Capítulo 3

941 Words
— Luna — Reinaldo bateu à porta logo depois que Gabriel saiu do seu escritório. — Abre a porta. Demorou alguns segundos, até que ela abriu, com expressão fechada. — O que foi? Veio me humilhar mais? — Te humilhar? — Ele franziu a testa, confuso. — Em que momento eu fiz isso? — Mandou eu pedir desculpas pra eles. — Ela fez uma careta. — E isso foi te humilhar? — Cruzou os braços. — Humilhar é o que você faz com a Rita desde que ela entrou nessa casa. — Ela ergueu uma sobrancelha. — Filha, quantas vezes já falei com você sobre isso? — Só que o senhor nunca deixou empregado nenhum falar assim comigo. — Fez bico. — Gabriel tem a sua idade, uma vida difícil, e estava apenas defendendo a mãe dele de um ataque seu. — Ela revirou os olhos. — Acho bom começar a tratar a Rita bem. Ele vai ficar aqui, e eu não vou mandar embora se vocês brigarem. — Você devia me defender, não a ele. — Rangeu os dentes. — Para de ser mimada. — Ele manteve a firmeza. — Isso é pra você aprender a tratar os outros. — Eu sei tratar os outros. — Cruzou os braços. — Não preciso aprender nada. — Luna, se você não melhorar, vou começar a tirar as coisas que você gosta. — Está pegando pesado demais. Vai começar uma guerra comigo. — Eu devia ter começado há muitos anos — encerrou, saindo do quarto sem lhe dar chance de resposta. Luna passou o resto do dia trancada. Tinha marcado de sair com as amigas, mas desmarcou. Estava com raiva do pai, da mãe por não intervir e, principalmente, de Gabriel — aquele intruso que, na visão dela, tinha caído de paraquedas na casa. Os dias passaram, mas a tensão entre os dois não diminuiu. Apenas se encaravam de cara fechada, sem trocar uma palavra. Luna, com medo de represálias do pai, tentou amenizar o tom com Rita, mas estava longe de ser simpática. Naquela tarde, algumas amigas foram até lá para fazer um trabalho da faculdade. Conversavam animadas sobre as últimas fofocas. — Rita! — Luna gritou, e em pouco tempo a empregada apareceu. — Traz pra gente uma limonada e uns biscoitinhos. Rita assentiu e saiu. — Está muito calor hoje, né? — Ângela comentou, fechando o livro. — Não aguento mais ler. A gente podia ir pra piscina. — Mas e o trabalho? — Melissa hesitou. — Ainda temos mais de uma semana. Vai dar tempo. — Ela juntou as mãos, pedindo. — Por favorzinho, eu preciso relaxar. — Vamos então! — Luna bateu palmas, empolgada. — Rita, leva pra piscina! — gritou de novo, mas a mulher não respondeu, porque não tinha ouvido. As meninas subiram, trocaram de roupa e logo estavam na piscina pequena, na varanda do quarto de Luna. — Que demora! — Luna resmungou. — Você pega muito no pé dela — Melissa riu. — Deixa a mulher trabalhar. — Incompetente... Quanto tempo leva pra fazer uma limonada? — revirou os olhos. — Você que é implicante — Ângela defendeu. — Deve ter acontecido algo. — Por mim, meu pai já tinha demitido ela e o filho insuportável dela — bufou, levantando-se. — Vou ver o que aconteceu. — Deixa a mulher trabalhar, Luna! — Ângela insistiu, mas foi ignorada. De roupão, Luna foi até a cozinha e encontrou Rita nas panelas, rindo de algo que Gabriel dizia. — Ah, agora entendi a demora — disse com sarcasmo. — Estava me perguntando quanto tempo leva pra fazer uma limonada. — Já está pronta — Rita largou a colher de p*u e abriu a geladeira. — Levei na sala e não achei vocês. Achei que tinham saído. — Achou. — Luna debochou. — Eu falei que estávamos na piscina. — Me desculpe, mas eu não ouvi. Se tivesse ouvido, tinha levado lá. — Certeza que ouviu e não levou por preguiça — disparou. Rita respirou fundo para não responder, mas Gabriel não se conteve: — Você não aprende mesmo, né, garota? Sempre vai ser essa pessoa arrogante. — Gabriel! — Rita repreendeu. — Parece que esquece que ela é filha dos patrões. — Com certeza ele esquece. — Luna sorriu de lado. — Já disse que não estou nem aí — ele retrucou. — Quero que trate minha mãe com respeito. — Desde que ela faça o trabalho direito, não teremos problemas — Luna ergueu as mãos, encerrando. — Vou esperar meu suco. Assim que saiu, Gabriel murmurou: — Menininha insuportável... — Qual a graça? — perguntou à mãe, vendo-a rir. — Você leva muito a sério. Não adianta brigar com ela. A vida ainda vai dar um jeito de quebrar essa marra. — E até lá ela pode pisar em você? Não na minha frente — respondeu, saindo para o jardim. Luna voltou para a piscina espumando. — Que ódio daquele garoto! — Que garoto? — Melissa estranhou. — O filho insuportável que a empregada enfiou aqui. Tenho ódio dele. — E o que ele fez? — Ângela se aproximou. — Fala comigo como se fosse do meu nível. Me enfrenta, fala mais alto... Dá vontade de expulsar. — Reclama pro seu pai. Ele sempre te atende — Melissa sugeriu. — Você acha que não falei? — bufou. — Meu pai protege ele. — Luna, você também não é fácil. Se deixar o garoto em paz, ele vai te deixar em paz — Melissa cruzou os braços. — Deve ser... — murmurou, encerrando o assunto. Mas, na cabeça dela, o nome de Gabriel continuava ecoando.
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