Capítulo 6

1312 Words
Aline saiu do sofá e estava parada diante da bancada da cozinha, mexendo distraidamente uma xícara de chá, quando Reinaldo soltou a bomba. — Como assim, “gosta”? — Ela virou-se devagar, olhos arregalados. — Agora você exagerou. — Gosta, sim. — Reinaldo deu de ombros, como se falasse da previsão do tempo, e seguiu a esposa até a cozinha. — E aposto que é recíproco, mas nenhum dos dois percebeu ainda. Aline franziu o cenho, largando a colher na pia com mais força do que o necessário. — Reinaldo, pelo amor de Deus! Eu adoro a Rita, mas não quero a Luna namorando o filho dela. — Fez uma careta como se tivesse provado algo azedo. — Ele não é para ela. O marido soltou uma risadinha abafada, acomodando-se melhor na cadeira. — E tem isso agora? — A risada cessou. — Achei que o importante era ser um bom rapaz. — Reinaldo! — Ela se irritou, a voz subindo um tom. — Para de inventar moda. — Aline, quem tem que saber é a Luna. — Ele repetiu o gesto impaciente dos ombros. — A gente não pode escolher de quem os filhos vão gostar. E, convenhamos, o Gabriel é um ótimo garoto: educado, respeitoso, trabalhador, estudioso... Aline revirou os olhos. — E pobre. Reinaldo fez uma careta. — Ah, não faz essa cara! A Luna precisa casar com alguém do meio dela, com o mesmo padrão, a mesma educação. — Casar?! — Ele balançou a cabeça e riu, debochado. — A Luna é jovem, Aline. Tô falando só de dar uns pegas. — Reinaldo! — Ela exclamou, ainda mais indignada. — Isso é coisa que se fale? — Que espanto é esse? — Ele parecia se divertir com a reação da esposa. — Como se ela fosse a primeira jovem a beijar alguém escondido. — Não vou mais conversar com você. — Aline saiu da cozinha pisando firme. Reinaldo, claro, ficou ali, sorrindo sozinho, como se tivesse vencido uma pequena batalha. ** Na manhã seguinte, o aroma de café fresco invadia o hall de entrada, misturado ao cheiro de pão tostado. Gabriel, vestindo o uniforme azul-marinho simples, passava apressado pelo corredor quando cruzou com Reinaldo. — Bom dia, seu Reinaldo. — Cumprimentou educadamente. — Ei! Por que tanta pressa? — Reinaldo segurava uma xícara fumegante nas mãos. Gabriel parou no meio do corredor e olhou o relógio de pulso. — Pra não perder o ônibus. — Sorriu de canto. — Ele passa em menos de dez minutos. — Ora, vá com o motorista. — Reinaldo tomou um gole de café. — Afinal, é o mesmo caminho da Luna. No topo da escada, Luna estava parada, apoiada no corrimão. O rosto sério, observando tudo sem ser notada. Queria saber o que Gabriel responderia. — Não me leve a m*l, seu Reinaldo... — Gabriel ergueu o olhar, firme e respeitoso. — Mas eu prefiro ir a pé do que dividir um carro com a sua filha. Reinaldo gargalhou alto, quase derrubando a xícara. — Achei que essa guerra entre vocês ia durar bem menos. — Não é guerra. Só... prefiro manter distância. — Respondeu com um aceno e saiu apressado pela porta. Luna desceu, só então se revelando. — Bom dia, pai. — Aproximou-se e deu um beijo na bochecha dele. — Tá tudo bem? — Ele a analisou com o olhar experiente de pai. — Parece meio triste. Dormiu m*l? Ela forçou um sorriso e passou os dedos pelo cabelo, desconversando. — Impressão sua. Coisas de mulher mesmo. Tô indo. — Mas você nem comeu nada, filha... — Acordei sem fome. Como algo lá depois. — Mandou um beijo no ar. — Amo você. E saiu, com a bolsa pendurada no ombro e a cabeça cheia. Na entrada da faculdade, o sol já estava alto e a brisa quente agitava os cabelos das alunas que esperavam sob a sombra de uma árvore. Luna chegou com passos firmes, o rosto ainda carregado de pensamentos. — Oi, meninas! — Cumprimentou, parando diante das amigas. — Que cara é essa? — Melissa levantou as sobrancelhas. — Nada. — Bufou. — Vamos? — Espera, o Gabriel ainda não chegou. — Ângela falou com um sorrisinho travesso. Luna revirou os olhos e cruzou os braços. — Só me faltava agora ter que ficar esperando empregado na porta da faculdade. — Resmungou, virando as costas. — Tchau. As duas a observaram se afastar, entrando pisando firme no prédio. — Melissa... você acha que ela gosta dele? — Ângela perguntou em voz baixa. — Dizem que amor e ódio andam lado a lado. — Melissa respondeu, dando de ombros com um risinho maroto. — E o que eu faço? — Cai fora, antes que sobre pra você. — Melissa foi direta, e Ângela pareceu refletir por um segundo. — Ou... — ela sorriu, sapeca. — Me divirto com ele até ele perceber que gosta dela. — Você é maluca! — Melissa caiu na risada. — Vai comprar briga com a Luna. — De jeito nenhum. Se ela diz que não quer, não tem do que reclamar. Gabriel chegou naquele momento, mochila nas costas e passo leve. — Quem é que tá reclamando? — A Luna, talvez. — Ângela respondeu, sincera. — Tava falando disso com a Mel. — Manda ela pra merda. — Gabriel revirou os olhos. — Ela não tem que se meter na nossa vida. — Também não posso mandar minha amiga pra merda, né? — Ângela riu. — Vocês dois nessa guerra... impossível aproveitar alguma coisa assim. — É. — Ele suspirou. — Se você tem alguma esperança... esquece. Não vai rolar. — Vamos pra aula? — Melissa puxou as duas. — Já deu esse assunto. E você, Ângela, sabia bem onde tava se metendo. — Antes... — Ângela olhou pra Gabriel. — Um beijinho? Ele sorriu e puxou a garota pela cintura. Melissa revirou os olhos e seguiu na frente, enquanto os dois riam atrás dela. Mais tarde, no carro, a caminho da casa de Luna... — Vamos lá pra casa hoje? — Luna sugeriu, ajeitando os óculos escuros. — Pegar um solzinho? — Vamos! — Ângela disse, animada. — Ângela... — Melissa zombou. — A Luna disse “solzinho”, não “Gabrielzinho”. — Nossa, Melissa, que ridícula. — Ângela riu. — É claro que eu entendi. — Que bom. Porque lá em casa ele é funcionário. Não vai ficar te dando atenção. — Não vai porque você é chata. — Ângela rebateu, sorrindo. — Se fosse de boa, nem teria problema. — Nos finais de semana, ele se enfia no quarto. A mãe dele vai pra casa, e ele fica lá, trancado. — Ele não vai pra casa dele? O carro encostou na entrada da mansão. — Nunca. — Luna respondeu, como se não se importasse. — Fica no quarto ou no jardim. Raramente sai. Não sei o motivo. Você devia perguntar, já que é a “namorada” dele. As outras notaram o tom venenoso ali. — Não namoramos. A gente se curte. — Ângela respondeu, jogando o cabelo. — Ângela Matos não namora. — Achei que estavam juntos. — Luna, a gente se beijou. — Ela riu. — A gente se pega, só isso. Namorar? Eu, hein! — Pensei que você gostasse dele. — Eu acho ele gostoso. E divertido. — Sorriu. — Mas apaixonada? Nem pensar. Tá cedo pra isso. — Ele sabe disso? — Óbvio. — Ela fez um gesto com a mão. — Ele mesmo deixou claro que não queria relação séria. — Casal perfeito, hein? — Melissa provocou. — Não posso garantir que daqui a dois, três meses não estejamos apaixonados, mas hoje? Com certeza não. — Queria levar a vida com essa leveza. — Luna murmurou, meio pensativa. — Você seria muito mais feliz. — Ângela disse com convicção.
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