Capítulo 55

881 Words
Plantões e Acertos de Contas A vida começava, aos poucos, a encontrar um novo ritmo. Depois de semanas em que tudo girou em torno do hospital, da investigação e do medo constante de perder Alicia, a rotina cobrava seu preço. Alan e Alex sabiam que não podiam simplesmente abandonar quem eram. Tinham responsabilidades, cargos, juramentos. E agora, com Alicia acordada e fora de perigo imediato, era hora de retomar o trabalho. Alan voltou aos plantões no hospital. Ele havia se afastado por dias demais, usando cada brecha possível para ficar ao lado de Alicia, resolver pendências médicas, acompanhar exames e, principalmente, garantir que ela sobrevivesse. Agora, mesmo cansado, sentia uma tranquilidade que há semanas não conhecia. Alicia estava bem. Fraca, sim. Em recuperação. Mas viva. Consciente. E em breve seria transferida para o hospital da Ilha, onde Alan trabalhava e onde poderia acompanhá-la de perto, com mais dedicação, mais cuidado, mais segurança. Enquanto vestia o jaleco, sentiu um orgulho silencioso. Não apenas como médico, mas como homem. — Logo você vem pra cá — murmurou, pensando nela. — E eu vou estar em cada passo da sua recuperação. No hospital, Alan se concentrava no trabalho, mas o coração permanecia dividido. Entre um atendimento e outro, conferia o celular, esperando alguma atualização. Cada pausa era preenchida pelo rosto de Alicia sorrindo fraco, pela mão dela apertando a sua. Já Alex seguia outro caminho. Na delegacia, o volume de trabalho parecia ter dobrado. Ele não tinha se afastado oficialmente em nenhum momento. Trabalhou de dentro, nos bastidores, cruzando informações, orientando equipes, resolvendo o que podia sem sair da mesa. Agora, com o caso praticamente fechado, surgiam as consequências: relatórios, depoimentos finais, encaminhamentos judiciais. Mas havia algo que ainda não estava resolvido dentro dele. Alex fechou a porta da sala e pegou o telefone. — Pereira, vem aqui um minuto. Minutos depois, a policial entrou. Pereira era experiente, firme, conhecida por não se deixar intimidar facilmente. E, principalmente, confiável. Exatamente quem Alex precisava. — Delegado — cumprimentou. Alex indicou a cadeira à frente. — Preciso de um favor. Oficial. Ela arqueou a sobrancelha, atenta. — Pode falar. — Quero que você vá até o presídio feminino — disse, direto. — Visitar Graziela e Raissa. Pereira manteve o olhar firme. — Oficialmente? — Oficialmente — respondeu. — E extraoficialmente… você vai levar um recado meu. Ela cruzou os braços. — Que tipo de recado? Alex respirou fundo. Não havia ódio explícito em sua voz. Apenas controle. Frieza. — Diga a elas que o delegado Alex não esqueceu. Que o caso não acabou pra elas. E que eu vou visitá-las em breve. Pereira assentiu lentamente. — Entendi. Alex abriu uma gaveta da mesa e retirou uma caixa ainda lacrada. — E mais uma coisa. Ela olhou curiosa. — Isso aqui é uma máquina de cortar cabelo — explicou. — Quero que o cabelo das duas seja raspado. Pereira ficou em silêncio por alguns segundos. Não surpresa. Apenas avaliando. — Isso é permitido dentro do protocolo — disse por fim. — Em situações de higiene e segurança. — Exatamente — respondeu Alex. — Faça isso antes de sair. Ela compreendeu o que não foi dito. Antes de sair, Pereira fez apenas uma pergunta: — Por quê? Alex encostou-se na cadeira, os olhos escurecendo por um breve instante. — Porque quando atacaram a Alicia… — a voz dele baixou — cortaram o cabelo dela. Era comprido. Agora m*l passa dos ombros. Ele respirou fundo. — Eu não machuco pessoas. Nunca precisei. Mas faço questão que elas sintam. Nem que seja no orgulho. Na identidade. Pereira assentiu. — Vou resolver. Quando ela saiu, Alex permaneceu alguns minutos em silêncio. Não era vingança. Era resposta. Um recado claro: ações têm consequências. No presídio, Graziela tentou manter a postura. Arrogante, mesmo algemada. Raissa, por outro lado, tremia. Quando viram Pereira entrar, trocaram olhares tensos. — O que é isso agora? — Graziela perguntou, irritada. Pereira manteve a voz profissional. — Procedimento. A máquina foi ligada. O som ecoou pelo ambiente. Raissa começou a chorar. — Não… por favor… Graziela tentou resistir, mas foi contida. O cabelo caía no chão, mecha por mecha. Símbolos de vaidade, poder e controle se perdendo. Quando tudo terminou, Pereira se aproximou. — Recado do delegado Alex — disse, firme. — Ele sabe exatamente onde vocês estão. E disse que em breve vai visitá-las pessoalmente. O silêncio que se seguiu foi mais c***l do que qualquer palavra. Alex recebeu a confirmação horas depois. Apenas assentiu, desligando o telefone. À noite, depois de um dia longo, passou no hospital antes de ir pra casa. Alicia dormia quando ele entrou. O cabelo mais curto moldava seu rosto de um jeito diferente, mas ainda lindo. Ele se aproximou devagar, ajeitou a manta e sussurrou: — Tá tudo sob controle agora. Eu prometo. Alan chegou pouco depois, ainda de jaleco. — Plantão puxado — comentou. — Mas você tá com um sorriso — respondeu Alex. Alan sorriu de verdade. — Porque ela tá aqui. Viva. E logo vai pra Ilha com a gente. Alex olhou para Alicia, sentindo algo finalmente se acomodar dentro do peito. — Então agora… — disse — agora é só cuidar dela. E pela primeira vez em muito tempo, aquilo soava como uma promessa possível de cumprir.
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