Capítulo 50

805 Words
Entre a Fé e a Promessa As horas passaram lentas, cruéis, como se o tempo tivesse decidido testar cada segundo de esperança que ainda restava. O corredor do hospital estava quase vazio, iluminado por luzes frias que só aumentavam a sensação de impotência. Alex andava de um lado para o outro sem parar. As mãos fechadas, os ombros rígidos, o olhar perdido. Cada passo era uma tentativa frustrada de expulsar o medo que apertava o peito. Alan permanecia sentado, os cotovelos apoiados nos joelhos, os olhos fixos na porta da UTI. Ele era médico. Já estivera do outro lado daquela porta inúmeras vezes. Mas agora… agora não adiantava nada. Sentia-se pequeno. Incapaz. — Eu devia estar lá dentro… — murmurou, mais para si mesmo do que para os outros. Alex parou de andar e olhou para o irmão. — Você é médico, Alan… mas agora você é noivo. E isso dói muito mais. Dona Natália estava sentada um pouco mais afastada, as mãos entrelaçadas, os olhos fechados em oração silenciosa. Quando percebeu o silêncio pesado entre os dois, levantou-se devagar e se aproximou. — Meus filhos… — disse com voz firme, apesar do coração partido — tenham fé. A Alicia é forte. Sempre foi. Ela vai sair dessa. Alex respirou fundo, os olhos marejados. — Tomara, mãe… porque eu não sei viver sem ela. Alan levantou o olhar na mesma hora. — Eu também não. O silêncio voltou a se instalar, quebrado apenas pelo som distante de passos e aparelhos. Até que a porta finalmente se abriu. Um médico saiu, retirando a máscara do rosto. — Parentes da paciente Alicia Romanoff? Alex e Alan se levantaram ao mesmo tempo, quase correndo até ele. — Somos nós — disse Alex, a voz tensa. Alan foi direto: — Doutor… como ela está? O médico respirou fundo antes de responder. — Ela está estável. O pior já passou. Agora é esperar o corpo dela reagir. Por um segundo, ninguém disse nada. Então Alex soltou o ar que nem percebera que estava segurando. Alan fechou os olhos, sentindo um peso imenso sair do peito, ainda que não completamente. Eles se olharam. Não precisaram dizer nada. O olhar dizia tudo: alívio, amor… e uma decisão silenciosa. — Podemos vê-la? — perguntou Alex. — Os dois. Antes que o médico respondesse, Dona Natália se aproximou. — Eles são os noivos dela — disse com firmeza. — Deixem eles vê-la. Eu fico a noite toda com a minha nora. O médico assentiu. — Cinco minutos. Ela ainda está muito fraca. Ao entrarem no quarto, o choque foi inevitável. Alicia estava pálida, ligada a aparelhos, o peito subindo e descendo lentamente. Mas estava ali. Viva. Alan sentiu as pernas fraquejarem. Aproximou-se devagar, segurando a mão dela com cuidado, como se tivesse medo de machucá-la só com o toque. — Amor… — sussurrou, a voz embargada. — Eu tô aqui. Alex ficou do outro lado da cama, os olhos percorrendo cada detalhe do rosto dela, como se precisasse memorizar tudo de novo. — Princesa… você me assustou — disse baixo. — Mas eu sabia que você ia lutar. Ela não respondeu. Mas o monitor continuava marcando batimentos firmes. Para eles, aquilo era tudo. — A gente vai te proteger — continuou Alex. — Eu prometo. Alan inclinou-se e beijou a testa dela com cuidado. — Descansa… quando acordar, a gente resolve tudo. Os minutos passaram rápido demais. Logo, tiveram que sair. Do lado de fora, Dona Natália entrou para ficar com Alicia. Antes de fechar a porta, olhou para os dois homens e assentiu, confiante. — Vão. Eu fico com ela. Qualquer coisa, eu ligo imediatamente. Alex e Alan deixaram o hospital já de madrugada. O ar frio da noite trouxe um pouco de clareza, mas também reacendeu algo perigoso. — Vamos passar na casa da Alicia — disse Alex. — O Rex deve estar com fome. O cachorro os recebeu abanando o r**o, alheio ao caos que havia se instalado. Alan se agachou, fazendo carinho nele. — Ela vai querer ver você quando acordar — disse, com um meio sorriso triste. Alex colocou ração e água, depois se encostou na parede, pegando o celular. — Já pedi pra um amigo da polícia puxar a ficha delas. Quero saber exatamente onde Graziela e Raissa estão. Alan levantou-se devagar. — Isso não vai ficar assim, Alex. — Não vai — respondeu ele, com a voz firme, fria. — Elas atravessaram um limite. Alan respirou fundo. Ele não era um homem violento. Mas agora… agora era diferente. — Primeiro a Alicia — disse. — Depois… a justiça. Alex assentiu, mas o olhar denunciava que aquela promessa ia muito além de palavras. Naquela noite, enquanto Alicia lutava silenciosamente para se recuperar, dois homens juravam, cada um à sua maneira, que ninguém mais jamais encostaria nela. Nunca mais.
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