Tom
Eu nunca fui tão grato pelos anos que fui ensinado a reprimir as minhas reações. Porque estou fervendo em um ódio assassino por dentro, mas eu sei que as minhas feições estão cobertas de desinteresse.
Ela mudou.
Está completamente diferente da menina que roubou o meu coração.
Ela é uma mulher segura e dona do próprio nariz e graças a Deus terá o próprio banheiro, porque duvido muito que eu conseguiria deixar de bater no meu time inteiro, se algum deles cruzasse com ela no corredor.
Respiro fundo, e agradeço mais uma vez, porque ela parece ter dormido.
Me permito relaxar e viro o olhar na direção dela.
E a minha memória não faz jus à beleza da garota ao meu lado.
Ela consegue estar ainda mais linda. Uma beleza crua, completamente sem maquiagem ou cabelo elaborado… Ela continua a vontade na minha presença e por isso dorme profundamente e me pergunto quanto ela dormiu nos últimos dias?
Sou inundado de dúvidas sobre os últimos anos da vida dela e me vejo traçando planos para arrancar cada segundo da linda boca dela.
Ahhh Mia, porque você ainda mexe tanto com a minha cabeça, desgraçä?
Mesmo depois de tanto tempo e tantas outras mulheres. Eu continuo em busca do que eu senti com você.
Ouço ela suspirar em meio ao sono, e me dou conta que falta metade do caminho.
Quando será que ela comeu da última vez?
O senhorio do hotel me disse que ela estava lá a quase 4 dias e pegou apenas salgadinhos.
As olheiras dela e os olhos vermelhos me contam mais do que eu gostaria de saber - que os últimos dias dela foram um inferno - e assim que vejo uma parada na estrada, dou seta.
Estaciono na conveniência do posto e com a ajuda da luz do lugar, me permito olhar para ela por vários minutos. Ela continua com a mesma expressão de anjo, linda e proibida para mim.
- Mia? - Chamo, com o máximo de delicadeza que consigo.
Ela não se mexe.
- Mia? - Toco seu ombro, mexendo de leve e ouço ela resmungar. - Mia? - Vejo quando ela se assusta e se arruma no banco, olhando em volta. - Calma, sou eu. - Ela pisca na minha direção e vejo o rosto dela se cobrir de vermelho.
Estava sonhando comigo, Tormento?
Seguro a pergunta na garganta e falo outra coisa completamente diferente.
- Uma pausa. Banheiro, café e comida. - Ela pisca, ainda confusa, e quase consigo ver nos olhos dela, os pensamentos confusos.
- Não estou com fome. - Ela responde baixinho.
- Mentira. - Determino. - Salgadinhos não são comida, e você está vivendo disso há 4 dias.
É a surpresa na expressão dela que me faz saltar do carro e dar a volta para abrir a porta dela.
- De qualquer forma, a Lúcia mandou o seu bolinho favorito. - Solto o cinto dela e estendo a mão. - Vamos pegar um café quente e comemos no carro. - Ela olha para a minha mão, ainda em choque.
- O bolinho de queijo? - Estou sorrindo, porque sei que consegui a sua atenção.
- E o de vento. - Completo e os olhos dela brilham com intensidade, antes do meu tormento abrir o primeiro sorriso que eu vejo em anos.
Um sorriso para mim. Apenas para mim!
Ela segura na minha mão, antes de saltar do carro, com o sorriso ainda no rosto e eu bato a porta.
- O de sempre? - Pergunto, apenas para testar o quanto eu ainda conheço sobre ela.
- O de sempre. - Ela confirma. - Vou ao banheiro e nos vemos já. - Eu também estou sorrindo, porque de alguma forma, a presença de Amélia Dalton sempre causou esse tipo de reação em mim.
E talvez por isso eu tenha a fama de amargurado por todo o campus.
Porque ela nunca esteve lá. Até agora.
Enquanto espero o café latte dela e o meu preto, penso sobre isso.
Eu vou ver Amélia Dalton todos os dias. Não apenas na faculdade, mas na minha casa. Em todas as manhãs, em todas as noites, nas festas… Ainda sinto os meus olhos arregalados quando seguro os dois copos na mão e me concentro no calor deles, enquanto observo o meu tormento caminhar tranquilamente na minha direção. Como se a presença dela não fosse fazer o meu mundo ruir, um dia de cada vez.
Ela sorri mais uma vez quando estendo o copo para ela.
- Obrigada! - A voz dela é nada mais do que um fio, enquanto voltamos para o carro.
Não falo nada, enquanto ela tira do embrulho o lanchinho que a Lúcia providenciou para nós, mas quando ela abre o embrulho com os bolinhos favoritos dela, o ar parece parar ao meu redor.
Ela está sorrindo daquela forma que ilumina as feições dela.
Exatamente como a garota que eu me lembro e que me estragou para qualquer outra mulher no mundo.
- Por favor, agradeça a Lúcia, por mim. - Ela pede, antes de morder o bolinho.
Sinto o meu corpo responder assim que ela solta um gemidinho ao sentir o sabor.
CARALHÖ EU VOU MORRER.
- Mandarei lembranças. - Eu respondo, focando nos meus próprios bolinhos e tentando ignorar a garota linda e deliciosa gemendö do meu lado.
- Como ela está? - Ela pergunta antes de morder mais um bolinho, e pelo gemidö que segue, é um bolinho de vento dessa vez.
- Bem… Da mesma forma. - Falo, e sorrio de leve ao pensar nela. - Alguns cabelos brancos a mais, talvez? - Ela meneia a cabeça, como se entendesse. - E a sua mãe? - Ela suspira diante da minha pergunta.
- Você deve saber mais do que eu. - Fico feliz que o tom dela é apenas a constatação de um fato.
- Na verdade, o Mat não fala muito de vocês. - Admito enquanto ela mastiga devagar, antes de beber um longo gole de café.
- Acho que ele não tem informação suficiente para falar. - Ela explica e é outra constatação. - De nenhuma de nós. - Vejo o instante exato que a dor volta aos olhos dela, e as palavras seguintes dela me falam tudo sobre a dor que vejo ali. - Depois que ele se foi, uma parte de nós morreu com ele.
- Eu sei. - Ela me oferece um sorriso triste, porque eu estava lá e vi quando o mundo dela desmoronou. - Mas, me conte de você. - Peço, desesperado para mudar de assunto e tirar a dor dos olhos dela.
- O Matthew pediu para você investigar, né? - Não me ofendo com a acusação.
- Também. - Admito. - E eu também quero saber. - Ela pisca, os olhos cheios de surpresa. - Me fale de você, Mia Bake. - Ela continua em choque, e eu odeio o que fiz com ela, para que a desconfiança esteja sempre no olhar dela. - Afinal, seremos vizinhos… - Ela respira fundo, e parece doloroso.
Ela olha para algum ponto, longe de mim, e eu tento ler cada pequena mudança no rosto dela, mas não vejo nada além de desconfiança e dor. Preciso acalmar os meus pensamentos, que estão avaliando agora se ela leva machucados recentes na pele.
- Eu fui ingênua. - Ela começa e eu seguro qualquer reação. - Me apaixonei, entreguei o meu futuro na mão do cara que parecia pronto para me dar o mundo, tudo o que eu merecia… - A frase queima na minha alma. - E no fim, peguei ele na minha cama com a minha melhor amiga. - Ela completa e eu estou sem palavras.
Estou sem palavras, sim, mas não tem relação nenhuma com o bastardo do Paul.
Estou sem palavras porque ela lembra do que falei naquela noite.
Ela lembra do desejo que queima forte no meu coração até hoje, que deve queimar para sempre.
O desejo dela ter o mundo.
Mesmo que não seja eu capaz de dar isso para ela.