Capítulo 2

1524 Words
( Juliana Lueni - Brasil ) Chego em casa e o telefone fixo toca, atendo e sinto meu corpo tremer ao ouvir a voz dele, grave e arrogante. Saudade de ouvir sua voz gemendo baixinho. - Ela já embarcou? - Sim, acabei de voltar do aeroporto - esclareço, enrolo meu dedo no fio do telefone e mordo meu lábio inferior - Quando a gente vai poder se ver de novo… - Bom trabalho - ele desliga o telefone. Grosso do caraí! Por que os caras mais gostosos tem que ser tão arrogantes? Enfim, vida que segue, só pude ter ele na minha cama uma única vez. E essa vez foi suficiente para esse desgraçado saber tudo sobre minha vida e me ter nas palmas da mão. Desgraçado! Me obrigou a virar professora naquela m***a de faculdade só para me aproximar dessa garota. A atriz que mora dentro de mim merece ser aplaudida, suportar aquela favelada tão próxima de mim foi sufocante demais, só de sentir o cheiro dela me dava enjoo. Durante um semestre inteiro tentei entender o que ela tinha para conseguir chamar a atenção daquele homem, mas não conseguir descobrir nada. Como uma faveladinha como ela conseguiu ganhar a p******o daquele demônio em forma de gente? O que será que ela tem de tão especial? Ou… Será que ela é uma mercadoria? (Renata Pellegrini - Estados Unidos) - Você vai se sair bem - Carol tenta me passar confiança. - Obrigada por tudo, senhorita Carol - agradeço mais uma vez, mesmo que eu não consiga passar na entrevista, o que ela e a minha professora estão fazendo por mim, não consigo encontrar uma maneira digna de agradecer. - Não esqueça de respirar, está bem? - Por que eu me esqueceria disso? - pergunto confusa. - Na hora você vai saber - pisca e caminha para longe de mim, me deixando na frente desse enorme prédio. As cores azuis dominavam, m*l se podia ver as partes de metal, o vidro espelhado cobria tudo como se fosse um lençol, com certeza aqui tem mais de quinze andares. Respiro fundo, não tem nem duas horas que eu pisei em terra firme e já sinto como se estivesse me afogando. Do aeroporto até o apartamento - no carro - levou trinta minutos, só tive tempo de tomar um banho, vestir as roupas sociais e pentear o cabelo em um r**o de cavalo ( a senhorita Carol que disse para arrumar o cabelo dessa maneira, ela disse que o patrão gosta assim). Queria que meus pais estivessem vivos, queria muito poder trazê-los comigo, dá uma vida melhor para eles. Queria muito vê-los sorrindo, nem que fosse só mais uma vez… "Não é hora de ter pensamentos tristes!" - bato em minhas bochechas e estufo o peito, agora é hora de ter coragem. Abro as portas e seguro firme as alças da minha bolsa, preciso encontrar com o gerente e entregar a carta de recomendação a ela, a minha professora me disse que assim que eu entregasse, estaria praticamente contratada, era só eu dizer o nome do amigo dela: Matteo Valentini. Será que esse homem é algum parente do Filippo? Eles têm o mesmo sobrenome, mas eu nunca encontrei nada sobre esse Matteo. Não importa, apenas quero ser contratada, e se este nome irá me garantir isso, que assim seja. Entro no edifício, por dentro é bem mais luxuoso que por fora, preciso me controlar, esse ambiente agora vai ser o meu local de trabalho, tenho que tratá-lo como se fosse um lugar qualquer. Caminho até o balcão, minhas pernas estão moles, mas à medida que vou me aproximando, meu maxilar vai ficando mais rígido. - Como pode ser tão incompetente, sua i*****l… - Bom dia! - interrompo a moça loira que me olha de cima a baixo. - Quem é você? - pergunta, consigo ler em seu olhar que ela pensa que alguém como eu, não deveria sequer pensar em pisar ali - Por acaso está perdida? Sabe que aqui é a Computing Diamond? Me seguro para não revirar os olhos, que raiva ser tratada assim, até no Brasil as pessoas me olhavam assim, por que será que pensei que aqui seria diferente? - Sou Renata Pellegrini, vim para… - Ah sim, Carol me falou que você viria para cá. Então deve ser ela a gerente desse lugar, não gostei dela, mas o que posso fazer? Aceitar e torcer para ser contratada, não tenho nem cinco centavos no bolso, imagine algum dólar. - Que bom que já estava ciente da minha chegada… - Não só a sua, outras pessoas também foram comentadas que estariam aqui hoje. Que mulher grossa, para que ser assim? Respira Rê, você precisa desse emprego, e eu já deveria estar acostumada a lidar com pessoas assim. - Entendo, imagino então que saiba que vim aqui para a entrevista do cargo de… - Vá embora. - Quê!? - pisco meus olhos em confusão. - Por um acaso é s***a? Você não está a nível de trabalhar aqui, olhe só para suas roupas, nem uma maquiagem você sequer colocou. Volte para o lugarzinho de onde você saiu. - Por favor, não faz isso, eu vim de muito longe, foi me dito que eu já estava praticamente contratada, que a entrevista iria ser apenas uma formalidade, eu larguei tudo o que tinha para vim aqui, por favor, me dá uma chance, prometo que não vai se arrepender! - falo tudo de uma vez só, meu coração bate descompassado por dentro do meu peito. Pressiono minha língua no céu da boca, não posso chorar aqui, não na frente de todas essas pessoas. Eu tinha a noção que talvez não fosse aceita, mas jamais passou pela minha cabeça que eu sequer chegaria a fazer a entrevista. Se fosse lá no Brasil, eu com certeza não iria me humilhar assim, lá querendo ou não, eu tinha uma casa para voltar e poderia procurar emprego em outro lugar, mas aqui, eu não conheço nada e o teto só está garantido por trinta dias. Ela me observa com um sorriso m*****o no rosto, sob seu olhar me sinto inferior, como alguém pode ser tão prepotente? - Então você está disposta a aceitar qualquer serviço? Estou? Eu vim aqui para me tornar assistente pessoal do Filippo, mas pelo andar da carruagem, não vou nem mais colocar o pé aqui amanhã, melhor eu aceitar o que tiver disponível, não quero passar fome. - Sim - não consigo esconder a decepção na minha voz, preciso urgentemente aprender como não deixar meus sentimentos evidentes. - Muito bem, tem uma vaga de faxineira aberta, se quiser ela é sua. Que grande porcaria! Não quero desmerecer quem trabalha com faxina, até porque de certa forma a empresa só funciona porque eles limpam o ambiente, mas é que eu estudei tanto para conseguir um bom emprego, e no fim eu irei acabar como uma simples faxineira. Não importa o que me digam, isso é frustrante, eu queria trabalhar em frente a um computador, e não limpando privadas. - Quero sim - responde - Quando eu começo? - Agora mesmo, venha comigo. A sigo, andamos até o final de um corredor, paramos em frente a uma porta de alumínio, bem, parece que nem tudo é tão luxuoso. - Aqui fica o vestiário dos funcionários da staff. Nunca pensei que um dia ouviria esse termo, mas enfim, agora sou apenas uma servente, não fiquei com um cargo de liderança, como o de gerente, por exemplo. Ela entra e eu entro logo atrás, abre a porta vinte e três e me entrega a chave do armário. - O uniforme que está aqui é do tamanho P, deve caber em você, vamos se vista logo. Vou até o armário e pego as roupas: jaleco verde, avental branco com dois bolsos frontal, calça no mesmo tecido que o jaleco. Não sei dizer que tecido é, mas não é um tecido grosseiro. - Ah, eu não disse o meu nome, eu sou Verônica. - É um prazer conhecê-la… - estendo minha mão por educação, mas ela revira os olhos. - Vamos ao que interessa, ontem a noite, o senhor Valentini me mandou limpar a sala dele, como pôde ver estávamos com falta de faxineiros. Ele ainda não chegou pois está em uma reunião fora da empresa, quero que limpe a sala dele corretamente antes dele chegar, não mexa em absolutamente nada e esteja fora daquela sala quando ele chegar, e quando ele passar por você abaixe a cabeça e nunca o olhe nos olhos, fui clara? - Sim senhora. Ah que ódio, como eu queria dar umas pauladas na cara dessa mulher desgraçada. - Ótimo, ali está o material que usará - ela aponta para outra porta de alumínio - Use o elevador dos faxineiros e vá logo, você tem apenas quarenta minutos. Ela sai e me deixa sozinha no vestiário, espero que o destino não tenha guardado mais nenhuma surpresa negativa para mim. Pego os materiais e sigo para o elevador, eu esqueci de perguntar qual era o andar do senhor Valentini, vou apertar no último botão, seja o que tiver de ser.
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