Quando a Música Silenciou
Alicia se divertia como nunca. Entre Alex e Alan, o mundo parecia menor, mais seguro. Ela dançava sorrindo, girando levemente, sentindo-se viva. Os dois homens não conseguiam disfarçar: os olhos deles percorriam cada gesto, cada movimento do corpo dela, não com vulgaridade, mas com admiração e desejo contido.
Era impossível não olhar.
O vestido se movia com ela, o cabelo solto acompanhava o ritmo, e Alicia parecia finalmente ter esquecido todas as dores que carregava nos últimos tempos.
— Vamos sentar um pouco — sugeriu Alan, percebendo que ela começava a ficar ofegante. — Pra refrescar.
Alex assentiu.
— Eu vou buscar os drinks.
Enquanto Alex se afastava, Alan puxou uma cadeira para Alicia e sentou-se ao lado dela. A música continuava alta, mas ali, na mesa, o ritmo desacelerava.
— Gostou da noite? — ele perguntou, aproximando-se.
Alicia sorriu largo, os olhos brilhando.
— Muito. Vocês são demais… você e o Alex.
Alan sorriu também, sentindo o peito aquecer. Antes que pudesse responder, Alicia se inclinou e lhe deu um selinho rápido, espontâneo, cheio de carinho.
O sorriso dele congelou por um segundo.
— Amor… — ele falou baixo. — Me desculpa, eu esqueci que… só em casa.
Alicia franziu levemente a testa, depois sorriu, um pouco envergonhada.
— É que eu queria beijar você.
Alan segurou o rosto dela com cuidado.
— Não tem problema. Aqui a gente pode… alguns beijos.
Antes que ela respondesse, Alex voltou equilibrando os copos coloridos.
— Aqui, princesa.
Os olhos de Alicia brilharam ao ver os drinks.
— Que lindo!
Ela pegou o copo e deu um gole. Fez uma careta surpresa e depois sorriu.
— Humm… docinho.
Sem perceber, passou a língua de leve pelos próprios lábios. O gesto foi inocente. O efeito, não.
Alex olhou para Alan, depois para ela.
— Princesa… não pode fazer isso.
Alicia inclinou a cabeça, confusa, com uma inocência quase desarmante.
— O quê?
Alan pigarreou, tentando manter o controle.
— Essa sua língua… dá ideia. É isso que o Alex tá falando.
Alicia arregalou os olhos, sentindo o rosto esquentar imediatamente.
— Eu não fiz por…
— Eu sei — Alex interrompeu, rindo de leve. — Só pensei… e fiz você pensar, amor.
Ela abaixou o olhar, completamente vermelha, e os dois sorriram. Havia leveza ali. Cumplicidade. Vida.
Depois de mais uma música, Alicia sentiu uma necessidade urgente.
— Vou ao banheiro rapidinho.
— Eu vou com você até lá — disse Alex, levantando-se de imediato.
Eles caminharam juntos até o corredor. Antes de entrar, Alicia sorriu para ele.
— Já volto.
Alex ficou do lado de fora, encostado na parede. Foi quando notou duas mulheres saindo do banheiro feminino. Graziela e Raissa. Elas riam baixo, um riso que não combinava com o ambiente. Havia algo ali… mas Alex não conseguiu identificar o quê.
Minutos se passaram.
Alicia não voltou.
Um aperto estranho tomou o peito de Alex. Ele empurrou a porta do banheiro feminino, ignorando qualquer regra.
— Alicia?
O silêncio foi a resposta.
Deu mais alguns passos e então viu.
Alicia estava caída no chão frio, o vestido manchado, uma poça de sangue se espalhando lentamente ao redor dela. O mundo de Alex parou.
— NÃO… — a voz saiu em desespero.
Ele correu até ela, ajoelhou-se, segurando o rosto pálido.
— Fica comigo, princesa… fica comigo.
Com mãos trêmulas, puxou o celular e ligou para Alan.
— Alan… vem agora. Agora!
Alan chegou em segundos. Quando viu a cena, sentiu as pernas fraquejarem.
— Meu Deus…
Chamaram socorro, tudo aconteceu rápido e lento ao mesmo tempo. Sirenes, luzes, gritos. Alicia não reagia.
No hospital mais próximo, portas se fecharam. Médicos correram. Eles ficaram do lado de fora, impotentes.
— Ela tá entre a vida e a morte — disse um médico, sério. — Estamos fazendo o possível.
Alex andava de um lado para o outro, o maxilar travado, os olhos cheios de ódio.
— Aquelas duas vão pagar.
Alan levantou o olhar, confuso e devastado.
— Quem?
Alex parou diante dele, a voz firme apesar do tremor.
— Graziela e Raissa. Foram elas. Eu vi saindo do banheiro… rindo.
Alan fechou os olhos por um instante, a dor misturada com culpa e fúria.
— Se algo acontecer com ela…
A porta da emergência se abriu novamente, e Dona Natália surgiu apressada, o rosto pálido.
— Cadê a Alicia? — perguntou, desesperada.
— Ela tá lá dentro — respondeu Alan, com a voz quebrada. — Não deixam a gente entrar.
Dona Natália levou a mão ao peito, segurando o choro.
— Minha menina…
Do outro lado da porta, médicos lutavam pela vida de Alicia.
Do lado de fora, três corações estavam à beira do colapso.
E a música daquela noite… nunca mais voltaria a tocar do mesmo jeito.