Tom
Se eu dormi duas horas completas, foi muito.
O sol brilha no meu rosto e eu me reviro na cama, buscando desesperadamente por mais sono, mas as palavras dela atravessaram os meus pensamentos, afundando na minha alma.
A escolha de ter companhia deve ser minha, certo Quarterback?
Quero gritar, socar e quebrar qualquer possibilidade de um cara hipotético ou real, que pense em se aproximar dela e isso é no mínimo doentio.
Desisto de dormir quando ouço o chuveiro do banheiro do corredor ligar o aquecedor e sei que a confusão começará logo. Em 10 minutos tomo uma ducha e visto a roupa de treino, porque é sábado e às 10 temos a revisão das jogadas, para o jogo na próxima quinta. O meu plano de organizar as jogadas na minha cabeça na volta para casa foi completamente frustrado pela presença da minha nova colega de casa. Abro a porta e apenas sigo o cheiro de café, enquanto desço as escadas.
- Cap. Bom dia! - Quase ajoelho aos pés do Cooper, quando ele me entrega uma xícara de café. Ele me analisa, como faz com tudo e determina. - Você está uma merdä, cap.
Não tenho tempo de rebater, porque estou ocupado bebendo café, quando o Mat surge com um sorriso no rosto.
- Ele dirigiu a noite toda e salvou a minha irmanzinha. - Faço careta, porque não foi exatamente isso que fiz. Ela se salvou sozinha, fugindo daquele canalhä, eu apenas dei uma carona.
- Huum… - O Cooper solta um som sugestivo e sei exatamente o que acontecerá nos próximos dois minutos. Eu vi essa cena mais vezes do que eu queria, inclusive comigo, mas dessa vez quase sinto gratidão pela atitude ciumenta do meu melhor amigo.
Matthew Dalton é quase tão alto quanto eu, e devido à sua posição no futebol, ele não pode ser muito largo, mas é largo o suficiente para botar medo em qualquer um quando se trata da irmã mais velha. Ela abre os ombros, cruza os braços e faz a mesma expressão que vi no rosto do Senhor Dalton tantas vezes, um misto de raiva e ameaça, antes de declarar.
- Distância dela! - Ele fala com firmeza, um tom quase inexistente nele. - A minha irmã não é para o seu bico e nem para nenhum dos moleques dessa casa!
- Eu mudo de casa. - É o Mitchell que fala, entrando na cozinha, com um sorriso enorme. - Eu vi a foto dela e ela vale uns socos seus, Dalton. - Apoio a xícara no balcão e olho para parte do meu time, enquanto ouço o meu amigo rosnar para o nosso Linebacker.
- Eu corto as suas bolas! - O Mat ameaça, e o tom dele me faria tremer, se fosse a primeira vez que eu estivesse ouvindo. Mas, para Logan Mitchell, o palhaço do time, isso nem o fez respirar fundo.
- Cap, ele sempre rosnou assim quando se trata da irmãzinha? - O tom de piada é claro, mas o meu humor está estragado, justamente porque a irmãzinha está na minha casa faz menos de 3 horas e já está me dando dor de cabeça.
- O que as donzelas estão fazendo? - JJ entra na cozinha, seguido pelo Willians, ou, B-Man. A dupla inseparável do time.
- Ótimo. - O Mat fala. - Já que estamos todos aqui, existem alguns limites que eu gostaria de impor.
A cozinha parece ficar pequena com os 6 aqui, ao mesmo tempo, e eu foco na minha xícara, já pensando se devo tomar mais uma, assim que eu der o último gole, enquanto o meu amigo se torna o irmão possessivo na frente de metade do time. - A minha irmã vai morar com a gente por algum tempo… - Ouço alguns comentários, mas mantenho os olhos no resto do café. - Ela é proibida para qualquer um de vocês! - O tom dele não deixa espaço para argumentos, e eu senti na pele isso há 5 anos, e bem como eu, os demais devem seguir a vontade dele. - Se vocês são meus amigos de verdade, fiquem longe da Amélia! - O silêncio é esmagador, mas logo é quebrado novamente pelo Mitchell palhaço.
- Cara, relaxa… Ela é adulta e deve saber se divertir mais do que você. - Eu sei que é uma piada. Sei que os caras vão respeitar. Sei que a Mia não corre perigo com nenhum deles, nem com o resto do time, porque vou me certificar disso, mas algo dentro de mim quebra e antes que eu me dê conta estou de pé. Bato a xícara, agora vazia com força na bancada e respiro fundo.
- Amélia Dalton vai morar entre nós pelo tempo que ela precisar, e se eu sonhar que qualquer um de vocês tentou qualquer coisa além de ser um bom amigo para ela, não vão precisar se preocupar com as suas bölas, e sim com a posição no time. - O meu tom de capitão é natural para eles, e imediatamente qualquer tom de brincadeira morre, inclusive no Mitchell. - Ela é proibida e intocável, e permanecerá assim. Ninguém do time ou da faculdade vai tocar nela. - Olho para cada um deles com pausa, enquanto eles assentem um por um. - Darei um recado geral no treino das 10 para o resto do time. E não espero menos do que respeito e distância segura de vocês, todos entenderam?
- Sim capitão! - Até mesmo o irmão dela responde, acredito que por força do hábito.
Respiro fundo, sentindo alívio por completo, mas dura menos de 10 segundos, porque o meu tormento irrompe dentro da cozinha como um furacão, o rosto vermelho de raiva, em um conjunto curto demais para a minha sanidade e com o dedo apontado em riste na minha direção.
- Que pörra foi essa, Bradford?
Ela está fervendo de raiva e eu não vou deixar que ela me dobre. Já basta os comentários sobre ter companhia.
- Isso é uma regra simples para manter o time em ordem, Mia Back. - Ela arregala os olhos e cruza os braços, com o nariz empinado em desafio. - Esse espaço precisa ser seguro, e os meus colegas de time podem ser babäcas quando querem.
- Costumo ser o mais babäca, quando envolve uma garota bonita. - Ouço o Mat rosnar para o Mitchell depois do comentário, mas não me movo, porque a menina diante de mim, que ocupa cada pensamento meu, parece pronta para me bater.
- Com quem eu me envolvo não é dá sua conta. - Ela se virá para o irmão. - Nem da sua, Matthew. - Ela olha ao redor. - E realmente, não quero me envolver com nenhum de vocês ou do resto do time, mas você vai colocar 11 caras para me impedir de viver a minha vida?
Repasso as minhas palavras na minha cabeça e não lembro quando disse isso.
- Ela tem razão cara. - O Cooper, o mais maduro dos caras, fala. - Se der essa ordem, o time vai ficar de olho e ninguém vai nem chegar perto dela.
- Excelente! - Eu e o Matt falamos juntos e isso só piora tudo.
- Eu não sei o que passa na cabeça de vocês, mas sou completamente capaz de tomar as minhas decisões, sem precisar dos meus irmãozinhos para me proteger. - O golpe é brutal, porque a escolha de palavras foi para me atingir.
“Você é a irmãzinha do meu irmão de coração. Isso te faz a minha irmãzinha.”
Eu usei essa frase naquela noite de merdä, e agora ela usou isso contra mim com violência.
A dor decide por mim, e quando me dou conta, as palavras já escaparam da minha boca.
- Fugir de casa, acabar em um hotel de beira de estrada e precisar morar com os seus irmãozinhos diz muito sobre a sua capacidade de tomar decisões, Amélia!
Algo quebra na expressão dela.
A raiva é substituída por vergonha e por fim, tristeza. Tudo leva 5 segundos. É esse o tempo que ela leva para se armar e me atacar de volta.
- Eu odeio você, Bradford. Com tudo o que eu sou! E vou dar para quem eu quiser, pörra! - Cada palavra afunda na minha alma e quando ela me dá as costas e sobe as escadas correndo, eu sei que passei dos limites.
Ela com certeza me odeia, mas não mais do que eu mesmo nesse momento.