tipo… “caí pelada no meio da sala de aula” ou estranho tipo “acordei suada, com o coração disparado e um certo alguém na minha mente”? Elisa desviou o olhar, ruborizada. — Melhor a gente não entrar em detalhes... — Ah, então foi o segundo. Tô ligada. — Bia deu uma risadinha marota. — Conta mais. Sonhou com quem? — Esquece, Bia. Só sei que depois não consegui mais dormir. E tô assim, parecendo que fui atropelada por um caminhão de sensações. Elisa estava tão distraída contando que não viu quando virou o corredor e esbarrou direto no peito de alguém. Um impacto súbito, firme, quente. — Me desculpa, eu— — começou a dizer, até levantar o olhar e perceber que era ele. Professor Rafael. O mesmo do sonho. Com a mesma expressão que ele olhava para ela. Só que agora, real. Real demais. Os olhos dele encontraram os dela com intensidade. Por um segundo, foi como se o tempo parasse, de novo. A respiração dela falhou, e um calor estranho percorreu sua espinha. Rafael estreitou levemente os olhos. — Dormiu bem, Elisa? O mundo girou. Ela sentiu as palavras subirem na garganta antes de pensar. — Isso não é da sua conta — disparou, mais ríspida do que queria. Ele franziu a testa. — Peço que tenha mais respeito, Elisa. Eu sou seu professor, e você precisa lembrar disso. — E o senhor precisa parar de se meter onde não foi chamado — rebateu, com os olhos faiscando. O silêncio entre eles ficou tenso. A atmosfera pareceu mais densa. Bia, atrás, arregalava os olhos, assistindo à cena como se fosse uma novela ao vivo. — Essa conversa termina aqui — ele disse firme, com a voz mais baixa e controlada. — Entre na sala. Elisa virou as costas sem dizer mais nada e entrou com passos duros, tentando ignorar o formigamento que sentia no corpo inteiro. Quando sentou, sentia as bochechas queimarem. Bia não perdeu tempo. Se aproximou, segurando o riso. — Menina... o que foi isso? — Nada. Ele foi grosso, só isso. — “Dormiu bem, Elisa?” — repetiu Bia, imitando o tom dele e dando risada. — Ele falou isso com uma cara de quem sabia que tava no teu sonho! Tá maluco? Não me dia que o sonho que você teve foi com ele? E se ele sonhou com você também. — Cala a boca, Bia. Você fala de mais! — Não vou calar. Eu senti daqui, foi tensão s****l. Aquilo ali não é só birra. É tensão. Daquela que dá vontade de pegar e resolver. — Para, pelo amor de Deus. — Amiga, cês dois tão precisando t*****r, desculpa. Tô sendo real. Essa energia não mente! Elisa quase caiu da cadeira de tanto rir e se esconder de vergonha. — Você é louca. — Louca, mas não cega. E só tô falando o que todo mundo que passou no corredor pensou. Elisa tentou se concentrar. Tentou. Mas as palavras de Bia martelavam na cabeça como verdades que ela mesma não queria aceitar. O pior de tudo era: Bia estava certa. A tensão estava ali. Viva. Palpável. E talvez, em algum nível, os dois soubessem disso.
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