O som da porta se abrindo ecoou na sala iluminada pela luz suave da manhã. O cheiro de pão na chapa ainda pairava no ar. Ângela virou o rosto e sorriu ao ver Gabriel entrando.
— Ei! — saudou, animada. — Você demora demais pra chegar.
Gabriel ergueu uma sobrancelha, deixando a mochila escorregar pelo ombro.
— Não sei se você tá acostumada, mas ônibus param pra outras pessoas subirem e descerem. Sabia?
— Engraçadinho... — Ângela riu e se aproximou, esticando o rosto para um beijinho rápido.
Antes que os lábios se tocassem, uma voz masculina os interrompeu.
— Ei, jovens! — Reinaldo vinha descendo as escadas, arrumando a gola da camisa polo. — Vamos com calma aí.
Gabriel recuou ligeiramente, sem graça.
— Desculpa, seu Reinaldo.
— Tô brincando! — Reinaldo deu uma gargalhada sincera diante do constrangimento do rapaz. — Já fui jovem também. Estão namorando?
Os dois se entreolharam e negaram ao mesmo tempo, quase coreografados.
— Só... nos conhecendo. — Ângela respondeu, ajeitando o cabelo atrás da orelha.
— Ah, esses jovens de hoje se conhecem de um jeito bem moderno. — Reinaldo sentou-se no sofá, ao lado de Luna, que até então estava quieta, mexendo no celular. — E você, bebê? Tá conhecendo alguém?
Luna revirou os olhos, mas sorriu.
— Por favor, né, pai? Se tivesse, eu não contava.
Os presentes riram, e Reinaldo aproveitou para puxá-la num abraço rápido, dando um beijo carinhoso em sua testa.
— Garota rebelde...
— Bom, vou indo trabalhar. — Gabriel ajeitou a mochila e se virou para sair. — Com licença.
Mas Reinaldo ergueu a voz antes que ele passasse da porta.
— Ei! Que pressa é essa? Hoje você não tem nada urgente. Vai “conhecer sua amiga”! — fez aspas com os dedos e deu um risinho malicioso.
— Pai! — Luna falou alto demais e corou, cruzando os braços. — Ele tem que trabalhar.
— Luna, ele só vai botar a jardineira e ficar sentado no banco do jardim. Gabriel é jovem, tem que namorar!
— Você dá mordomias demais pra ele. — respondeu entre dentes, a raiva transbordando mesmo sob o tom calmo.
Reinaldo apenas sorriu.
— Gosto dele. — Olhou para Gabriel e piscou com cumplicidade.
Luna levantou abruptamente do sofá, claramente irritada.
— Vamos subir, Melzinha. — Disse às amigas. Subiu as escadas com passos firmes, tentando conter a raiva.
Gabriel ficou parado, com o olhar grudado no andar de cima. Ângela teve que cutucar o braço dele para chamar atenção.
— E aí? Cineminha?
— Pode ser. — respondeu distraído, ainda olhando para onde Luna havia sumido. — Vou tomar um banho.
— Beleza. Vou subir e ficar com as meninas até você terminar.
No quarto de Luna...
A porta bateu com força, fazendo as paredes vibrarem levemente.
— Meu pai me irrita! — Luna explodiu, jogando a bolsa sobre a cama.
Melissa, que estava sentada no tapete pintando as unhas, ergueu o olhar com calma.
— Isso tudo porque ele gosta do Gabriel?
Luna andava de um lado para o outro, os braços cruzados e o cenho franzido.
— Você acha pouco? Ele me trata supermal e o meu pai... tá nem aí! Fica puxando o saco dele como se fosse da família.
— Luna... — Melissa foi direta. — Você gosta dele?
A loira parou de andar, como se a pergunta tivesse atravessado seu peito. Olhou a amiga, surpresa.
— Quê?! — Riu sem graça e negou com a cabeça. — Você tá mais doida do que aqueles dois, pelo visto.
— Sei não... parece que essa implicância toda tem outro nome.
— Já falamos sobre isso, Mel. — Luna se jogou na cama e cobriu os olhos com o braço. — Me deixa em paz. Não quero mais conversar.
Melissa deu de ombros, voltando ao seu esmalte.
— Você que sabe.
Alguns meses depois...
O calor do sábado deixava o ar pesado e úmido. As janelas estavam abertas, mas quase não havia brisa. A casa parecia suspensa no tempo. Rita havia ido visitar parentes e Gabriel estava sozinho na parte dos fundos, onde o jardim se abria para um pequeno bosque decorativo.
Luna caminhava distraída entre as flores recém-regadas, os pés descalços tocando a grama fria, quando o viu sentado no banco de pedra, de olhos fechados, como se quisesse esquecer do mundo.
— Não tem mais o que fazer, não? — perguntou em tom ácido, cruzando os braços.
Gabriel abriu os olhos lentamente e ergueu as sobrancelhas.
— Hoje é sábado. Tô de folga.
— Então vai pra sua casa.
Ele a encarou por alguns segundos, cansado, sem paciência.
— Tá cansada de saber que fico aqui nos finais de semana. Deixa de ser sonsa.
— Eu não sou sonsa!
— Então tá fingindo que é. — Ele se levantou devagar. — Esse número não te serve, Luna.
— Tá me agredindo à toa.
— O que você quer, afinal? — Deu um passo em direção a ela. — Eu tava tranquilo aqui. Você veio só pra me provocar?
Luna hesitou, mas manteve a pose.
— Só perguntei por que você não vai pra casa... ou pra casa da sua namorada.
— A Ângela nunca foi minha namorada. Você sabe disso. — Deu de ombros. — A gente se curte, mas não combinamos nada sério.
— Mas ela gosta de você. — As bochechas de Luna coraram contra sua vontade. — E gosta bastante.
— Impressão sua. A gente já conversou sobre isso.
— Relação de maluco, essa de vocês.
— E sempre te incomodou, né? — Outro passo. Agora estavam perto o suficiente para sentir o cheiro um do outro. — Por que será?
— Porque... — hesitou, o coração disparando — ...você não é homem pra minha amiga.
— E sou pra quem? — murmurou, a voz baixa e envolvente. — Pra você?
Luna congelou. As palavras queriam sair, mas ficaram presas na garganta.
— Eu nunca disse isso...
— Mas pensou. — Ele inclinou o rosto levemente, os lábios a centímetros dos dela. O hálito fresco a atingiu, e ela fechou os olhos por reflexo, esperando o beijo que não veio.
Abriu os olhos, assustada, ao ouvir a risada dele.
— Eu sabia que gostava de mim. — Disse, debochado.
— Você não pode brincar com os outros assim! — A voz dela saiu embargada de raiva. — Escroto!
— Eu não fiz nada. Só tirei de você uma verdade que vive tentando esconder. — Estalou os dedos. — Agora me diz: a Ângela vai gostar de saber que você quase me beijou?
— Você me envolveu com esse seu papinho barato! — Luna gritou, o rosto vermelho. — Eu devia estar fora de mim pra querer um beijo seu!
— Deve ser, Luna. — Ele gargalhou com gosto.
Sem dizer mais nada, ela virou as costas e correu de volta pra dentro da casa. Gabriel voltou a se sentar, mas agora, os pensamentos estavam cheios do rosto dela.
Mais tarde...
O telefone vibrou em cima do banco. Gabriel atendeu sem nem olhar.
— Oi, linda.
A voz do outro lado não veio com doçura.
— O que aconteceu entre você e a Luna?
Gabriel ficou em silêncio por alguns segundos.
— Ela... te falou?
— Ela tá chorando. — Ângela parecia nervosa. — Tentou me contar, mas tava soluçando. Não entendi nada. Você pegou pesado?
Ele suspirou, passando a mão no rosto.
— Ela veio pra cima de mim, Ângela. Eu só devolvi.
— Vocês parecem dois irmãos birrentos...
— E agora você vai brigar comigo porque eu briguei com ela?
— Eu só queria entender...
— Nem tenta, Ângela. — A voz dele já não tinha a mesma firmeza. — Mas... vou falar com ela. Também não queria ver a garota chorando.
Ângela fez silêncio por um segundo.
— Isso aí. Alguém tem que dar o primeiro passo nessa amizade quebrada de vocês. — E completou, num tom mais leve: — Tchau, lindo. Depois me avisa.