Tom.
Faz 20 minutos que voltei para a rodovia e o silêncio no carro é quase confortável para mim, mas não para ela.
Enquanto dirijo, penso como recuperar o velho Ford para ela, porque de tudo o que ela falou, essa foi a dor mais profunda que ela mostrou. O último vínculo com o senhor Dalton.
A ruginha que surge logo acima do nariz, quando ela luta contra as lágrimas, distorce qualquer razão que eu tenho.
Lembro dela chorando no enterro, se perguntando, porque não deu carona para ele naquela noite trágica. Algo sobre um trabalho…
- Posso colocar uma música? - Ela pergunta, interrompendo os meus pensamentos, e depois de se remexer algumas vezes no banco. O café parece ter tido um efeito forte no organismo dela.
- Fique a vontade. - Falo e em dois minutos a voz da Taylor Swift envolve o carro.
Me forço a revirar os olhos, mas não consigo deixar de sorrir.
- Algumas coisas não mudam. - Ela se defende, sem eu ter dito nem mesmo uma palavra.
- A sua fascinação pela Taylor, por exemplo. - Completo por ela, e ouço a risada leve dela.
Me obrigo a manter os olhos na estrada, porque a última coisa que eu preciso é gravar mais uma imagem dela rindo na minha memória. Já basta ouvir.
- Estamos em Agosto Quarterback, devemos honrar isso. - Ela fala, com uma alegria contida na voz.
E então ela começa a cantar com a Taylor.
E eu volto no tempo imediatamente.
- Salt air and the rust on your door; I never needed anything more; Whispers of: Are you sure?; Never have I ever before [Ar salgado, e ferrugem em sua porta; Eu nunca precisei de mais naa; Sussurros de, "Você tem certeza? ";"Nunca tive antes na vida"]… Canta comigo Tom! - Reviro os olhos de verdade agora, porque ela sabe que conheço a letra inteira.
- Your back beneath the Sun; Wishing I could write my name on it; Will you call when you're back at school?; I remember thinking I had you…[ as suas costas sob o sol; Queria poder escrever meu nome nela; Você irá me ligar quando voltar para a escola?; Eu me lembro de achar que tinha você] - Cantamos juntos, no tempo da música e estamos sorrindo um para o outro.
Enquanto dura a música eu esqueço as implicações de ser completamente obcecado pela garota ao meu lado, mesmo depois de tanto tempo, e me permito imaginar como teria sido se eu não fosse um amigo tão leal.
Ela quase se ajoelha no banco, enquanto se move ao som da batida da música, apontando para cima com as mãos e cantando o final da música, e quase consigo ver a menina doce e alegre que eu quebrei o coração nesse momento.
Ela é proibida.
Ela não pode ser sua.
Você nunca poderá ser o que ela precisa.
Me forço a ignorar completamente qualquer esperança que ameaça romper o meu coração e passo a contar os minutos até em casa.
2 horas e 34 minutos, e ela não parece nem um pouco sonolenta.
Se ela dormir, ficar imóvel, quem sabe eu possa fingir que ela não está aqui, pronta para abalar o meu mundo inteiro, todos os dias.
- E você, como estão as coisas? - Ela pergunta e eu pisco rápido.
- O de sempre. - Ouço ela estalar a língua, uma mania que compartilha com o irmão, mas que é fofo nela.
- Me dê mais informações que isso, quarterback. - Ela pede com humor. - Como estão seus pais? A faculdade? Está namorando…? - Ouço ela hesitar na última pergunta e sinto o sorriso nascer no meu rosto de novo.
É impressionante a facilidade que Amélia Dalton tem de me fazer sorrir.
- Meus pais seguem os mesmos. A empresa está em primeiro, segundo e terceiro lugar. A faculdade está arrancando o meu corro, por causa do time e zero namoradas. - Resumo, mas sei que ela não ficará satisfeita.
Um traço forte da Mia é a curiosidade, e quase consigo ver o brilho da ansiedade nos olhos dela.
- O que você estava fazendo em Chesterfield? - Eu suspiro antes de responder.
- Tivemos um evento beneficente, e eu não pude dizer não.
A verdade é dura, e incrivelmente, sai com facilidade para ela.
- Agora eu entendo o “seguem os mesmos.” - Ela completa, mas não tem nem um pingo de pena na voz dela. Assim como o Mat, a Mia acompanhou a minha vida de perto e sabe da ausência constante dos meus pais. - E você não pode dizer não… ? - Eu respiro fundo.
- A expectativa é que eu assuma os negócios, no próximo ano. - Ela puxa o ar com força.
- Mas, e o futebol? - Eu não consigo segurar a risada, porque o choque dela é notável.
- É um passatempo, segundo o Senhor Bradford. - Explico. - E chegou o momento que cansei de brigar por causa disso. Vou trazer a taça para a universidade esse ano e me aposentar no próximo.
- Mas, você ama o futebol… - A simplicidade que ela coloca nas palavras me faz suspirar.
- Amo, mas o meu destino está decidido desde sempre e eu não tenho poder para mudar.
- Eu discordo. - Ela rebate. - Você é um homem adulto, dono do próprio nariz. Deveria poder escolher entre ficar de terno o dia todo ou jogando draftado em algum time imenso. - Fixo os olhos no meu tormento por uns 10 segundos, porque cada palavra dela queima em mim. - Você tem talento e paixão para isso.
- Eu não tenho apoio, Mia. - Completo. - E tudo é patrocinado pelos meus pais. Não é simples assim.
- É bem simples para mim. - Ela defende. - O apoio você têm do time, do meu irmão… Pörra, até da minha mãe e da Lúcia. - Ela faz uma pausa. - Você tem o meu apoio. Sei que não serve muito, mais…
- Não é o suficiente.
Parece que estou tendo essa discussão pela milésima vez na minha vida, mas com ela é a primeira.
Mia Dalton é curiosa e teimosa na mesma medida.
- Bem, deveria ser! - Ela conclui. - Os seus sonhos e desejos não deveriam ser impedidos pela vontade dos outros.
Ahhh meu lindo tormento, se você soubesse das coisas que me foram impedidas pela vontade dos outros não estaria usando justamente esse argumento.
- Eu vou sobreviver. - Explico. - E a decisão está tomada. A Bradford terá um novo membrö no conselho no final do ano que vem. Estarei formado e pronto para assumir a minha responsabilidade como herdeiro. - Recito o plano de 10 anos dos meus pais. - Em 3 anos assumo a vice-presidência e em 6 a Presidência. - Suspiro. - É quando devo casar e produzir mais herdeiros…
- AHÁ! - Ouço a gargalhada escapar da garganta dela, e ela tapa a boca rápido, o que me arranca um sorriso. - Que bostä, Tom. - Ela completa, entre risos leves agora.
- Exatamente. É uma bostä, mas é o futuro inevitável que escolheram para mim.