Capítulo 47

994 Words
O Hotel Paraíso andava mais movimentado do que nunca naquela semana. Além dos hóspedes habituais, Dona Natália tinha tido a ideia de trazer algo diferente, algo que atraísse ainda mais atenção e curiosidade: aulas de dança do ventre e pole dance, abertas tanto para hóspedes quanto para funcionários, desde que conseguissem conciliar os horários. A notícia correu pelos corredores como vento em cortina aberta. Alicia soube das aulas por acaso, enquanto ajudava a descarregar caixas de legumes na cozinha. Uma das camareiras comentava animada sobre a professora, elogiando a leveza dos movimentos e a confiança que ela passava às alunas. — Dizem que a gente se sente outra mulher depois de algumas aulas — comentou a camareira, sorrindo. Alicia fingiu não dar importância, mas aquela frase ficou ecoando dentro dela. Outra mulher. Ela passou o resto da manhã pensando nisso enquanto cortava legumes, organizava bandejas e revisava pedidos. Sua rotina na cozinha era intensa, os horários puxados, mas, ainda assim, algo dentro dela começou a pedir espaço. Não era vaidade apenas. Era curiosidade, vontade de se reconectar com o próprio corpo, de sentir-se livre. No fim do turno, criou coragem e foi falar com Dona Natália. — A senhora acha que teria como eu participar das aulas? — perguntou, meio sem jeito. — Eu sei que meu horário é complicado… Dona Natália a olhou por cima dos óculos, avaliando-a por alguns segundos, antes de sorrir. — Para quem trabalha duro como você, sempre dá um jeito, Alicia. Vou falar com a professora. Talvez um horário alternativo, antes do jantar. E assim ficou combinado. Quando Alicia saiu da cozinha naquela tarde, sentindo o corpo cansado, mas o coração leve, m*l sabia que a notícia já tinha chegado a quem menos precisava de estímulo. Alan e Alex estavam sentados em uma das mesas externas do hotel, tomando café, quando ouviram dois funcionários comentando. — A Alicia vai fazer aula de dança do ventre… e pole dance. Alex quase engasgou. — Como é que é? — perguntou, arregalando os olhos. Alan levou a xícara à boca, mas parou no meio do caminho, processando a informação. — Eu vou fingir que não ouvi isso — disse ele, tentando manter a compostura. — Pelo bem da minha sanidade. Alex soltou uma risada curta, cheia de malícia. — Tarde demais, mano. Essa mulher quer me matar de t***o. Eu já tô subindo pelas paredes só de imaginar. Alan fechou os olhos por um segundo e respirou fundo. — Relaxa. — Ele tentou soar racional, mas falhou miseravelmente. — Ela vai dançar pra nós… algum dia. — Algum dia? — Alex arqueou a sobrancelha. — Eu não sei se sobrevivo até lá. Os dois riram, cúmplices, como sempre, mas havia ali uma expectativa nova, elétrica, que os deixava inquietos. Mais tarde, durante o intervalo da cozinha, Alicia estava sentada em um banco próximo à despensa, bebendo água e massageando discretamente o pulso cansado. O calor da cozinha ainda parecia grudado na pele quando ouviu passos familiares. — Ficamos sabendo que você vai fazer aula de dança — disse Alan, encostando na parede à frente dela. Alex apareceu logo atrás, com aquele sorriso provocador que Alicia já conhecia bem. Ela sorriu, um pouco surpresa. — A Dona Natália contou pra vocês, né? — Claro — respondeu Alex. — Aqui nada fica em segredo. Alicia riu, balançando a cabeça. — Eu só queria tentar algo diferente. Não sei dançar nada disso… — Não precisa saber — disse Alan, com a voz mais suave. — Só precisa sentir. Ela levantou o olhar para ele, tocada pelo tom sincero. — Eu fiquei curiosa — confessou. — Sempre achei bonito… forte. A mulher no controle do próprio corpo. Alex se aproximou um pouco mais, abaixando o tom, quase conspiratório. — Você já é forte, Alicia. Só não percebe o quanto. Ela sentiu o rosto esquentar, desviou o olhar por um instante, mas não conseguiu conter o sorriso. — Vocês estão exagerando. — Estamos sendo realistas — corrigiu Alan. Nos dias seguintes, Alicia se preparou como quem vai para algo muito maior do que uma simples aula. No primeiro dia, vestiu uma roupa confortável, prendeu o cabelo e respirou fundo antes de entrar na sala reservada do hotel. A professora era calma, confiante, com uma presença que preenchia o espaço. Começou falando sobre postura, respiração, sobre respeitar os próprios limites. — Dançar não é sobre seduzir o outro — disse ela. — É sobre se reconhecer. Alicia sentiu um nó se formar na garganta. Os movimentos eram lentos no início, desajeitados, mas, aos poucos, ela começou a se soltar. O espelho à sua frente mostrava uma mulher que ela nem sempre reconhecia: concentrada, determinada, bonita à sua maneira. No pole dance, o desafio foi maior. As mãos escorregaram, os músculos protestaram, mas cada pequena conquista arrancava um sorriso genuíno. Quando a aula terminou, ela estava suada, cansada, mas estranhamente leve. Naquela noite, Alan e Alex a esperavam no quarto, fingindo casualidade, mas atentos a cada detalhe. — E então? — perguntou Alex, tentando parecer despreocupado. — Sobreviveu? Alicia deixou a bolsa no chão e se aproximou devagar. — Foi incrível — respondeu. — Difícil… mas incrível. Alan observava cada gesto, cada brilho novo no olhar dela. — Você tá diferente — comentou. Ela sorriu, passando a mão pelo próprio braço, ainda sentindo o corpo vibrar. — Eu me senti diferente. Alex trocou um olhar com Alan, cúmplice e cheio de promessas silenciosas. — Então é oficial — disse ele. — Aulas de dança no Hotel Paraíso acabaram de ficar perigosas. Alicia riu, puxando os dois para perto. — Perigosas nada. — Olhou nos olhos de cada um. — Libertadoras. E, naquele instante, os três souberam que algo tinha mudado. Não era só dança. Era descoberta, confiança, desejo contido e um novo capítulo que começava a ser escrito, no ritmo lento e intenso de quem aprende a sentir o próprio corpo… e o do outro, no tempo certo.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD