Capítulo 7

1338 Words
O som da porta se abrindo ecoou na sala iluminada pela luz suave da manhã. O cheiro de pão na chapa ainda pairava no ar. Ângela virou o rosto e sorriu ao ver Gabriel entrando. — Ei! — saudou, animada. — Você demora demais pra chegar. Gabriel ergueu uma sobrancelha, deixando a mochila escorregar pelo ombro. — Não sei se você tá acostumada, mas ônibus param pra outras pessoas subirem e descerem. Sabia? — Engraçadinho... — Ângela riu e se aproximou, esticando o rosto para um beijinho rápido. Antes que os lábios se tocassem, uma voz masculina os interrompeu. — Ei, jovens! — Reinaldo vinha descendo as escadas, arrumando a gola da camisa polo. — Vamos com calma aí. Gabriel recuou ligeiramente, sem graça. — Desculpa, seu Reinaldo. — Tô brincando! — Reinaldo deu uma gargalhada sincera diante do constrangimento do rapaz. — Já fui jovem também. Estão namorando? Os dois se entreolharam e negaram ao mesmo tempo, quase coreografados. — Só... nos conhecendo. — Ângela respondeu, ajeitando o cabelo atrás da orelha. — Ah, esses jovens de hoje se conhecem de um jeito bem moderno. — Reinaldo sentou-se no sofá, ao lado de Luna, que até então estava quieta, mexendo no celular. — E você, bebê? Tá conhecendo alguém? Luna revirou os olhos, mas sorriu. — Por favor, né, pai? Se tivesse, eu não contava. Os presentes riram, e Reinaldo aproveitou para puxá-la num abraço rápido, dando um beijo carinhoso em sua testa. — Garota rebelde... — Bom, vou indo trabalhar. — Gabriel ajeitou a mochila e se virou para sair. — Com licença. Mas Reinaldo ergueu a voz antes que ele passasse da porta. — Ei! Que pressa é essa? Hoje você não tem nada urgente. Vai “conhecer sua amiga”! — fez aspas com os dedos e deu um risinho malicioso. — Pai! — Luna falou alto demais e corou, cruzando os braços. — Ele tem que trabalhar. — Luna, ele só vai botar a jardineira e ficar sentado no banco do jardim. Gabriel é jovem, tem que namorar! — Você dá mordomias demais pra ele. — respondeu entre dentes, a raiva transbordando mesmo sob o tom calmo. Reinaldo apenas sorriu. — Gosto dele. — Olhou para Gabriel e piscou com cumplicidade. Luna levantou abruptamente do sofá, claramente irritada. — Vamos subir, Melzinha. — Disse às amigas. Subiu as escadas com passos firmes, tentando conter a raiva. Gabriel ficou parado, com o olhar grudado no andar de cima. Ângela teve que cutucar o braço dele para chamar atenção. — E aí? Cineminha? — Pode ser. — respondeu distraído, ainda olhando para onde Luna havia sumido. — Vou tomar um banho. — Beleza. Vou subir e ficar com as meninas até você terminar. No quarto de Luna... A porta bateu com força, fazendo as paredes vibrarem levemente. — Meu pai me irrita! — Luna explodiu, jogando a bolsa sobre a cama. Melissa, que estava sentada no tapete pintando as unhas, ergueu o olhar com calma. — Isso tudo porque ele gosta do Gabriel? Luna andava de um lado para o outro, os braços cruzados e o cenho franzido. — Você acha pouco? Ele me trata supermal e o meu pai... tá nem aí! Fica puxando o saco dele como se fosse da família. — Luna... — Melissa foi direta. — Você gosta dele? A loira parou de andar, como se a pergunta tivesse atravessado seu peito. Olhou a amiga, surpresa. — Quê?! — Riu sem graça e negou com a cabeça. — Você tá mais doida do que aqueles dois, pelo visto. — Sei não... parece que essa implicância toda tem outro nome. — Já falamos sobre isso, Mel. — Luna se jogou na cama e cobriu os olhos com o braço. — Me deixa em paz. Não quero mais conversar. Melissa deu de ombros, voltando ao seu esmalte. — Você que sabe. Alguns meses depois... O calor do sábado deixava o ar pesado e úmido. As janelas estavam abertas, mas quase não havia brisa. A casa parecia suspensa no tempo. Rita havia ido visitar parentes e Gabriel estava sozinho na parte dos fundos, onde o jardim se abria para um pequeno bosque decorativo. Luna caminhava distraída entre as flores recém-regadas, os pés descalços tocando a grama fria, quando o viu sentado no banco de pedra, de olhos fechados, como se quisesse esquecer do mundo. — Não tem mais o que fazer, não? — perguntou em tom ácido, cruzando os braços. Gabriel abriu os olhos lentamente e ergueu as sobrancelhas. — Hoje é sábado. Tô de folga. — Então vai pra sua casa. Ele a encarou por alguns segundos, cansado, sem paciência. — Tá cansada de saber que fico aqui nos finais de semana. Deixa de ser sonsa. — Eu não sou sonsa! — Então tá fingindo que é. — Ele se levantou devagar. — Esse número não te serve, Luna. — Tá me agredindo à toa. — O que você quer, afinal? — Deu um passo em direção a ela. — Eu tava tranquilo aqui. Você veio só pra me provocar? Luna hesitou, mas manteve a pose. — Só perguntei por que você não vai pra casa... ou pra casa da sua namorada. — A Ângela nunca foi minha namorada. Você sabe disso. — Deu de ombros. — A gente se curte, mas não combinamos nada sério. — Mas ela gosta de você. — As bochechas de Luna coraram contra sua vontade. — E gosta bastante. — Impressão sua. A gente já conversou sobre isso. — Relação de maluco, essa de vocês. — E sempre te incomodou, né? — Outro passo. Agora estavam perto o suficiente para sentir o cheiro um do outro. — Por que será? — Porque... — hesitou, o coração disparando — ...você não é homem pra minha amiga. — E sou pra quem? — murmurou, a voz baixa e envolvente. — Pra você? Luna congelou. As palavras queriam sair, mas ficaram presas na garganta. — Eu nunca disse isso... — Mas pensou. — Ele inclinou o rosto levemente, os lábios a centímetros dos dela. O hálito fresco a atingiu, e ela fechou os olhos por reflexo, esperando o beijo que não veio. Abriu os olhos, assustada, ao ouvir a risada dele. — Eu sabia que gostava de mim. — Disse, debochado. — Você não pode brincar com os outros assim! — A voz dela saiu embargada de raiva. — Escroto! — Eu não fiz nada. Só tirei de você uma verdade que vive tentando esconder. — Estalou os dedos. — Agora me diz: a Ângela vai gostar de saber que você quase me beijou? — Você me envolveu com esse seu papinho barato! — Luna gritou, o rosto vermelho. — Eu devia estar fora de mim pra querer um beijo seu! — Deve ser, Luna. — Ele gargalhou com gosto. Sem dizer mais nada, ela virou as costas e correu de volta pra dentro da casa. Gabriel voltou a se sentar, mas agora, os pensamentos estavam cheios do rosto dela. Mais tarde... O telefone vibrou em cima do banco. Gabriel atendeu sem nem olhar. — Oi, linda. A voz do outro lado não veio com doçura. — O que aconteceu entre você e a Luna? Gabriel ficou em silêncio por alguns segundos. — Ela... te falou? — Ela tá chorando. — Ângela parecia nervosa. — Tentou me contar, mas tava soluçando. Não entendi nada. Você pegou pesado? Ele suspirou, passando a mão no rosto. — Ela veio pra cima de mim, Ângela. Eu só devolvi. — Vocês parecem dois irmãos birrentos... — E agora você vai brigar comigo porque eu briguei com ela? — Eu só queria entender... — Nem tenta, Ângela. — A voz dele já não tinha a mesma firmeza. — Mas... vou falar com ela. Também não queria ver a garota chorando. Ângela fez silêncio por um segundo. — Isso aí. Alguém tem que dar o primeiro passo nessa amizade quebrada de vocês. — E completou, num tom mais leve: — Tchau, lindo. Depois me avisa.
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