O Hotel Paraíso andava mais movimentado do que nunca naquela semana. Além dos hóspedes habituais, Dona Natália tinha tido a ideia de trazer algo diferente, algo que atraísse ainda mais atenção e curiosidade: aulas de dança do ventre e pole dance, abertas tanto para hóspedes quanto para funcionários, desde que conseguissem conciliar os horários.
A notícia correu pelos corredores como vento em cortina aberta.
Alicia soube das aulas por acaso, enquanto ajudava a descarregar caixas de legumes na cozinha. Uma das camareiras comentava animada sobre a professora, elogiando a leveza dos movimentos e a confiança que ela passava às alunas.
— Dizem que a gente se sente outra mulher depois de algumas aulas — comentou a camareira, sorrindo.
Alicia fingiu não dar importância, mas aquela frase ficou ecoando dentro dela.
Outra mulher.
Ela passou o resto da manhã pensando nisso enquanto cortava legumes, organizava bandejas e revisava pedidos. Sua rotina na cozinha era intensa, os horários puxados, mas, ainda assim, algo dentro dela começou a pedir espaço. Não era vaidade apenas. Era curiosidade, vontade de se reconectar com o próprio corpo, de sentir-se livre.
No fim do turno, criou coragem e foi falar com Dona Natália.
— A senhora acha que teria como eu participar das aulas? — perguntou, meio sem jeito. — Eu sei que meu horário é complicado…
Dona Natália a olhou por cima dos óculos, avaliando-a por alguns segundos, antes de sorrir.
— Para quem trabalha duro como você, sempre dá um jeito, Alicia. Vou falar com a professora. Talvez um horário alternativo, antes do jantar.
E assim ficou combinado.
Quando Alicia saiu da cozinha naquela tarde, sentindo o corpo cansado, mas o coração leve, m*l sabia que a notícia já tinha chegado a quem menos precisava de estímulo.
Alan e Alex estavam sentados em uma das mesas externas do hotel, tomando café, quando ouviram dois funcionários comentando.
— A Alicia vai fazer aula de dança do ventre… e pole dance.
Alex quase engasgou.
— Como é que é? — perguntou, arregalando os olhos.
Alan levou a xícara à boca, mas parou no meio do caminho, processando a informação.
— Eu vou fingir que não ouvi isso — disse ele, tentando manter a compostura. — Pelo bem da minha sanidade.
Alex soltou uma risada curta, cheia de malícia.
— Tarde demais, mano. Essa mulher quer me matar de t***o. Eu já tô subindo pelas paredes só de imaginar.
Alan fechou os olhos por um segundo e respirou fundo.
— Relaxa. — Ele tentou soar racional, mas falhou miseravelmente. — Ela vai dançar pra nós… algum dia.
— Algum dia? — Alex arqueou a sobrancelha. — Eu não sei se sobrevivo até lá.
Os dois riram, cúmplices, como sempre, mas havia ali uma expectativa nova, elétrica, que os deixava inquietos.
Mais tarde, durante o intervalo da cozinha, Alicia estava sentada em um banco próximo à despensa, bebendo água e massageando discretamente o pulso cansado. O calor da cozinha ainda parecia grudado na pele quando ouviu passos familiares.
— Ficamos sabendo que você vai fazer aula de dança — disse Alan, encostando na parede à frente dela.
Alex apareceu logo atrás, com aquele sorriso provocador que Alicia já conhecia bem.
Ela sorriu, um pouco surpresa.
— A Dona Natália contou pra vocês, né?
— Claro — respondeu Alex. — Aqui nada fica em segredo.
Alicia riu, balançando a cabeça.
— Eu só queria tentar algo diferente. Não sei dançar nada disso…
— Não precisa saber — disse Alan, com a voz mais suave. — Só precisa sentir.
Ela levantou o olhar para ele, tocada pelo tom sincero.
— Eu fiquei curiosa — confessou. — Sempre achei bonito… forte. A mulher no controle do próprio corpo.
Alex se aproximou um pouco mais, abaixando o tom, quase conspiratório.
— Você já é forte, Alicia. Só não percebe o quanto.
Ela sentiu o rosto esquentar, desviou o olhar por um instante, mas não conseguiu conter o sorriso.
— Vocês estão exagerando.
— Estamos sendo realistas — corrigiu Alan.
Nos dias seguintes, Alicia se preparou como quem vai para algo muito maior do que uma simples aula. No primeiro dia, vestiu uma roupa confortável, prendeu o cabelo e respirou fundo antes de entrar na sala reservada do hotel.
A professora era calma, confiante, com uma presença que preenchia o espaço. Começou falando sobre postura, respiração, sobre respeitar os próprios limites.
— Dançar não é sobre seduzir o outro — disse ela. — É sobre se reconhecer.
Alicia sentiu um nó se formar na garganta.
Os movimentos eram lentos no início, desajeitados, mas, aos poucos, ela começou a se soltar. O espelho à sua frente mostrava uma mulher que ela nem sempre reconhecia: concentrada, determinada, bonita à sua maneira.
No pole dance, o desafio foi maior. As mãos escorregaram, os músculos protestaram, mas cada pequena conquista arrancava um sorriso genuíno.
Quando a aula terminou, ela estava suada, cansada, mas estranhamente leve.
Naquela noite, Alan e Alex a esperavam no quarto, fingindo casualidade, mas atentos a cada detalhe.
— E então? — perguntou Alex, tentando parecer despreocupado. — Sobreviveu?
Alicia deixou a bolsa no chão e se aproximou devagar.
— Foi incrível — respondeu. — Difícil… mas incrível.
Alan observava cada gesto, cada brilho novo no olhar dela.
— Você tá diferente — comentou.
Ela sorriu, passando a mão pelo próprio braço, ainda sentindo o corpo vibrar.
— Eu me senti diferente.
Alex trocou um olhar com Alan, cúmplice e cheio de promessas silenciosas.
— Então é oficial — disse ele. — Aulas de dança no Hotel Paraíso acabaram de ficar perigosas.
Alicia riu, puxando os dois para perto.
— Perigosas nada. — Olhou nos olhos de cada um. — Libertadoras.
E, naquele instante, os três souberam que algo tinha mudado. Não era só dança. Era descoberta, confiança, desejo contido e um novo capítulo que começava a ser escrito, no ritmo lento e intenso de quem aprende a sentir o próprio corpo… e o do outro, no tempo certo.