Capítulo 1

1057 Words
(Renata Pellegrini) Observando as nuvens, posso igualar o meu humor a elas, cinza. Parece que os dias vão passando e um vai sendo mais estressante que o outro. Preciso melhorar mais nas matérias de cálculo, não quero precisar ir para a prova final. Minha cabeça dói só de lembrar das fórmulas. "Espero não ser roubada" - penso enquanto suspiro e coloco os fones de ouvido, a música impossible de James Arthur toca e eu me permito fechar os olhos, apoiando a cabeça na janela do ônibus lotado penso em como as coisas seriam diferentes se meus pais estivessem aqui. O trânsito hoje está como de costume, péssimo! Já são quase seis horas da tarde, e pelo andar da carruagem, só chegarei em casa por volta das sete. Que rotina h******l a minha, levanto as quatro e meia da manhã, e só retorno às sete da noite, tudo isso apenas porque não tenho como comprar nem uma mísera lambretinha para não ter que ficar mofando no ponto do ônibus e ainda é lucro quando consigo voltar sentada, pois sempre vem cheio. Com certeza, só descerei dele às seis e meia, e ainda ando por mais meia hora para poder chegar em casa. "Quero que vença na vida, minha pequena" - são essas palavras que me fazem aguentar essa rotina e não desistir dos estudos: Minha mãe, ela não teve nenhuma oportunidade para estudar, a única coisa que ela conseguia fazer era escrever o próprio nome e demorou a conseguir isso, mas meu pai sempre foi muito paciente. Sinto meu estômago revirando em busca de alguma fonte de energia, fim do mês é sempre muito apertado, mesmo eu regrando desde o início, no fim, sempre sobra muito pouco. Como meus pais morreram com eu sendo menor de idade, minha avó não me deixou ficar em sua casa e fez um acordo comigo, por causa do trabalho de minha mãe, eu tinha um direito de pensão do estado, minha vó não me deixava em um orfanato e em troca, ela ficava com metade do valor da pensão. Ou seja, tenho apenas quinhentos e cinquenta por mês, e graças a Deus não preciso pagar o transporte para ir para a faculdade, eles me deram bolsa e uso esse dinheiro para poder ir e voltar. Apesar de já estar com vinte e quatro anos de idade, ainda recebo pensão, creio que deva ser por causa da faculdade, mas este é o último mês que recebo, semana que vem é a última semana de provas. Preciso me preparar mentalmente, sexta da semana que vem será um dia importante, viajarei para os Estados Unidos e farei a minha primeira entrevista de emprego. Tento ao máximo controlar a ansiedade dentro de mim. Quero muito conseguir a vaga e o salário vai ser muito bom, vou ter a geladeira cheia por mais tempo e melhor, poderei dizer adeus definitivamente a esse lugar h******l. Essa não é a vaga dos meus sonhos, mas ser assistente pessoal do magnata mais rico da atualidade, viria a calhar. Preciso dar graças a minha professora, Juliana Lueni, foi ela quem conseguiu essa entrevista para mim e está pagando a minha passagem. Só espero não desapontá-la, é notável o quanto ela se importa comigo. Além de pagar a passagem, ela também pagou um mês de aluguel para mim. Uma amiga dela, que também trabalha para o Magnata Filippo Valentini, estará me esperando no aeroporto. Não espero que ele me trate bem, nem que tenha compaixão da minha história de vida, talvez eu até seja eliminada por conta da minha origem. Queria poder mentir e colocar que morava em outro lugar, um lugar de luxo no Brasil, mas eu não conheço nem a cidade em que moro. Quando meus pais eram vivos, mas pareciam que viviam foragidos, o máximo que já me levaram para passear foi em uma praia próxima daqui. Filippo Valentini, nas revistas tido como o homem mais bonito de toda a América. O observei em uma foto, ele aparenta não ter menos que um metro e oitenta e cinco centímetros de altura, seus cabelos são pretos como a noite, os olhos de cor âmbar e alguns traçados verdes. Fiquei encantada com o olhar desse homem. Dava para notar o corpo musculoso por debaixo do terno, seu queixo quadrado e sem um único fio de barba. Não dá para mentir, esse homem é muito bonito. Mas isso não me enche os olhos, com certeza ele é como todos os outros. Um arrogante b****a! O solavanco do ônibus me faz voltar a realidade, me espremi entre os demais passageiros e desço dessa lata velha. É um descaso tão grande com os moradores daqui, o ônibus parece que vai cair aos pedaços e nada dos políticos darem um jeito. - A chica ta de volta. Reviro os olhos, sempre que volto Gaguinho está olhando o ponto de ônibus, ele é um olheiro, mas não entendo qual é prazer que ele tem de ficar me abusando, ele não deve gostar do fato de eu poder ter duas nacionalidades. Nunca o respondi, ou sequer dirigia palavras além do necessário para ele. - Boa noite! - cumprimento sem olhá-lo. - Por que não me olha nos olhos, mina? Tá se achando melhor que eu, é? - ele fala mais alto. Suspiro cansada, por que todo santo dia tem que ser provação atrás de provação na minha vida? Quando vou poder ter uma vida tranquila? - Não é isso, mas nada de bom vem em quem se envolve com coisas erradas - respondo sem olhar para trás e sigo meu caminho. As pessoas aqui me acham metida, mas meu pai sempre me disse para não confiar em ninguém e nunca falar mais que o necessário. As pessoas gostam de fazer m*l para as outras. E eu já vi tanta gente boa se dando m*l por causa de gente r**m. Não quero ser uma delas, por isso não faço amizade com ninguém aqui. No mundo, é eu por eu. E Deus por todos. Finalmente chego em casa, tomo um banho rápido e vou ver o que ainda tem dentro do armário. Ainda tem um pacote de cream- cracker, vou dividi-lo no meio, aí tomo café agora de noite e amanhã antes de sair. "Só mais uma semana" - falo mentalmente e cruzo os dedos. >>> Uma semana depois:
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