Capítulo 1 — A Metade Impossível
O último fragmento de tinta se desprendeu sob a espátula de Sienna Blake e revelou uma linha azul-escura que atravessava a parede havia quase um século.
Ela interrompeu o movimento antes de alcançar a camada seguinte. O salão do antigo Edifício Marlowe ainda cheirava a madeira lixada, argamassa úmida e poeira, mas já não parecia o lugar condenado que encontrara oito meses antes. As janelas altas voltavam a receber a luz do fim da tarde de Denver. O teto de gesso, antes ameaçado por infiltrações, recuperara os desenhos geométricos originais. Agora, sob cinco demãos de bege sem importância, a parede oferecia mais uma parte de sua história.
Sienna afastou uma mecha do rosto com o dorso da mão enluvada e inclinou a luminária portátil.
— Não cubram isto — pediu ao encarregado, que esperava sua decisão a poucos passos. — Quero uma análise dos pigmentos antes de definirmos a paleta final. Se for original, preservamos uma janela de exposição.
— O cliente queria entregar o salão na sexta-feira.
— E receberá na sexta-feira. Só não receberá uma mentira pintada por cima de outra.
O homem soltou um riso curto, acostumado àquela resposta, e anotou a orientação. Sienna fotografou a faixa azul, conferiu a escala ao lado da área descoberta e registrou o horário. Restaurar um edifício não significava fazê-lo parecer novo. Significava reconhecer o que ainda podia ser salvo e impedir que a pressa destruísse o que o tempo preservara por acidente.
Seu celular vibrou sobre a mesa improvisada, entre plantas enroladas e amostras de madeira. Ela ignorou a primeira chamada. O número tinha um código de área que não via havia anos, mas reconheceu antes mesmo de raciocinar. Quando o aparelho tornou a vibrar, uma inquietação antiga apertou-lhe o estômago.
Blackwood Creek.
Sienna retirou as luvas devagar. Durante toda a infância, aquele nome fora pronunciado em sua casa apenas quando não havia outra escolha. O pai o tratava como uma porta trancada. A mãe mudava de assunto. Evelyn Blake, a avó que permanecera no lugar depois de todos os outros irem embora, enviava cartões em datas improváveis e telefonava duas ou três vezes por ano, sempre evitando explicar por que continuava ali.
Na tela, a chamada cessou. Um instante depois, surgiu uma mensagem de voz.
Sienna levou o telefone até uma sala lateral, longe do ruído das máquinas, e apertou o botão.
— Senhorita Blake, meu nome é Everett Hale. Sou o advogado responsável pelos assuntos de sua avó. Preciso falar com a senhora o quanto antes. Por favor, retorne assim que receber esta mensagem.
Ela ouviu duas vezes. Na segunda, percebeu o cuidado excessivo entre as palavras, como se o homem preparasse uma superfície antes de depositar sobre ela algo pesado.
Telefonou de volta.
— Everett Hale — ele atendeu imediatamente.
— Aqui é Sienna Blake. O que aconteceu com a minha avó?
O silêncio durou menos de um segundo, mas foi suficiente.
— Sinto muito. Evelyn faleceu na noite passada.
A faixa azul descoberta no salão pareceu perder a nitidez. Sienna apoiou a mão livre na borda de uma mesa coberta por plástico. Fazia três semanas desde a última ligação da avó. Evelyn perguntara sobre o Edifício Marlowe, reclamara do inverno e, antes de desligar, dissera que algumas casas esperavam demais para contar a verdade. Sienna interpretara a frase como outra excentricidade. Prometera ligar no domingo seguinte. Não ligara.
— Como? — perguntou, e a própria voz lhe pareceu distante.
— Ela estava em casa. Foi uma morte natural e tranquila, segundo o médico. A senhora Evelyn deixou instruções muito específicas sobre o funeral e sobre a leitura do testamento.
Sienna fechou os olhos. A tristeza não chegou como uma onda, mas como uma rachadura lenta, avançando por um lugar que ela acreditava sólido. Evelyn não fora uma avó presente no sentido comum. Ainda assim, tinha sido a única pessoa da família que nunca falara com vergonha do sobrenome Blake.
— Quando será o funeral?
— Amanhã à tarde, em Blackwood Creek.
A resposta levantou dentro dela uma resistência imediata. Voltar não fazia parte de seus planos. Nem naquela semana, nem em qualquer futuro que pudesse imaginar. O pai morrera ainda carregando o peso das acusações daquela cidade, e Sienna aprendera cedo que algumas pessoas não precisavam conhecer os fatos para escolher um culpado.
— Não consigo chegar a tempo — disse, embora soubesse que existiam voos e estradas capazes de levá-la. — Estou concluindo uma obra.
Everett não discutiu.
— Evelyn previu que a senhora poderia dizer isso. Há uma leitura preliminar hoje, por videoconferência. A a******a integral ocorrerá quando todos estiverem presentes no escritório. Preciso enviar um acesso seguro. Qual endereço eletrônico devo usar?
Sienna olhou através da porta. O salão restaurado brilhava sob a luz oblíqua, cheio de trabalhadores encerrando o expediente. Era um mundo que ela compreendia: danos podiam ser medidos, materiais podiam ser testados, estruturas cediam por razões identificáveis. Blackwood Creek pertencia a outra lógica, feita de silêncios e versões repetidas até parecerem verdade.
— Use meu endereço profissional.
Ela forneceu os dados, ouviu as orientações e encerrou a ligação. Por vários minutos, permaneceu no mesmo lugar, com o telefone na mão. Depois respirou fundo, guardou as ferramentas e terminou a vistoria. Não permitiria que o passado transformasse seu trabalho em desordem. Era exatamente assim que lidava com quase tudo: organizando o que podia ser organizado.
Às sete da noite, já em seu apartamento, Sienna abriu o computador sobre a mesa da cozinha. Não tivera coragem de telefonar para a mãe. A notícia precisaria atravessar aquela família mais uma vez, e ela ainda não sabia que palavras usar.
O convite de Everett ocupava o topo da caixa de entrada. O assunto dizia apenas: Espólio de Evelyn Blake — leitura preliminar.
Ela clicou no acesso.
Everett surgiu numa sala de paredes escuras e estantes ordenadas. Tinha cabelos grisalhos, postura cuidadosa e um rosto que Sienna reconheceu vagamente de fotografias antigas. Sobre a mesa, repousava uma pasta de couro gasta.
— Senhorita Blake, obrigado por participar.
— Existe mais alguém na chamada?
O olhar dele se desviou para outra tela.
— Sim. O senhor Cole Blackwood representa a outra parte interessada. Ele está no rancho.
A imagem se dividiu antes que Sienna pudesse responder.
O homem que apareceu no segundo quadro não se deu ao trabalho de cumprimentá-la. Estava sentado atrás de uma mesa larga, num escritório revestido de madeira. Pela janela às costas dele, o céu se tingia de cobre sobre campos que pareciam se estender até as montanhas. Sienna soube, sem precisar de explicação, que observava o Rancho Blackwood.
Cole tinha a expressão fechada de alguém que entrara naquela reunião esperando uma batalha. Não havia surpresa em seu rosto ao vê-la, apenas uma frieza tão imediata que Sienna quase sentiu o ar mudar do outro lado da tela.
— Podemos começar? — ele perguntou.
Everett ajeitou a pasta diante de si.
— A senhora Evelyn solicitou que eu lesse primeiro a disposição patrimonial central. As condições associadas a ela serão apresentadas pessoalmente, depois do funeral.
— Condições? — Sienna repetiu.
— Hoje, apenas a divisão determinada por sua avó.
Everett rompeu o selo de um envelope. O som do papel pareceu alto demais no apartamento silencioso.
— Eu, Evelyn Margaret Blake, em pleno exercício de minhas faculdades, determino que minha participação legal, financeira e histórica no Rancho Blackwood seja transmitida integralmente à minha neta, Sienna Blake.
Sienna franziu a testa.
— Participação?
O advogado ergueu os olhos do documento.
— Cinquenta por cento da propriedade, das operações e dos ativos vinculados ao rancho.
Por um momento, ela acreditou ter entendido errado. A avó morava numa casa modesta nos limites da cidade. Nunca mencionara ações, terras ou qualquer ligação financeira com os Blackwood. Muito menos metade de uma propriedade conhecida em todo o estado.
— Isso não é possível.
— Os registros foram verificados — respondeu Everett. — A transferência é válida.
Sienna se aproximou da tela como se a distância pudesse explicar o absurdo.
— Minha família não possui aquele rancho.
— Agora possui — disse uma voz no outro quadro.
Cole se inclinara para a frente. A luz do escritório acentuava a rigidez de seu rosto, mas, sob a raiva, havia algo mais: incredulidade. Talvez a mesma que a paralisava. Talvez não. Para ele, a notícia parecia menos uma herança do que uma invasão.
Everett continuou:
— Os cinquenta por cento restantes permanecem sob a titularidade de Cole James Blackwood. A partir da a******a do testamento, ambos são coproprietários em proporções iguais.
O silêncio se instalou entre as três telas.
Sienna pensou nas histórias interrompidas sempre que perguntava por que o pai deixara Blackwood Creek. Pensou nos cartões de Evelyn, nas frases estranhas e na ligação que adiara. Metade de um rancho não era uma herança. Era uma pergunta grande demais para caber naquela sala.
Cole olhou diretamente para a câmera.
— Uma Blake não ficará com metade de Blackwood.
Não havia dúvida, espanto ou cortesia em sua voz. Havia uma promessa.
E, pela primeira vez desde que atendera ao telefone, Sienna teve certeza de uma coisa: a avó não lhe deixara apenas terras. Deixara uma guerra que alguém acreditava ainda não ter terminado.