Mia
Em algum momento entre One Direction e Olivia Rodrigo cantando, eu adormeci de novo.
Não profundamente, porque estar ao lado dele torna isso impossível e é por isso que quando sinto o carro reduzir a velocidade, eu abro os olhos. O sol ainda não nasceu, então quando ele estaciona o carro na garagem de uma casa grande de dois andares, eu não consigo ver os detalhes.
- Chegamos. - Ele anuncia e suspira, como se estivesse aliviado por isso.
Bem, 8 horas dirigindo deve ter deixado ele exausto.
- Eu deveria ter revezado a direção com você. - Constato e ele apenas dá de ombros, antes de saltar do carro. Não espero ele vir abrir a porta dessa vez, seguro a minha bolsa e eu mesma abro a porta.
O ar quente atinge a minha pele e me arrependo do moletom na mesma hora. Aqui a temperatura deve estar uns 3 graus a mais do que Chesterfield, algo que não me incomoda, mas com certeza, vou sentir diferença ao longo dos dias.
- Vamos? - Ele pergunta, e percebo que ele está com as minhas duas malas e uma bolsa presa no ombro. Caminho até ele e pego uma das malas, antes de seguir para a porta atrás dele.
O gramado em volta da casa é grande, e nos fundos parece ter um espaço de festas, mas pela escuridão, eu não consigo distinguir.
Ele destranca a porta e abre, me dando passagem. Caminho com cautela, e me dou conta que meu irmão mora nessa casa faz quase 2 anos, e eu nunca vim aqui. Ele acende as luzes e leva alguns segundos para a minha visão acostumar com o brilho ao redor da enorme cozinha.
- Essa é a cozinha… - Ele apresenta e percebo ele um pouco hesitante.
- Depois, Tom. Descubro onde fica tudo depois. - Olho para ele com cuidado, absorvendo cada pedaço do homem na minha frente.
Os olhos estão apertados na minha direção, um sinal claro de que ele está em conflito de pensamentos. A boca está fechada em uma linha fina e o maxilar firme quase me convida para tocar.
Respiro fundo.
- Só me diga onde será meu quarto. - Peço. - O Mat resolve o resto. Você já fez muito. - Declaro, porque de repente sinto um desespero imenso de ficar perto dele, o que significa que eu devo manter distância.
O meu coração está ferido. Duplamente.
Pelo Paul e pelo homem na minha frente.
O Paul eu vou superar, não tenho dúvidas. Mas, Thomas Bradford?
Dúvido completamente que sou capaz de passar um dia sequer sem pensar nele.
Ele faz sinal com a cabeça, levando as minhas malas e eu o sigo de perto; subimos a escada, passando por várias portas, até o fundo de um corredor. Sem que ele precise dizer, sei qual a porta do quarto dele. A única que está completamente sem enfeites, um reflexo da personalidade metódica dele. Todas as outras têm flâmulas, placas e uma delas tem até uma caveira.
Ele aponta para a porta do lado da porta nua.
- Esse será o seu quarto. - Ele abre a porta e acende a luz.
Pisco duas vezes, antes de passar pela porta.
O quarto está completamente cru. Tem uma cama de casal, uma cômoda, uma escrivaninha vazia e duas portas, que eu presumo serem o closet e o banheiro. A janela é enorme e tem um aparador, onde eu já me imagino lendo. É muito mais do que eu imaginei, até do que mereço.
- É perfeito. - Falo baixinho. - Obrigada. - Viro na direção dele e sorrio, porque realmente é muito mais do que eu esperava.
- Não agradeça ainda. - Ele fala, colocando as malas em um canto. - Espere até acordar com o time quase derrubando a casa. - Meu sorriso fica maior. - Evite comer qualquer coisa que o JJ faça, porque ele usa muito sal e nunca use o banheiro do corredor. Sempre use o seu. - Assinto, porque ele parece estar falando sério. - Ahh… E seja legal com a garota do Mat. - Pisco, duas vezes de novo.
- Meu irmão tem uma garota? - A surpresa tinge a minha voz e o Tom senta na minha cama, sem cerimônia nenhuma, o que provoca pensamentos complexos na minha cabeça.
- Não é uma namorada nem nada… Ash apenas… Tem o coração do seu irmão nas mãos, mas nenhum dos dois parecem entender isso ainda. - Ele deve ver os meus pensamentos através dos meus olhos, porque completa. - Nem pense nisso, Mia Back! Não deve agir como cupido!
- AHÁ! Ai que está, Quarterback. Perto de mim, o cupido é um amador! - Pisco para ele e percebo que ele acabou de se surpreender com o gesto, porque olha ao redor sem jeito, antes de levantar de uma vez e caminhar para a porta.
- Pelo visto o Mat deixou lençois e toalhas para você. - Ele aponta para a cadeira no canto, onde os itens estão dobrados. - Se sentir fome, a geladeira deve estar cheia. - Suspiro, me dando conta que não quero ficar sozinha.
- Alguma regra adicional? Além do banheiro e da comida do JJ? - Pergunto rápido, quase desesperada para ele continuar falando comigo.
Ele pensa por um momento.
- Na porta da geladeira está marcado o rodízio de compras, louça e coisas assim. - Assinto. - Você deve entrar no rodízio.
- Certo.
- Duas vezes na semana uma moça vem fazer uma faxina, normalmente às segundas e às sextas. - Pisco, tentando gravar as informações. - O nome dela é Vera e ela é caprichosa, mas um pouco desastrada, aconselho que não deixe nada que quebre por aí. - Ele fala com carinho da moça. - Você é responsável pela sua roupa e a limpeza do seu quarto e banheiro. - Aceno com a cabeça. - E se for trazer companhia… - Percebo que ele para, arrependido de tocar no assunto que começamos no carro. - Enfim, fale com o Mat e tranque a porta.
Cruzo os braços contra o peitö e ergo uma sobrancelha.
- Trancarei a porta, com certeza. Mas, o Mat que se fodä. - Ele engole em seco e eu deito a cabeça, mantendo o tom sério. - A escolha de ter companhia deve ser minha, certo Quarterback?
Talvez o fora tenha sido duro demais, depois da gentileza dele de me resgatar do meio do nada e me dar uma cama para dormir, mas limites precisam ser colocados. Em algum nível, esse homem, pensa que vai poder controlar o que eu faço da minha vida. E mesmo que os meus planos sejam resumidos em celibato e estudos, e talvez um emprego, ele não precisa saber.
- Entendido, Amélia. - Ele responde, com a voz fria pela primeira vez desde que me tirou daquele hotel. - Boa noite.
Ele passa pela porta e fecha atrás de si, me deixando sozinha mais uma vez.