Laila
Depois que voltei para minha baia no trabalho, o restante do dia passou voando e antes que eu me desse conta já havia se encerrado meu primeiro dia de trabalho. Juntei minhas coisas e quando passei pela Tatiana na recepção, ela também estava saindo, então descemos juntas, e fomos caminhando rua abaixo já que ela ia passar numa loja de celulares antes de pegar um táxi para casa.
Descobri também que a Tatiana morava apenas algumas quadras do apartamento do Jávier, o que era bom. Percebi que talvez fosse bom fazer também uma amizade feminina. Eu nunca tive muitos amigos, eu sempre fui uma pessoa desconfiada e difícil de confiar em alguém e por causa disso muitas pessoas que chegaram a se aproximar se afastaram de mim. Mas eu não conseguia mudar isso em mim, pelo menos não sozinha. Por muito tempo eu frequentei a terapia para lidar com o sentimento de abandono, a falta de auto estima, confiança e também para lidar com tudo que eu tinha passado na adolescência, mas depois de um tempo eu tive que parar de fazer, com a faculdade, os estudos, o emprego meio período que eu tinha num restaurante, não sobrou tempo para cuidar do meu emocional. Mas eu não iria pensar nisso agora, todas às vezes que eu começava a entrar por esse caminho de lembranças, meus pesadelos voltavam e eu queria eles bem presos no fundo da minha mente.
— Você conhece alguma loja onde venda móveis com um presso acessível? — Pergunto para ela quando dobramos na esquina.
— Sim, tem a Maison, tem móveis bem em conta lá, por que? É aqui, a loja de eletrônicos, vamos entrar. — Ela diz. Entramos na loja e ela começa a ver alguns modelos.
— Bom, porque eu me mudei para o apartamente de um amigo ontem e no quarto onde vou morar não tem basicamente nada a não ser um colchão inflável. Essa loja fica muito longe daqui? — Ela torce o nariz quando falo do colchão inflável.
— Meu Deus então precisamos comprar urgentemente uma cama para você. Ninguém merece dormir nesses colchões infláveis, acabam com a nossa coluna.
— Nem me fale, hoje eu já acordei sentindo as primeiras consequências de dormir naquele colchão.
— Saindo daqui podemos passar na Maison, não é muito longe daqui. Tenho que dizer Laila, estou feliz que você tenha começado a trabalhar na Carter. Eu estava mesmo precisando de uma companhia feminina da qual eu me identificasse e você parece que a gente vai se dar bem. — Ela diz com um sorriso gentil.
— Seria ótimo. Eu também gostaria que nos déssemos bem. — E era verdade, eu precisava me esforçar para me relacionar mais com outras pessoas ou passaria boa parte da vida sozinha. Eu não queria isso, mas não era fácil. Eu sempre precisava lutar contra mim mesma para deixar que pessoas se aproximassem, para me forçar a sentir a vontade em volta delas. Como meu terapeuta repetiu incontáveis vezes para mim, " eventos traumáticos não definem você", Eu tentava repetir isso como uma mantra na minha própria mente. Como se por muito repetir, isso passe a se tornar uma verdade na minha vida. Deus, como eu queria que de fato isso se tornasse verdade.
— Laila? — Volto a mim quando escuto a Tatiana me chamar. Ela me olha confusa. Ela já tinha comprado seu novo celular e eu não tinha percebido, o tanto que me distraí dentro dos meus próprios pensamentos.
— Oi me desculpe. É que, tem acontecido muitas coisas ao mesmo tempo em minha vida.
— Tudo bem, eu entendo.
— Vamos? — Digo antes que ela possa perguntar mais.
— Claro, a loja é no próximo quarteirão.
Já começava a anoitecer e o tempo ainda estava ameno, embora eu já começasse a sentir a brisa um pouco mais fria. Conforme fomos descendo a rua, passamos por uma enorme academia, vi que tinha vários tipos de atividades físicas e também lutas. Fiz uma anotação mental para passar para conhecê-la outro dia com mais calma. Seria bom praticar um pouco de atividade física, eu amava correr e também praticar outros tipos de exercícios, me ajudava a dormir melhor. E quanto a luta, era sempre bom aprender a se defender, talvez até me desse um pouco mais de confiança após tudo que passei.
— É aqui.— Tatiana diz finalmente quando paramos em frente a uma loja muito grande, bem iluminda e com todos os tipos de móveis.
— Excelente, parece que tem bastante variedade. Vem, vamos entrar. — Digo e ela me segue. Realmente tem móveis de quarto de todos os preços. Desde os mais caros que tinham qualidade excelente, quanto os mais baratos que tinham uma qualidade bem inferior. Já que eu não tinha como ainda comprar os móveis de melhor qualidade, optei por os de qualidade mediana. Escolhi uma cama de casal, um guarda-roupa e uma mesa de cabeceira, todos em tom de branco. Eu tinha o pensamento de depois comprar alguns itens de decoração, eu ia deixar meu quarto com o meu jeito, ele ficaria o mais aconchegante possível. Fui para o setor de pagamento e parcelei os móveis em algumas vezes, assim me sobraria algum dinheiro para mais tarde comprar alguns dos itens de decoração. Eles ficaram de entregar os móveis em dois dias e para mim esse prazo estava mais do que bom. Saí da loja com a Tatiana ao meu lado e me senti realizada com mais uma conquista minha. Dividimos o táxi já que íamos para o mesmo lado e enquanto estávamos no carro, trocamos números de telefone e quando eu soltei do táxi deixei ela com minha parte da corrida e ela seguiu até a sua quadra. Quando cheguei ao apartamento por volta das sete da noite Javier ainda não tinha chegado, então resolvi tomar um banho e ver algo para que nós comêssemos. Não tinha muita coisa na geladeira, eu teria que falar com o Javier para fazermos compras em muito em breve, mas hoje como minhas opções era escassas, fiz espaguete a bolonhesa e teria que servir. Quando terminei fiquei satisfeita com o resultado, ficou uma delícia.
Por volta das dez da noite eu estava na sala vendo uma série, quando o Javier entra.
— E aí Gata? — Ele dá um beijo na minha testa e se joga no sofá ao meu lado.
— Tudo bem? Você parece cansado. — Digo olhando seu rosto.
— Eu me sinto cansado. Trabalhei das dez da manhã as nove da noite.
— Está pensando em ficar rico? — Falo brincando e ele sorri.
— Você me conhece, sempre penso nisso.
— Está com fome? Fiz macarrão a bolonhesa. — Seus olhos brilham com isso.
— Ah, eu te amo. Você está lá no topo das minhas pessoas preferidas. — Ele diz já se levantando para ver as panelas na cozinha. Desligo a tv e vou atrás dele.
— Só por causa da comida? — Digo fingindo uma falsa indignação.
— Gata, se você não tivesse aqui e não tivesse feito essa comida que parece estar divina, eu provavelmente estaria comendo um pedaço de pão e tomando um copo de leite antes de ir para cama. — Começo a rir com sua cara desolada.
— Bem, considere-se com sorte então.— Ele assente.
— E como foi o primeiro dia de trabalho? — Penso em tudo que ocorreu, por mais estranho que pareça a primeira coisa que veio na minha cabeça foi aquele par de olhos azuis naquele rosto irritantemente bonito do Théo. Só de pensar em seu nome, eu sentia uma onda de calor correndo por todo o meu corpo exatamente como nas duas vezes que o vi.
— Foi tudo bem. Consegui comprar os móveis para o quarto, devem chegar em dois dias. — Ele assente ainda mastigando.— E você acredita que quando estávamos na boate aquele dia, eu vi o homem mais bonito que acho que já vi na vida?
— Devo me sentir ofendido? Achei que esse cara era eu. — Ele diz me olhando.
— Ah você sabe que é lindo também, mas é como um irmão para mim. Esse cara mexe comigo de um jeito que não sei explicar. — Ele agora parece estar mais interessado.
— Ah é? Isso é bom não é? Não vi muitos caras que conseguem esse tipo de reação de você, você sabe... Desde que... Bem... — Ele claramente pausa antes de entrar num campo minado para mim. — Bem, acho que o Noah mexeu um pouco com você... Mas antes disso não vi nenhum. — Noah era um ex meu, Javier estava certo ele mexia comigo um pouco, mas não deu certo pelo mesmo motivo de sempre, eu não conseguia me entregar e confiar totalmente nele.
— Sim o Noah mexeu um pouco comigo, mas acredite em mim, não é nada comparado ao Théo.
— Théo? O tal cara? E já até sabe o nome dele? Não vi você ficando com ninguém na boate.
— E não fiquei, eu só tropecei nele na saída do banheiro e bem, senti todo o meu corpo atraído para ele desde aquele momento. Mas não trocamos nenhuma palavra naquele dia, quer dizer, nada além do meu pedido de desculpas.
— Uau! Mas então por que está falando dele só agora?
— Por que encontrei com ele hoje quando comprava café numa caferia ao lado do meu trabalho.
— Está brincando! — Dou um sorriso.
— Não, mais uma vez esbarrei nele enquanto pagava meu café e ele me segurou, só que dessa vez se apresentou e disse que seu nome era Theodoro, Theo para os íntimos. E disse mais, ele disse que queria que eu fosse íntima dele. — Javier ri.
— Bem direto ele. Gostei.
— Não sei, achei direto demais. Eu não sei, ele tem uma aura dominante e ao mesmo tempo instigante, ele me intimida um pouco e me deixa excitada ao mesmo tempo.
— Já quero conhecê-lo. Nunca vi você falando assim de homem nenhum e olha que ja te conheço a quase uma vida.
— Não sei se o verei de novo, mas talvez seja melhor não.
— Besteira, eu espero que o encontre logo, você precisa de alguém que atravesse essa estrutura que você montou em volta de si.
— Não quero ninguém fazendo isso Javier. Me sinto bem e segura assim.
— Mas assim você nunca vai ser cem porcento feliz não é? Sem confiar e se entregar a alguém. — Não digo nada. Eu não sabia o que poderia dizer também. E daí que eu me protegia excessivamente? Eu tinha motivos para isso. Tudo que eu queria era me sentir segura, não há m*l nisso. Porque eu sabia muito bem como era não se sentir dona de si mesmo, de ter a vontade de outro sobre a sua. Eu não poderia lidar com isso. Eu não poderia.