Capítulo 11 — Narrador: Paulo Trabalhar com entrega é o que me mantém com os pés no chão. A moto é minha extensão — conheço cada atalho, cada quebra‑molas, cada beco em que dá pra cortar e economizar cinco minutos. Quando não tô na rua, tô pensando na rota, pensando no troco, pensando na cara da Júlia quando eu entrar com uma nota a mais pra casa dela. Não é heroísmo; é sobrevivência com direção. A casa da Júlia é aquela que todo mundo conhece: varanda pequena, cortina semi‑rasgada, o vaso de planta que a Dona Marta insiste em regar mesmo quando a planta já parece não querer mais. Entro lá quase todo dia com um pacote pra farmácia, um recado, ou uma desculpa pra ficar cinco minutos a mais e olhar o rosto dela. Ela mudou. Quem mora em comunidade percebe quando a pessoa muda sem querer diz

