Aline saiu do sofá e estava parada diante da bancada da cozinha, mexendo distraidamente uma xícara de chá, quando Reinaldo soltou a bomba.
— Como assim, “gosta”? — Ela virou-se devagar, olhos arregalados. — Agora você exagerou.
— Gosta, sim. — Reinaldo deu de ombros, como se falasse da previsão do tempo, e seguiu a esposa até a cozinha. — E aposto que é recíproco, mas nenhum dos dois percebeu ainda.
Aline franziu o cenho, largando a colher na pia com mais força do que o necessário.
— Reinaldo, pelo amor de Deus! Eu adoro a Rita, mas não quero a Luna namorando o filho dela. — Fez uma careta como se tivesse provado algo azedo. — Ele não é para ela.
O marido soltou uma risadinha abafada, acomodando-se melhor na cadeira.
— E tem isso agora? — A risada cessou. — Achei que o importante era ser um bom rapaz.
— Reinaldo! — Ela se irritou, a voz subindo um tom. — Para de inventar moda.
— Aline, quem tem que saber é a Luna. — Ele repetiu o gesto impaciente dos ombros. — A gente não pode escolher de quem os filhos vão gostar. E, convenhamos, o Gabriel é um ótimo garoto: educado, respeitoso, trabalhador, estudioso...
Aline revirou os olhos.
— E pobre.
Reinaldo fez uma careta.
— Ah, não faz essa cara! A Luna precisa casar com alguém do meio dela, com o mesmo padrão, a mesma educação.
— Casar?! — Ele balançou a cabeça e riu, debochado. — A Luna é jovem, Aline. Tô falando só de dar uns pegas.
— Reinaldo! — Ela exclamou, ainda mais indignada. — Isso é coisa que se fale?
— Que espanto é esse? — Ele parecia se divertir com a reação da esposa. — Como se ela fosse a primeira jovem a beijar alguém escondido.
— Não vou mais conversar com você. — Aline saiu da cozinha pisando firme. Reinaldo, claro, ficou ali, sorrindo sozinho, como se tivesse vencido uma pequena batalha.
**
Na manhã seguinte, o aroma de café fresco invadia o hall de entrada, misturado ao cheiro de pão tostado. Gabriel, vestindo o uniforme azul-marinho simples, passava apressado pelo corredor quando cruzou com Reinaldo.
— Bom dia, seu Reinaldo. — Cumprimentou educadamente.
— Ei! Por que tanta pressa? — Reinaldo segurava uma xícara fumegante nas mãos.
Gabriel parou no meio do corredor e olhou o relógio de pulso.
— Pra não perder o ônibus. — Sorriu de canto. — Ele passa em menos de dez minutos.
— Ora, vá com o motorista. — Reinaldo tomou um gole de café. — Afinal, é o mesmo caminho da Luna.
No topo da escada, Luna estava parada, apoiada no corrimão. O rosto sério, observando tudo sem ser notada. Queria saber o que Gabriel responderia.
— Não me leve a m*l, seu Reinaldo... — Gabriel ergueu o olhar, firme e respeitoso. — Mas eu prefiro ir a pé do que dividir um carro com a sua filha.
Reinaldo gargalhou alto, quase derrubando a xícara.
— Achei que essa guerra entre vocês ia durar bem menos.
— Não é guerra. Só... prefiro manter distância. — Respondeu com um aceno e saiu apressado pela porta.
Luna desceu, só então se revelando.
— Bom dia, pai. — Aproximou-se e deu um beijo na bochecha dele.
— Tá tudo bem? — Ele a analisou com o olhar experiente de pai. — Parece meio triste. Dormiu m*l?
Ela forçou um sorriso e passou os dedos pelo cabelo, desconversando.
— Impressão sua. Coisas de mulher mesmo. Tô indo.
— Mas você nem comeu nada, filha...
— Acordei sem fome. Como algo lá depois. — Mandou um beijo no ar. — Amo você.
E saiu, com a bolsa pendurada no ombro e a cabeça cheia.
Na entrada da faculdade, o sol já estava alto e a brisa quente agitava os cabelos das alunas que esperavam sob a sombra de uma árvore. Luna chegou com passos firmes, o rosto ainda carregado de pensamentos.
— Oi, meninas! — Cumprimentou, parando diante das amigas.
— Que cara é essa? — Melissa levantou as sobrancelhas.
— Nada. — Bufou. — Vamos?
— Espera, o Gabriel ainda não chegou. — Ângela falou com um sorrisinho travesso.
Luna revirou os olhos e cruzou os braços.
— Só me faltava agora ter que ficar esperando empregado na porta da faculdade. — Resmungou, virando as costas. — Tchau.
As duas a observaram se afastar, entrando pisando firme no prédio.
— Melissa... você acha que ela gosta dele? — Ângela perguntou em voz baixa.
— Dizem que amor e ódio andam lado a lado. — Melissa respondeu, dando de ombros com um risinho maroto.
— E o que eu faço?
— Cai fora, antes que sobre pra você. — Melissa foi direta, e Ângela pareceu refletir por um segundo.
— Ou... — ela sorriu, sapeca. — Me divirto com ele até ele perceber que gosta dela.
— Você é maluca! — Melissa caiu na risada. — Vai comprar briga com a Luna.
— De jeito nenhum. Se ela diz que não quer, não tem do que reclamar.
Gabriel chegou naquele momento, mochila nas costas e passo leve.
— Quem é que tá reclamando?
— A Luna, talvez. — Ângela respondeu, sincera. — Tava falando disso com a Mel.
— Manda ela pra merda. — Gabriel revirou os olhos. — Ela não tem que se meter na nossa vida.
— Também não posso mandar minha amiga pra merda, né? — Ângela riu. — Vocês dois nessa guerra... impossível aproveitar alguma coisa assim.
— É. — Ele suspirou. — Se você tem alguma esperança... esquece. Não vai rolar.
— Vamos pra aula? — Melissa puxou as duas. — Já deu esse assunto. E você, Ângela, sabia bem onde tava se metendo.
— Antes... — Ângela olhou pra Gabriel. — Um beijinho?
Ele sorriu e puxou a garota pela cintura. Melissa revirou os olhos e seguiu na frente, enquanto os dois riam atrás dela.
Mais tarde, no carro, a caminho da casa de Luna...
— Vamos lá pra casa hoje? — Luna sugeriu, ajeitando os óculos escuros. — Pegar um solzinho?
— Vamos! — Ângela disse, animada.
— Ângela... — Melissa zombou. — A Luna disse “solzinho”, não “Gabrielzinho”.
— Nossa, Melissa, que ridícula. — Ângela riu. — É claro que eu entendi.
— Que bom. Porque lá em casa ele é funcionário. Não vai ficar te dando atenção.
— Não vai porque você é chata. — Ângela rebateu, sorrindo. — Se fosse de boa, nem teria problema.
— Nos finais de semana, ele se enfia no quarto. A mãe dele vai pra casa, e ele fica lá, trancado.
— Ele não vai pra casa dele?
O carro encostou na entrada da mansão.
— Nunca. — Luna respondeu, como se não se importasse. — Fica no quarto ou no jardim. Raramente sai. Não sei o motivo. Você devia perguntar, já que é a “namorada” dele.
As outras notaram o tom venenoso ali.
— Não namoramos. A gente se curte. — Ângela respondeu, jogando o cabelo. — Ângela Matos não namora.
— Achei que estavam juntos.
— Luna, a gente se beijou. — Ela riu. — A gente se pega, só isso. Namorar? Eu, hein!
— Pensei que você gostasse dele.
— Eu acho ele gostoso. E divertido. — Sorriu. — Mas apaixonada? Nem pensar. Tá cedo pra isso.
— Ele sabe disso?
— Óbvio. — Ela fez um gesto com a mão. — Ele mesmo deixou claro que não queria relação séria.
— Casal perfeito, hein? — Melissa provocou.
— Não posso garantir que daqui a dois, três meses não estejamos apaixonados, mas hoje? Com certeza não.
— Queria levar a vida com essa leveza. — Luna murmurou, meio pensativa.
— Você seria muito mais feliz. — Ângela disse com convicção.